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domingo, 8 de setembro de 2013

Não basta desejar que um problema se resolva



(Click here for the English version)

Os cães não são brinquedos mecânicos que apenas têm um comportamento diferente consoante o botão que se prime. Tal como as pessoas, têm personalidades diferentes, irão comportar-se de forma diferente consoante o seu carácter, a sua educação e a forma como foram criados.
Esperar que tenham todos o mesmo comportamento em qualquer situação é não só ingénuo como potencialmente perigoso – para o dono, para as outras pessoas e para os cães. Se é isso que pensa, talvez seja melhor adquirir um cão de porcelana. Pelo menos com esse não terá surpresas quanto ao seu comportamento.


Nos últimos tempos tenho sido contactada por várias pessoas a pedir ajuda com problemas de comportamento e/ou convivência com os seus cães. E são flagrantes das diferenças entre algumas delas…
  • Há a pessoa que contacta à procura de ajuda para encontrar um novo dono para o seu cão. É que chegou à conclusão que o seu cachorro de poucos meses de idade é demasiado energético para a sua vida, e apesar de ter sido um cão desejado, não está disposta a fazer alterações no seu estilo de vida para o acomodar, mesmo sabendo que é uma fase temporária.
  • Há o jovem casal que contacta, da outra ponta do continente, a pedir ajuda com a sua cadelita com ansiedade de separação, uma situação ainda mais complicada de resolver pelo facto de viverem num prédio de apartamentos e terem de sair para trabalhar todos os dias. Quem já lidou com este tipo de problemas sabe que não é minimamente fácil de resolver, que exige muito empenho e muito tempo – coisa que têm estado a fazer e que estão empenhados em continuar durante o tempo que for preciso.
  • Há o casal de meia-idade com problemas com o seu cão de guarda adolescente, com reações agressivas para com outras pessoas, que se veio a verificar derivavam em grande parte do excesso de controlo por parte dos donos e sentimentos insegurança mútua de parte a parte – um problema relativamente simples de resolver de base mas que exige empenho e algumas mudanças por parte dos donos; Aliás, e menos de 5 minutos de o conhecer, já o cão tinha passado de um show-off “sou o cão mais mau da terra e arredores” para “anda brincar comigo e dar-me mais biscoitos”. Após a primeira consulta, não voltaram a contactar, apesar de me abordarem posteriormente e noutro local em que calhou encontrarmo-nos, admitindo que não tinham implementado as alterações sugeridas e que continuavam com problemas com o cão.

Pense em algum hábito seu que tenha tentado alterar… Como resolução de ano novo talvez tenha decidido começar a fazer mais exercício? Ou, com a aproximação do Verão, talvez tenha optado por começar a fazer dieta e ter uma alimentação mais racional? Ou deixar de fumar?
Conseguiu? Parabéns! Mas não foi fácil, pois não? Nas primeiras semanas seguramente até pensou em desistir! Mudar as rotinas estabelecidas é difícil, o corpo diz-nos para fazermos uma coisa e a cabeça diz-nos para fazermos outra… Mesmo que se trate de uma decisão tomada conscientemente!
Gradualmente, começamos a aperceber-nos daqueles pequenos elementos subtis que desencadeiam os nossos velhos hábitos – o café seguido de um cigarro, o quadrado de chocolate no fim de um trabalho bem feito, etc., e lutamos para não ceder à tentação.
Durante dias e semanas tudo nos parece difícil e ineficaz, mas como que de repente, apercebemo-nos que já não temos os desejos, a vontade de regressar aos hábitos antigos. Sucesso!

E estamos a falar aqui de uma “simples” mudança consciente de hábitos, coisas que queremos alterar por nossa própria vontade. Mas se até connosco isso é difícil, mais difícil se trata no caso de estarmos a lidar com animais, em que não lhes podemos explicar que é para o bem deles e que ficarão bem mais felizes na sua vida se alterarem os seus comportamentos.

Além disso, a modificação de comportamentos em cães passa muitas vezes (a maioria?) por uma modificação dos comportamentos dos seus donos.
Os cães são exímios a ler a nossa linguagem corporal, e a reagir de acordo com ela, não de acordo com aquilo que pensamos estar a transmitir.

Imagine esta situação extremamente comum: está a passear o seu cão de grande porte na rua. Ao aperceber-se de alguém ao longe com um cão, o que é que você faz? Inconscientemente fica um pouco tenso, agarra a trela com mais força, mantendo-a tensa, e continua a avançar.
Não entrando nos detalhes sobre porque tudo isto é errado (talvez seja tema para num novo post), vamos ver apenas como esta situação é entendida pelo dono e pelo cão.
  • Dono – “Eu agarrei a trela com força para conseguir segurar o meu cão forte não vá dar-se o caso de ele querer ir atacar o outro cão.”
  • Cão – “Estava eu aqui tranquilo no meu passeio quando o meu dono ficou tenso quando viu outra pessoa e cão. Hmm, devem ser uma ameaça, deixa-me ficar alerta não vá ser preciso eu defender o meu dono. Oh diacho, ele agora está-se a segurar bem a mim, está com medo, vai mesmo ser preciso defendê-lo, aqueles estranhos devem ser perigosos! Grrrr!
Fácil de perceber que o queríamos transmitir e o que foi efectivamente transmitido ao cão são coisas diferentes, certo?

Modificar o comportamento de cães em determinadas situações passa também muito por mudar o nosso próprio comportamento. Isso implica uma consciencialização dos detalhes dos nossos comportamentos e rotinas, um aprofundar do nosso conhecimento sobre linguagem canina, e um esforço consciente e prolongado para alterar os nossos hábitos, temporária ou permanentemente.
Não basta desejar que um problema se corrija para que fique corrigido!

E quanto a si, o que já teve de alterar na sua rotina para uma melhor qualidade de vida do seu companheiro de 4 patas e uma melhor relação mútua?

domingo, 11 de agosto de 2013

Cachorros e adultos - às vezes não é assim tão simples

(Click here for the English version)


Questão que me colocaram por e-mail há algum tempo:

Boa noite, eu encontrei o seu blog "por acaso" devido a uma pesquisa que andava a fazer sobre "Como relacionar os meus cães". E se não for muito incomodo para si, e pelo que percebi tem experiência nesta área, gostaria que me respondesse a esta questão, dentro dos possíveis.
Ora passo a explicar, eu tenho o Labrador Retriever com 6 anos, bastante sociável, carinhoso, estável e já bastante ponderado, tem por vezes aqueles picos de excitação quando está com outro macho mas rapidamente essa comportamento desaparece após se conhecerem.
Ou seja, o Bronco nunca teve problemas com outros cães, e quando digo problemas refiro-me a medo, ansiedade, ...
A questão é que à pouco tempo ele foi mordido, nada de muito grave por um Rafeiro do Alentejo, por descuido da minha parte e aquilo foi em menos de um milésimo de segundo e tenho algum medo que ele tenha ficado com algum receio a outros cães (isto foi a minha primeira conclusão).
E porquê? Porque está quase a fazer duas semanas que trouxe para casa uma cadela da raça Dogue Alemão, e a cadela como é óbvio quer brincar com ele, e acaba por chatear um pouco o Bronco e o mecanismo de defesa dele é simplesmente fugir da cadela.
No 1º dia mostrou-se muito interessado, mas quando viu que "aquela coisinha" ia ficar mudou de comportamento.
Eu tenho mantido os dois cães separados, ele tem acesso à casa toda e a cadela está na marquise devidamente acondicionada, e durante o dia junto-os entre 2 a 4 vezes no pátio, nunca mais de 30/45 min e este tempo é passado como descrevi à pouco, ela a querer brincar e ele a fugir e a evitar, mas ainda assim mostra algum interesse. E a questão do receio por parte dele em relação a outros cães é passado, porque este fim de semana um amigo trouxe cá o cão dele ( os cães não se conheciam ) e em pouco tempo estavam a brincar.
Com isto pergunto se devia mudar algo, ou o que que estou a fazer errado? Até porque isto é algo que me está a preocupar porque não pensei que corresse assim.
De frisar que a Daisy tem quase 3 meses e penso que não interpreta bem alguns sinais da parte dele. E penso não ser por ciúmes porque comem em locais separados/diferentes a horas diferentes.
Se me pudesse dar uma ajuda ficava muito grato.

A minha resposta:

Antes de fazer comentários sobre o que me expõe, quero fazer uma grande ressalva… É impossível discutir casos concretos sem ver ao certo a situação e os cães, de preferência no seu ambiente. Vou-lhe dizer o que me parece estar a ocorrer com base na sua descrição, mas tome apenas como indicações gerais, e não como algo de muito específico para o seu caso particular. Normalmente, há muitas subtilezas da comunicação canina, que a maior parte dos donos não se apercebem (incluindo pessoas supostamente com bastante experiência de cães) e que podem alterar todo o sentido com que uma pessoa interpreta uma situação.

Ora bem, então agora quanto às suas dúvidas… parece-me que temos aqui duas questões independentes

1º - A mordida ao Labrador
Não posso falar nada sobre se ficaram receios face a outros cães sem ver como se comporta, mas o facto de ele rapidamente se ter posto a brincar com o cão do seu amigo parece sugerir que não terão ficado grandes sequelas.
Uma mordida séria em cachorros pode por vezes deixar certos traumas, por ele associar a situação a qualquer estímulo – o sítio onde estava quando foi mordido, o tipo de cão que o mordeu, a pessoa com quem estava, etc. Agora num cão adulto, ainda por cima com a idade do seu, e sobretudo não sendo uma mordida séria, normalmente não deixa grandes más recordações…

2º - O Labrador com a Dogue Alemão
Nesta situação, e pelo que me descreve, faço uma leitura totalmente oposta à sua! ;)
Vamos trocar de espécie…Imagine que está sossegado em casa, a descansar, e uma criança está constantemente a vir para cima de si, aos pulos, a puxá-lo para brincar, mas você o que quer é descansar porque está cansado do dia de trabalho. O que é que faz?
Pois, extactamente!… O seu Labrador está é a ter um comportamento extremamente equilibrado!
Ok, não é propriamente a imagem que nos “pintam” quando se adquire um cachorro, que ele e o mais velho vão ser super-amigos, mas tal não está fora de questão.
Simplesmente, parece-me aqui que a cachorra é um bocado “chata” demais com o Labrador, um pouco “insistente”. E ele, como cão bem-educado que é, afasta-se para procurar um pouco de paz e sossego em vez de resmungar com ela.

Por regra, os adultos toleram muita coisa de cachorros novos, abstêm-se de fazer correctivos e deixam-nos fazer muita coisa que não deixariam cães mais velhos fazer. E isso pode levar a que cachorros sem ninguém que lhes explique como proceder fiquem abusivos. O problema é que à medida que vão crescendo, a partir mais ou menos dos 5 meses, os adultos deixam de tolerar certas coisas, e podem começar a reagir de forma diferente se o cachorro não começar a mostrar os comportamentos adequados.
Ou seja… na sua situação, mais do que preocupar-me com o comportamento do Labrador, eu preocupar-me-ia com o comportamento da cachorra. Tem de a habituar a ser mais calma com o Labrador, e a respeitar o ele não querer ser por vezes incomodado, se for preciso canalizando a energia dela para outras atividades que não envolvam “chatear” o Labrador.
E para isto, se não tiver muito habituado a interpretar comportamento canino, aconselhava que falasse com um educador canino. Não precisamos de estar necessariamente a falar de “treino” formal propriamente dito (mas que é sempre bom qualquer cão ter), mas de uma eventual modificação de comportamento, redirecionado a cachorra para atividades e brincadeiras mais benéficas para todos.
Espero que isto ajude um pouco…

quinta-feira, 1 de março de 2012

Quando começar a levar o cachorro à rua

(English version here)


Uma preocupação comum dos novos donos de cachorros é quando podem começar a levar os seus cachorros à rua. Normalmente recomento que os comecem a levar alguns dias após terem recebido as suas primeiras vacinas. Claro que, como nenhum cachorro sai de nossa casa sem que se tenham passado alguns dias da sua primeira (ou segunda, dependendo do tipo) dose de primo-vacinação, na prática isto significa que podem começar a sair a partir do momento que o cachorro esteja adaptado à sua nova família. Actualmente as vacinas são muito mais seguras que antigamente, podem ser administradas mais cedo e há mais cães vacinados, o que leva a que cães estranhos sejam menos propensos a transmitir doenças.
No entanto, ainda há muita informação desactualizada a circular, principalmente por parte de pessoas bem-intencionadas mas inexperientes ou veterinários da velha guarda

Para ajudar a refutar alguns desses mitos, reproduzo abaixo a minha tradução de uma carta aberta do Dr. R.K. Anderson, DVM, MPH, DACVB, DACVPM, uma referência no mundo da veterinária comportamentalista e fundador do Animal Behavior Resources Institute.


O ênfase em algumas das frases é meu.

A vacinação dos cachorros e a socialização atempada devem andar de mãos juntas

Diplomate ACVB and ACVPM
Professor and Director Emeritus, Animal Behavior Clinic and Center to Study Human/Animal Relationships and Environments
University of Minnesota
1666 Coffman Street, Suite 128,
Falcon Heights, MN 55108
Phone 612-644-7400 FAX 612-644-4262

Uma carta aberta aos meus colegas na Medicina Veterinária:

Os cachorros começam a aprender aquando do nascimento e o seu cérebro parece ser particularmente receptivo à aprendizagem e a reter experiências que são encontradas durante as primeiras 13 a 16 semanas após o nascimento. Isto significa que os criadores, os novos donos dos cachorros, os veterinários, os treinadores e os especialistas em comportamento têm a responsabilidade de ajudar a fornecer experiências atempadas de aprendizagem e de socialização com outros cachorros/cães, com crianças/adultos e com várias situações ambientais durante este período óptimo do nascimento às 16 semanas de idade.

Mutis veterinários tornam este programa de socialização e aprendizagem precoce parte de um plano total de bem-estar para criadores e novos donos de cachorros durante as primeiras 16 semanas da vida do cachorro – as primeiras 7-8 semanas com o criador e as 8 semanas seguintes com os novos donos. Estas aulas de socialização devem envolver cachorros das 8 às 12 semanas de idade como uma parte essencial de qualquer Programa de Bem-Estar para melhorar a relação entre os animais de companhia e as suas pessoas e aumentar a retenção dos cães na sua primeira casa de cachorro (ver JAVMA, Vol 223, No. 1, páginas 61-66, 2003)

Para beneficiar ao máximo deste período especial de aprendizagem, muitos veterinários recomendam que os novos donos levem os seus cachorros a aulas de socialização de cachorros, começando pelas 8 ou 9 semanas. Com esta idade terão recebido (e deve-lhes ser requerido) um mínimo da sua primeira série de vacinas de protecção contra doenças infecciosas. Isto fornece a base para uma imunidade cada vez maior através da exposição repetida a estes antigénios, quer através da exposição natural em pequenas doses quer pela exposição artificial com vacinas durante as 8 a 12 semanas seguintes. Adicionalmente, o dono e as pessoas oferecendo a socialização do cachorro devem tomar precauções para que o ambiente e os cachorros que participam estejam relativamente livres de exposição natural através de boa higiene e ambientes relativamente limpos.

A experiência e dados epidemiológicos apoiam a relativa segurança e ausência de transmissão de doenças nestas aulas de socialização de cachorros ao longo dos últimos 10 anos em muitas partes dos Estados Unidos. Efectivamente, o risco de um cão morrer com uma infecção por esgana ou parvovirose é muito menor que o risco muito mais elevado de o cão morrer (eutanasiado) devido a um problema de comportamento. Muitos veterinários oferecem agora, aos novos donos de cachorros, aulas de socialização nos seus hospitais ou em instalações de treino nas imediações, com a assistência de treinadores e especialistas em comportamento. Isto enfatiza a importância de socialização e treino atempados como partes importantes de um plano de bem-estar para todos os cachorros. Precisamos de reconhecer que este período especial sensível à aprendizagem é a melhor oportunidade que temos para influenciar o comportamento para os cães e a parte mais importante e duradoura de um plano de bem-estar total.

Há riscos? Sim. Mas 10 anos de boa experiência e dados, com raras excepções, fornecem aos veterinários a oportunidade para de uma forma geral recomendarem aulas de socialização e treino precoces, começando quando os cachorros têm 8 a 9 semanas de idade. No entanto, devemos respeitar a opinião profissional de cada veterinário, em casos ou situações individuais, em que circunstâncias especiais requeiram maior imunização de um dado cachorro antes de o inscrever em aulas de socialização e treino precoces entre as 8 e as 12 semanas de idade. Tenha em atenção que durante qualquer período de atraso na inscrição em aulas para cachorros, os donos devem começar um programa de bem-estar substituto com socialização precoce a crianças, adultos, outros animais e estímulos ambientais fora da sua família, para beneficiarem deste período especial da vida do cachorro, tendo em consideração o planeamento e quaisquer preocupações do veterinário do cachorro.

Lembre-se que o risco de um cão morrer (eutanasiado) devido a problemas comportamentais é mais de 1000 vezes o risco de morrer por esgana ou parvovirose. A aprendizagem precoce, a socialização dos cachorros e a vacinação adequadas devem andar juntas num programa de bem-estar desenhado para proteger as vidas dos cães e melhor a sua ligação às famílias.

Se houver mais questões, os veterinários/treinadores podem contactar-me para discussão e clarificação.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Cachorros brincando com cães adultos

(English version above)

É muito importante que, durante o seu crescimento, os cachorros se habituem a lidar quer com pessoas quer com outros cães que não a sua mãe. É desta forma que aprendem os códigos de conduta próprios da sua espécie, que aprendem a relacionar-se e a comunicar com outros cães. Se forem privados destas experiências, quando forem mais velhos poderão vir a ter dificuldades em lidar com outros cães que encontrem ao longo da sua vida, o que pode mesmo levar a eventuais agressões devidas a desentendimentos por problemas de comunicação.

Pode ver aqui um artigo que escrevi para a revista “Cães e Companhia” sobre o desenvolvimento comportamental dos cães desde o nascimento até à idade adulta:



Em nossa casa, os nossos cachorros são primeiro apresentados aos outros cães da sua raça/tipo morfológico. Inicialmente apenas interactuam com os adultos um a um. Depois, à medida que vou avaliando o comportamento quer dos cachorros quer dos adultos, irão brincando com cada vez mais cães. Neste vídeo, os cachorros, com 7 semanas, estão a brincar com a maioria dos nossos Teckels e Drevers adultos. Naturalmente, isto apenas aconteceu depois de várias semanas a apresentar os cachorros aos adultos.



Depois de os cachorros estarem à vontade com os cães do seu tipo e porte, começo a apresentá-los aos cães de tamanho e comportamento diferente.
Neste vídeo, os cachorros estão a conhecer alguns dos nossos Barbados da Terceira.
Uma das vantagens de termos cães de raças diferentes, com características físicas e comportamentais distintas, é que os nossos cachorros aprendem desde cedo a relacionar-se com diferentes tipos de cães, aprendendo as diferenças de comportamento e comunicação associadas a diferentes morfologias e funcionalidades.



ATENÇÃO: Não recomendo a qualquer pessoa que coloque vários cães adultos e cachorros juntos. Apenas pondere fazê-lo se conhecer muito bem o comportamento de cada um quer com os cachorros quer com os outros cães e se tiver excelentes conhecimentos de comportamento canino e de interpretação de linguagem corporal (de forma a poder aperceber-se de qualquer problema antes que escale). Naturalmente, mesmo assim, apenas deverá fazê-lo se puder estar vigiar adequadamente os cães. Facilmente uma brincadeira poderá levar a um aumentar do nível de excitação dos cães de forma a que possam inadvertidamente magoar um cachorro. O próprio comportamento dos cachorros, diferente do dos adultos, pode levar a um despoletar do instinto predatório o que, associado ao comportamento de matilha por estarem vários cães juntos, pode levar a que haja danos sérios aos cachorros se não houver uma supervisão estrita por parte de uma pessoa experiente! 


E quanto a si, o que faz para tentar assegurar que o seu cão se entende com quem se encontra na rua?

sábado, 17 de dezembro de 2011

Um cachorro para o Natal?

(Englosh version above)

(Este artigo foi inicialmente publicado, ligeiramente modificado, na revista Cães e Companhia nº 175, Dezembro 2011)


O Natal é tradicionalmente uma época de paz, alegria e… cachorros como presente?
Será que é boa ideia oferecer um ser vivo em épocas festivas, sobretudo quando é uma surpresa para quem o irá receber? Este texto procura abordar algumas questões relativas à aquisição de um cachorro, sob um ponto de vista talvez um pouco menos tradicional.




Há criadores e criadores

Todos nós reconhecemos que os médicos não são todos iguais, uns são melhores e mais eficientes no seu trabalho e outros piores. Também sabemos que há bons e maus mecânicos, canalizadores que conhecem o seu trabalho a fundo e outros que só andam a “tapar buracos”, etc. No entanto, no colectivo popular os criadores de cães parecem estar todos “enfiados no mesmo saco”; há uma tendência para se pensar que todos só querem criar o máximo de animais ao menor custo para tirar o máximo de lucro ao longo da vida das pobres das cadelas. Mas quem se dedica à criação de cães pode fazê-lo por uma variedade de razões, que indubitavelmente irão afectar o resultado final.

Incontestavelmente, há criadores que efectivamente se dedicam a criar cães com o objectivo claro de ganhar dinheiro, em que procuram maximizam a vida reprodutiva dos seus animais (independentemente da sua saúde, património genético ou qualidade) ao menor custo possível, de forma a maximizar a sua margem de lucro. São criadores que não se preocupam com o destino final dos seus cachorros, desde que sejam vendidos, e que aproveitam ao máximo a compra por impulso – como o cachorro tão querido na montra de uma loja de animais num centro comercial -, evitando que o potencial comprador veja os cachorros e os seus restantes exemplares no ambiente em que vivem normalmente. São os chamados “puppy mills” ou “fábricas de cachorros”. Em Portugal serão uma minoria dos casos, mas a fonte mais frequente dos cachorros vendidos em lojas.

A grande maioria dos cães criados provêm de “simples” donos de fêmeas em idade reprodutiva, pessoas que, sem terem necessariamente intenções de lucro, fazem criação por uma grande variedade de razões (desculpas?) – porque querem ter um filho da sua cadelinha tão linda, porque ainda está enraizada a ideia que todas as cadelas devem ter pelo menos uma ninhada na vida (ou que todos os cães devem cruzar pelo menos uma vez), porque têm um cão de raça pura e como tal devem criar, quanto mais não seja para “recuperarem” o dinheiro que gastaram nele, porque as crianças devem poder ver o “milagre do nascimento”, porque não controlaram a sua cadela no cio e ela acasalou com um cão, etc., etc. São pessoas normalmente bem-intencionadas, ou pelo contrário sem quaisquer cuidados com o maneio reprodutivo das suas fêmeas não castradas, que se limitam a juntar uma cadela com um cão, sem grandes preocupações com o que estão a produzir ou o destino ou saúde dos cachorros nascidos, desde que sejam entregues a quem “prometa estimar”. Em muitos casos, os cachorros são dados ou vendidos a baixo preço, logo após o desmame, enquanto ainda estão fase “fofinha”, sem cuidados sanitários (vacinas, desparasitações) de forma a não terem gastos com eles. Este tipo de criadores são frequentemente designados por “backyard breeders” (literalmente, “criadores de fundo de quintal”).

Finalmente há também os verdadeiros Criadores, aqueles efectivamente dignos desse nome, com “C” maiúsculo – os que criam com um objectivo definido, que se preocupam em melhorar a qualidade morfológica e funcional da raça, que se preocupam em reduzir a incidência de problemas a nível de saúde, genético e/ou comportamento que possam existir na raça. São pessoas que procuram conhecer ao máximo a sua raça e os exemplares existentes, de forma a procurar a melhor combinação possível para atingirem os seus objectivos, mesmo que seja necessário recorrer a animais que não os seus próprios. São pessoas que antes de criar procuram aferir a qualidade dos seus exemplares, que fazem despistes de saúde e genéticos para minimizar o risco de transmissão de problemas à descendência; que fazem um controlo reprodutivo das suas fêmeas, respeitando períodos de repouso e recuperação entre ninhadas, e planeiam antecipadamente as ninhadas. E são pessoas que avaliam os potenciais interessados em adquirir um dos seus cachorros, de forma a tentarem aferir se são compatíveis com a raça e personalidade de cada um dos animais criados (e recusam a venda a alguns interessados, se necessário), que procuram acompanhar o desenvolvimento de cada exemplar nas suas novas casas, estando disponíveis em qualquer altura para dar apoio aos donos, retomando ou ajudando a encontrar um novo lar, se necessário, qualquer exemplar por si criado em qualquer altura da sua vida. Serão talvez uma minoria no mar de produtores de cachorros, mas são estes os criadores que este artigo irá abordar prioritariamente.

Qual o preço do cachorro?

Esta é a pergunta mais frequente que um criador ouve. É frequentemente a única pergunta que o criador ouve. Que a pergunta ocorra é óbvio e é de facto um factor a ponderar na aquisição de um cão. Mas que seja a única? Ou efectivamente a mais importante?
Quando pretende adquirir um carro novo, não entra no primeiro stand que vê e diz ao vendedor “Quero um carro azul. Quanto custa?”, pois não? Irá decidir que tipo de veículo necessita, comparar as características técnicas dos automóveis de várias marcas dentro da gama que pretende, e só depois de ter ideia do que quer irá comparar os preços para as marcas e modelos pré-seleccionados, e em vários stands, certo? No entanto, quando se pretende adquirir um ser vivo que irá ser parte integrante da nossa vida durante 10 a 15 anos, a maior parte das pessoas apenas parece preocupar-se com o preço, sem procurar conhecer as “características técnicas” do animal. Tal como os criadores não são todos iguais, o potencial de cada cachorro, e os cuidados que lhe foram prestados, variam.

Nos numerosos sites de anúncios grátis existentes na net, é comum encontrar cachorros à venda por valores irrisórios. Quando se pergunta a um criador sério quanto custa um cachorro da mesma raça, obter-se-á um valor nitidamente superior. Porquê a diferença? Há razão para comprar um cachorro mais caro quando se encontram mais baratos? Sim! E há motivos quer a curto quer a longo prazo. Criar um cachorro adequadamente, de forma a dar-lhe o melhor início de vida possível, não é barato. Há que considerar a ração de boa qualidade e adequada à idade e estado fisiológico que deve ser dada à mãe e às crias após o desmame, os suplementos (vitaminas, minerais) quando necessários, as desparasitações regulares e frequentes que devem ser feitas a cada um dos bebés e à mãe, as vacinas, os brinquedos para estimulação física e mental… isto sem sequer contabilizar o tempo despendido pelo criador a assegurar-se que o parto corre da melhor forma, que os cachorros mamam adequadamente, a socializa-los e habituá-los a várias situações que irão encontrar na sua vida futura, etc..
Claro que se pode ver aqui várias formas de poupar dinheiro e vender cães baratos – com uma ração de baixa qualidade, que não cobre adequadamente as necessidades especais dos animais nesta fase, não efectuando vacinas e desparasitações, vendendo os cachorros logo após o desmame, para não incorrer nos gastos da sua alimentação, etc.… Naturalmente, isto tem consequências a nível da saúde actual e futura do cachorro. Enquanto está a mamar, a cria recebe anti-corpos da sua mãe através do leite, mas no desmame essa protecção termina, apenas sendo recuperada com uma vacinação adequada. Se o cachorro mudar de família logo após o desmame, isso irá ocorrer numa situação em que as suas defesas estão significativamente reduzidas, pelo que tem um risco aumentado de contrair doenças na sua nova casa, um ambiente novo potencialmente com riscos que não existiam no local onde nasceu. Algumas doenças adquiridas nesta idade são fatais ou deixam sequelas para o resto da vida!
A longo prazo, também a nível comportamental é um risco adquirir um cachorro de tão tenra idade. Ao longo do crescimento do cachorro, ele passa por diferentes fases de desenvolvimento não só físico como psicológico. Entre as 3 e as 12 semanas, ocorre o que é designado como “período de socialização”, em que aprende as regras de comportamento primeiro com outros cães e depois com outros animais e pessoas. Um cachorro que saia demasiado cedo de perto da sua mãe e irmãos para uma nova casa não terá ocasião de aprender as regras de comunicação e etiqueta caninas, e tem riscos acrescidos de, por essa razão, vir a ter problemas futuros no relacionamento com outros cães e pessoas.

Um criador sério irá recusar-se a vender um cachorro antes dos 2-3 meses de idade. Desta forma, poderá proceder a um correcto plano de desparasitação e primo-vacinação, procurando assegurar que quando o cachorro sai tem já as defesas necessárias para resistir às “agressões” do novo ambiente (mas é fundamental que o novo dono complete o plano para uma protecção adequada). Este período passado com o criador permite também que o cachorro adquira os elementos básicos da interacção social com outros cães e pessoas e permite que comece a ser feita uma socialização a diversos tipos de situações, que deverá depois ser continuada pelo novo proprietário.

Há mais para além do preço

Se está a ler este texto é porque tem, a priori, um interesse em cães superior à média da população e irá esforçar-se por ser um bom dono para um cão que venha a adquirir. Tendo já noções básicas do que é necessário para ter um cão, ou experiência prévia, é natural que a sua principal preocupação quando for adquirir um cão seja o seu preço. Mas o criador que irá contactar não o conhece! Quando é contactado e apenas lhe perguntam pelo preço, a ideia que é transmitida por vezes é apenas a de que estão à procura de um cão o mais barato possível, o que é deveras desencorajante para quem procura a melhor casa possível para os seus cães.
Adicionalmente, há mais factores a considerar quando se adquire um cão, que fazem com que o preço de compra acabe por ser um factor secundário no cômputo geral.

Pode (e deve!), por exemplo, perguntar-se sobre as patologias existentes na raça, e o que é que o criador está a fazer para tentar minorar o seu efeito. Quando se compra um cachorro cujos progenitores tenham feito testes de despiste para as principais doenças que afectam a sua raça, e apesar de tal não ser uma garantia que o cachorro será indemne delas, pelo menos tem-se uma ideia de qual o real risco de vir ou não a ser afectado; um cachorro proveniente de animais não testados é sempre um “tiro no escuro”, uma lotaria em que não se sabe o que se está a adquirir.

Deverá pedir-se para ver os cachorros e a progenitora da ninhada (por vezes o pai não pertence ao criador, pelo que poderá não estar presente) e tentar avaliar se os cachorros parecem estar em boas condições físicas e comportamentais – com pelo brilhante, olhos limpos, activos e brincalhões, etc. Se o criador recusar, desconfie e inquira; se é certo que em cachorros de tenra idade o manuseamento por estranhos pode ser um risco de saúde, depois de os cachorros estarem adequadamente vacinados esse risco é mínimo.

Questione o criador sobre o que lhe passar pela cabeça que possa ser relevante; um criador sério estará disponível para responder e educar potenciais interessados. Esteja também preparado para que o criador lhe coloque questões, de forma a aferir se a raça e algum indivíduo em particular é ou não adequado para si. Afinal, um S. Bernardo de 70 kg talvez não seja a escolha ideal para a nossa frágil avó de 70 anos; um Pug certamente não será o mais indicado para o jovem dinâmico que gosta de correr 20 km todos os dias na companhia do seu cão; um terrier escavador não será perfeito para quem gosta de ter um jardim imaculado.
E, muito importante, visite vários criadores antes de tomar uma decisão! Converse com eles, questione e responda às perguntas, forme a sua opinião e decida de forma informada. Lembre-se que o preço que pagará pelo seu cachorro inclui não apenas o seu custo no momento, mas também todo o apoio que o criador disponibilizará ao longo da vida do animal.

Tem cachorros disponíveis?

Esta é normalmente a 2ª pergunta mais comum ao criador, quando se chega à fase da 2ª pergunta. Também por razões óbvias. A pessoa sabe que quer adicionar um companheiro de 4 patas à sua vida, por isso quer fazê-lo quando tomou essa decisão. Porém, essa não é necessariamente a melhor via!
Um criador normalmente não tem cachorros sempre disponíveis, tê-los á quando achar que encontrou uma combinação de progenitores que lhe permitirá chegar mais perto dos seus objectivos. No caso de possuir numerosos exemplares, isso talvez lhe permita gerir as suas fêmeas de forma a efectivamente ir fazendo várias ninhadas ao longo do ano, se o desejar e tiver uma procura adequada. No entanto, caso tenha poucos exemplares, as suas ninhadas serão mais espaçadas no tempo, haverá períodos em que não vai ter jovens disponíveis.

Caso se trate de uma raça relativamente popular, haverá certamente criadores responsáveis em número suficiente para que, com um pouco de pesquisa, o futuro proprietário encontre um criador que lhe agrade com cachorros disponíveis. No entanto, no caso de raças mais raras, com poucos criadores, a probabilidade é a de não encontrar cachorros disponíveis quando a pessoa se lembrou que quer um. Nesse caso, o ideal é a pessoa inscrever-se na lista de espera do criador, aguardando que este tenha uma ninhada disponível. Isto irá dar-lhe uma maior hipótese de vir a ter o cachorro desejado, até porque muitos criadores apenas criam quando têm boas casas asseguradas para os seus cachorros.

Beneficie deste período para ir conversando com o criador, colocar todas as dúvidas e questões que lhe ocorrerem e ir preparando com calma e tranquilidade a chegada do seu novo companheiro. Aproveite também para ponderar seriamente se é a altura certa para adquirir um ser vivo que irá requerer cuidados e atenção constantes durante 10 ou mais anos. Vivemos numa sociedade de consumo e gratificação imediatos, em que adquirimos bens sem ponderar seriamente se necessitamos deles e o que faremos com eles no futuro. Um animal não é um peluche ou playstation que podemos deixar numa prateleira quando nos fartamos dele!

Um cachorro para oferecer?

O Natal é tradicionalmente uma das alturas em que há mais procura por cachorros. Há quem ache que é o presente ideal, quem queira oferecer um cão ao(à) cônjuge, a um familiar, ou mesmo a um amigo. Também é comum quem queira oferecer um cachorro ao filho, porque há meses que faz birra que quer um, ou porque teve boas notas no primeiro período, ou para “ensiná-lo a ser responsável”… No entanto, sob o ponto de vista de um criador sério, o Natal é uma das épocas do ano mais problemáticas! É uma das alturas em que mais difícil separar o trigo do joio em termos de potenciais casas para cada um dos seus cachorros. Isto porque normalmente oferecer um cachorro de surpresa a alguém dá maus resultados. A aquisição de um ser vivo deve ser um acto bem ponderado, em que todos os envolvidos devem ter participado da decisão e estar de acordo. Caso contrário corre-se o sério risco de não haver tempo ou vontade para cuidar dele de forma adequada, se perder o interesse pela “novidade”, etc., levando ao aumento do abandono pouco tempo depois do Natal.

Um exemplo clássico é a aquisição de um cão para “dar responsabilidade à criança”. O princípio é muito bonito, mas o que acontece quando o jovem regressar às aulas e deixar de ter tempo disponível para o cão? Ou quando passar a novidade ou o cachorro crescer, e o seu filho perder o interesse no cão, como acontece sobretudo com crianças mais novas (ou adolescentes que subitamente encontram outros interesses na sua vida)? Se os pais não tiverem assumido previamente que a responsabilidade final do cuidado pelo animal recai sobre eles, mais cedo ou mais tarde é provável que ele seja abandonado. Que responsabilidade se está então a ensinar aos jovens? Que quando se perde interesse, é legítimo abandonar um ser vivo?

Também sob o ponto de vista do próprio cachorro, a época festiva não é a mais adequada para mudar de casa. O canito já está a passar pelo choque de subitamente se ver sem tudo aquilo que conhecia e num ambiente estranho. Um ambiente que, neste período é tipicamente de grande agitação, com as férias escolares, a família e amigos em casa, etc., quando o que ele precisa é de tranquilidade para se ambientar à nova casa e se desenvolver de forma equilibrada. E quando ele finalmente se começa a acostumar à sua nova vida, eis que tudo muda novamente – as férias acabam e as crianças regressam às aulas, os adultos ao trabalho, e o ambiente altera-se novamente. Será preferível aguardar por este período pós-festas para acolher o cachorro, de forma a que faça uma integração suave no que é o ritmo normal ao longo do ano da sua família de acolhimento.

Se efectivamente ficar acordado oferecer um cachorro no Natal, se a decisão for tomada de forma responsável, com o acordo de todos os envolvidos e do criador, porque não, em vez de sujeitar o cachorro a esta época confusa, elaborar com o criador uma espécie de “pacote de boas-vindas” para quem irá receber o cão, a oferecer no Natal em vez do cão, como preparação prévia para ir buscar o cachorro em melhor ocasião?

Adopte, não compre?

Sendo o Natal uma altura em que a aquisição de cães é tradicionalmente superior, as campanhas de adopção responsável de cães abandonados são também mais visíveis. Frequentemente o lema escolhido é algo nas linhas de “adopte, não compre” ou “cada cão comprado é um cão num canil que é abatido”. Mas isto não será um pouco de chantagem emocional?

Frequentemente o público que procura um cão de raça a um criador é algo diferente do que adopta um cão de um refúgio. Enquanto que este último “apenas” (sem qualquer sentido perjorativo!) procura um fiel companheiro, quem procura um cão de raça tipicamente fá-lo porque deseja encontrar um certo número de características físicas e comportamentais que são mais fáceis de encontrar um cão de raça do que num sem raça definida, devido à selecção efectuada que leva a que as características sejam substancialmente mais previsíveis num cachorro de raça. (1)

De qualquer forma, apesar de um cachorro comprado potencialmente até poder significar, no imediato, que um cão abandonado não será adoptado, as consequências a longo prazo poderão ser diferentes. Quando se adquire um cachorro a um criador sério, está-se ao mesmo tempo a assegurar um acompanhamento ao longo da sua vida, o criador está disponível para ajudar o proprietário no que puder, inclusive para retomar o cão se tal for necessário; diminui-se assim grandemente o risco do exemplar ser abandonado mais tarde. Quanto maior for a proporção de exemplares adquiridos a criadores empenhados, vs. puppy mills ou criadores de fundo de quintal, menor será a probabilidade de virem a acabar abandonados.

Faça o seu trabalho de casa!

Há alguns anos atrás, poderia ser difícil, para quem não estava no meio da canicultura, saber como encontrar um criador de determinada raça e o que procurar num cachorro. Hoje em dia, com o papel preponderante da internet nas nossas vidas, com meios de comunicação especializados disponíveis ao grande público, essa tarefa simplificou-se consideravelmente. Despenda tempo a pesquisar a raça que escolheu (e seja objectivo quanto à origem da informação consultada!!), visite vários criadores e converse com eles, mesmo que não esteja a planear adquirir já um exemplar - é fundamental saber se a sua escolha se adequa ao seu estilo de vida e personalidade, é importante encontrar um criador em quem possa confiar e sentir que irá ter apoio sempre que necessitar, em qualquer fase da vida do animal. Fundamentalmente, use o seu bom-senso e espírito crítico e não caia na armadilha da gratificação imediata. Um animal na nossa vida é uma grande responsabilidade, exige tempo e dedicação ao longo de anos, não irá permanecer cachorro pequenino e fofinho durante muito tempo. Esta é provavelmente uma das decisões mais importantes que irá tomar na sua vida! Certamente quererá tomá-la dispondo do máximo de informação possível, certo?

E já agora, depois de adquirir o seu cachorro, procure manter um contacto regular com o criador. Ele deixa um pouco de si em cada cachorro que entrega, e também gostaria de ter notícias deles, saber que se está a desenvolver bem (ou não) e que ele e a sua família estão felizes!



(1) Em Portugal, ainda não são comum os “breed rescues”, grupos que se dedicam à recolha e re-alojamento de cães abandonados de uma dada raça ou grupo de raças

sábado, 6 de agosto de 2011

Video sobre prevenção de mordidas // Dog bite prevention PSA

Já fiz alguns posts sobre como abordar cães desconhecidos e sobre como interpretar a linguagem corporal dos cães para identificar sinais de stress. O problema com a maioria das mordidas de cães a pessoas não tem a ver com o cão atacar sem avisar (situação rara e normalmente depois de o cão ter sido “ensinado”, intencional ou inadvertidamente, a não manifestar os sinais de aviso), mas sim porque as pessoas não sabem interpretar os sinais que o cão emite. A Dra. Sophia Yin, veterinária especialista em comportamento animal de renome internacional, lançou recentemente o vídeo abaixo, ilustrando como esta simples realidade leva a que tantas pessoas são mordidas anualmente. No seu site também encontra informação sobre a interpretação da linguagem corporal disponível para download.
Procure informar-se sobre o significado das posturas e comportamentos dos cães, quer para seu benefício quer para o do seu cão e do de outros que encontre!

I have posted before on how to approach strange dogs and on how to interpret canine body language to identify stress signs. Most dog bites occur not because the dog attacked without warning (which seldom happens, and normally only after the dog was intentionally or unwillingly “taught” not to show warning signs), but rather because people do not know how to interpret the signs the dog is conveying. Dr. Sophia Yin, internationally acclaimed behaviour expert veterinary, has recently published the video below, showing how this simple reality leads to so many people being bitten every year. On her site you will also find information about interpreting body language available for download.
Get informed about canine body language and behaviour, both for your sake and for that of your dog and other dogs you may encounter!

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Ian Dumbar on TED

Interessante palestra do Dr. Ian Dunbar, especialista em comportamento canino de renome, sobre a educação e treino de cães (e pessoas ;) )

Interesting lecture by Dr. Ian Dunbar, renowned dog behavior specialist, on dog (and not only ;) ) education and training


terça-feira, 5 de julho de 2011

Passear com o cão à solta - Sim… Não… Talvez…

(versão inglesa acima)

As férias de Verão chegaram, com o bom tempo e os dias longos. Com elas vem a disponibilidade para passar mais tempo ao ar livre com a família – tanto a de 2 como a de 4 patas. E a tentação de andar com o nosso companheiro canino à solta é naturalmente grande, tanto mais que no resto do ano, por razões diversas, normalmente temos menos tempo disponível para ele. Mas será que o devemos fazer de qualquer maneira?



Dificilmente alguém irá contestar o facto que os cães precisam de andar à solta. São animais sociais e activos, que precisam de poder desgastar regularmente as suas energias e de ser estimulados física e psicologicamente. Os simples passeios higiénicos diários, à trela, rápidos e em sítios conhecidos, dificilmente serão suficientes para satisfazer as necessidades dos nossos companheiros. Ao contrário do que popularmente se pensa, mesmo os de pequeno porte não satisfazem as suas necessidades de exercício com o andar em casa; muitas vezes, têm mesmo necessidades proporcionalmente maiores que as de cães de porte superior.
Quando correm bem, os passeios à solta são uma excelente oportunidade para reforçar os laços e cumplicidade existentes entre o dono e o seu cão. Mas existem numerosas oportunidades para que corram mal, e o dono deve estar ciente delas para se poder precaver.

Bom senso… e obediência!
A maioria dos riscos, infelizmente, advém muito da falta de cuidado… Vezes demasiadas se vêm cães sem trela, mesmo em espaços confinados e/ou desconhecidos, a manifestar evidentes sinais de stress, a embater contra objectos (nomeadamente as cada vez mais presentes portas de vidro, que os cães não apreendem de imediato que constituem uma barreira, por verem o que está do outro lado). Um cão à solta tem, por inerência, maior probabilidade de se magoar ou de causar danos, mesmo que não intencionalmente. Um cão que se assuste ou que persiga algum animal, facilmente corre para o meio da estrada, arriscando-se seriamente a ser atropelado. Ou a embater em alguém, por estar mais focado no que está a perseguir do que no que se passa em seu redor. Um cão à solta deve ser um cão treinado, obediente, que responda à chamada do seu dono qualquer que seja a situação, de forma a precaver situações problemáticas. Isto é necessário não só em espaços abertos, mas mesmo também quando se tem o animal à solta em espaços vedados, como parques para cães – não deixa de haver pessoas e outros cães a quem é necessário prestar atenção, para que o passeio seja uma experiência agradável para todos os envolvidos.

Propensão racial
Algumas raças têm tendência a serem mais atentas ao dono, enquanto outras tendem a ser mais independentes. Os cães de pastoreio, por exemplo, tendo sido selecionados para trabalhar sob a supervisão de pessoas, tendem a ser mais responsivos aos desejos do dono e a permanecer mais nas suas imediações, e o inverso tende a ocorrer com os cães de montanha, mais independentes e exploradores da área em que se encontram. Já os sabujos, por exemplo, apesar de serem bastante atentos ao dono, quando encontram um cheiro que lhes interesse e começam a seguir o rasto, manifestam uma notável “surdez selectiva”. Isto porque essa actividade é para eles bastante mais atractiva e recompensadora que a mera presença do dono (por muito que custe a alguns donos assumir isto). Naturalmente, isto são as tendências gerais, e existe muita variação individual dentro de cada raça, frequentemente até mais que entre raças. No entanto, é uma boa regra empírica considerar os diferentes tipos raciais e a sua tendência para se comportar de forma diferente quando estão à solta, para os donos implementarem estratégias para assegurar a obediência do seu cão em qualquer situação – há que procurar garantir que constituem o principal foco de interesse do seu companheiro, mais interessante que qualquer outra actividade.

“Ele só quer brincar!”
Está você na praia a relaxar quando, vindo do nada, aparece um cão a correr atrás de uma bola atirada por alguém, fazendo uma curva apertada mesmo em cima da sua toalha e dando-lhe um banho de areia. Como se isso não fosse suficiente para destruir a sua boa disposição, um outro sai do mar e sacode-se vigorosamente ao seu lado, dando-lhe desta vez literalmente um banho de água fria. Por muito que goste de cães, este não será certamente um dos seus momentos favoritos!
Quando passeia no parque, a situação poderá tornar-se ainda mais complicada. O seu cão até poderá só querer brincar, mas as outras pessoas têm também direito a poder disfrutar o espaço público da sua forma, sem serem importunadas. Ele até pode ser o cão mais simpático e bonacheirão da zona, mas isso não é razão para deixar o seu S. Bernardo de 70 kg ir a correr desenfreadamente para cima de um transeunte a pedir-lhe festas, enchendo-o de baba, só porque “ele só quer brincar”. Ou para deixar o seu Collie andar a correr à volta das pessoas tentando juntá-las num único grupo, mordiscando os seus calcanhares (comportamento de pastoreio). Deve ainda ser prestada atenção especial a locais ondem andem pessoas de bicicleta, patins, trotinetes, etc., já que a maioria dos cães tende a associá-los a presas a perseguir.
Se o seu cão não estiver habituado com crianças, ou pouco, vigie-o cuidadosamente em zonas onde haja garotos a brincar. As crianças têm uma forma e um comportamento diferente do dos adultos, e cães que a elas não estejam habituados poderão não as apreender como pessoas, mas sim como brinquedos animados ou presas a perseguir.



“Ele não morde!”
Quando um cão está excitado a aproveitar os seus poucos momentos à solta e se apercebe de outro cão, muitas vezes a tendência é ir a correr ter com o outro. Quase automaticamente, o dono frequentemente deixa-o ir, limitando-se a comentar para o dono do outro “Não faz mal, o meu cão não morde!” Mas será uma situação assim tão simples e inocente?
Por um lado, o seu cão poderá efectivamente não morder numa situação normal, mas o dono nada sabe sobre o outro, se é agressivo, se está assustado, etc. Será sensato expor qualquer dos cães a uma situação de potencial risco sem tomar as medidas adequadas?
Por outro lado, e frequentemente em virtude do isolamento social a que a maioria dos cães urbanos estão sujeitos (muitas vezes imposta pelos donos, que de imediato afastam qualquer cão que se tenta aproximar do seu), muitos não sabem aproximar-se educadamente de outros cães cumprindo as regras de etiqueta canina. Numa abordagem correcta, os dois cães aproximam-se calmamente, com uma postura relaxada, sem fixarem o olhar um no outro (poderão alternar o olhar para o outro com o desviarem o olhar), posicionam-se lado a lado, para cheirarem a região peri-anal do outro (o equivalente canino ao aperto de mãos humano) e, não havendo tensão, poderão prosseguir o seu caminho ou tentarem brincar um com o outro. Quando esta abordagem não é adequadamente efectuada, poderão surgir problemas por má interpretação das intenções. Por exemplo, é comum, quando os cães estão muito excitados, virem a correr directamente para o outro, parando mesmo em frente dele. Num equivalente humano, pense num desconhecido que o vê à distância e vem a correr para cima de si, parando a poucos centímetros. Desagradável, não?
Numa situação destas, um cão mais confiante poderá exibir sinais tentando acalmar a situação, como o afastar-se calmamente, manter-se no mesmo local mas pôr-se a cheirar o solo (quase de certeza que o chão não é mais interessante que o outro cão, mas mostrando desinteresse, pode ser que o outro cão acalme), lamber os lábios, etc. Caso o cão seja inseguro e/ou não tenha possibilidade de escolher o que fazer (como acontece quando o cão está à trela), poderá eventualmente exibir sinais de agressividade (eriçar do pelo, arreganhar os lábios, rosnar…), de forma a tentar desencorajar o outro cão de se aproximar. Também os donos podem, inadvertidamente, contribuir para aumentar a tensão nos encontros. Por exemplo, ao desconhecerem as normas de conduta canina, há quem impeça os cães de cheirarem a região anal, por acharem esse comportamento repugnante. Mais frequente ainda é os donos ficarem nervosos com a aproximação de um cão desconhecido e fazerem tensão na trela, num comportamento quase reflexo de procurar segurar melhor o seu animal. Ora, o cão vai sentir essa tensão e ficará a pensar que efectivamente a situação poderá ser problemática, o que poderá levar a um aumentar da real tensão. O ideal, numa situação em que ambos os cães estejam à trela, é vigiar calmamente a linguagem corporal dos cães envolvidos, mantendo a trela lassa para não criar tensões desnecessárias. Quando ambos os cães estão à solta, não há o elemento humano a “complicar” a aproximação entre os cães, e qualquer um pode optar por se afastar, mas nem por isso se deve descurar a atenção ao comportamento dos animais. Uma má interpretação do comportamento por parte de um deles, ou desconhecimento do significado das posturas corporais (há que não esquecer que muitos cães vivem num ambiente virtualmente humano, desde cachorros com pouco ou nenhum contacto com outros cães) poderá levar ao surgimento de conflitos. Mas quando um dos cães está à solta e o outro está à trela, poderá haver o problema da sobre-excitação do cão à solta aliado à tensão apercebida pelo dono e o cão preso, que não tem a possibilidade de se afastar se o desejar; à falta da hipótese de fuga, ao cão receoso resta a do ataque... O dono do cão à solta tem então a responsabilidade acrescida de procurar assegurar que o seu cão não perturba o outro cão.




Peça autorização primeiro… e vigie
Uma forma simples é manter o seu cão perto de si e perguntar primeiro ao dono do outro se se podem acercar. Caso o dono recuse (pode ter um cão receoso, agressivo, frágil, em tratamento, etc.), respeite e prossiga com o seu passeio. Caso aceite, vigie a interacção entre os cães. Observe como se aproximam, e se o seu cão começar a ficar demasiado excitado, chame-o de volta, apenas permita abordagens calmas, de forma a evitar mal-entendidos e riscos. Após as apresentações, caso ambos os cães queiram brincar um pouco, não baixe a guarda. Apesar de na brincadeira os cães usarem normalmente numerosos sinais indicadores que o que estão a fazer não é para ser levado a sério, de forma a tranquilizar o seu companheiro, diferentes cães podem ter diferentes formas de brincar – uns gostam de ser mais físicos na brincadeira, outros preferem jogos mais calmos… Deve ser prestado especial atenção às brincadeiras entre cães de porte muito diferente, pois há risco de o cão maior sem querer magoar o mais pequeno. Aliás, essa é a principal razão para a recomendação de haver dois recintos separados nos parques para cães, para que animais de diferente porte possam interagir em segurança com cães do seu tamanho.


Respeite para ser respeitado
Por muita vontade que tenha de andar sempre com o seu cão bem educado à solta (independentemente da legalidade ou não da situação), tenha em mente que há pessoas que têm medo de cães ou que, mesmo não os receando, não apreciam particularmente tê-los perto de si. Muitas pessoas não sabem interpretar correctamente a expressão corporal dos cães, e podem sentir-se ameaçadas pela abordagem de um cão desconhecido. Não se esqueça que na maioria dos espaços públicos os cães devem circular à trela, e é-lhes inclusive interdito o acesso a vários locais. Apesar de tradicionalmente haver uma certa tolerância quanto a estas liberdades, há que respeitar os outros! Aprenda a interpretar a linguagem corporal dos cães, mantenha o seu cão à trela ou junto a si quando está perto de outras pessoas, não o deixe aproximar-se de pessoas ou cães sem autorização e nunca se esqueça de recolher os dejectos que o seu cão faz, mesmo quando este anda à solta. Se todos respeitarmos as regras elementares de bom senso, respeito e sã convivência, pode ser que gradualmente se comece a mudar as mentalidades e a conseguir o acesso legal dos cães a cada vez mais espaços públicos.

terça-feira, 10 de maio de 2011

Pessoas conhecendo cães / Cães conhecendo pessoas

(English version above)

O primeiro cão que tive desde cachorro, o Nikko, tinha medo de pessoas. E tinha a sorte (ou o azar, sob o ponto de vista dele) de ter um aspecto muito atractivo, com o seu pelo desgrenhado. Quando eu o passeava, se tivesse a sorte de as pessoas me perguntarem se lhe podiam fazer festas (isto porque a maior parte nem se dava ao trabalho de perguntar, faziam-no logo), dizia que não, que ele não gostava pelo que não o queria forçar a uma situação desagradável para ele. Já a minha mãe, cheia de boas intenções, dizia que sim e, se fosse preciso, pegava no cachorro ao colo para as pessoas lhe poderem mexer melhor. Ora, naturalmente isto só agravava a situação, pois ele ficava sem a hipótese de escolher o que fazer e eventualmente afastar-se.

Se fosse consigo, gostava?

Imagine… Está você calmamente a disfrutar o seu passeio, a apreciar a vista, a ver quem passa, quando de repente vem um perfeito desconhecido ter consigo, agarra-o, dá-lhe um abraço bem apertado como se fosse um amigo de longa data, apalpa-o todo e desaparece em seguida. Confuso? Um pouco mais à frente, aproxima-se outra pessoa, pega-o ao colo, enche-o de beijos enquanto lhe fala como se fosse um bebé e vai-se embora. Mas o que é que se passa? Passado mais um pouco, estas situações repetem-se. Quando é que a sua paciência acaba? No meu caso pessoal, posso dizer que certamente rapidamente me tornaria num perigo para a integridade física das pessoas… ;)
Surreal? Certamente! Não passaria pela cabeça de ninguém comportar-se assim com perfeitos desconhecidos. No entanto, esta é a realidade de inúmeros cães, quando vão passear – serem frequentemente interceptados por pessoas que lhes querem mexer, enquanto se espera que não tenham qualquer tipo de reacção negativa!

Um cão na rua é um bom cão?

Quando vê uma criança na rua, assume imediatamente que é uma criança bem-educada? No entanto, quando vêm um cão na rua, a maioria das pessoas assume que o cão irá tolerar tudo o que lhe aparecer. E efectivamente, a maioria dos cães sabem comportar-se minimamente em público. Mas e quanto aos que não sabem? Ah, mas esses os seus donos deixam em casa! O que é que isso resolve? Um cão que fique permanentemente confinado em casa nunca aprenderá a comportar-se numa sociedade humana. É necessário vir para o exterior, calma e controladamente, para aprender as regras que deve cumprir. E para isso é preciso que o dono esteja disposto a ensiná-lo, com ou sem a ajuda de profissionais consoante a situação, e que as outras pessoas respeitem o espaço do cão e a sua necessidade de aprendizagem.

Peça autorização primeiro

A maior parte das pessoas, e principalmente as crianças, assim que vêm um cão na rua, de imediato se dirige a ele e começa a mexer-lhe. No entanto, habitue-se, e ensine os seus filhos, a pedir primeiro autorização ao dono. É tão simples e tão mais seguro! E é um sinal de respeito pelo dono e pelo cão. E respeite o que o dono lhe diz, quer concorde quer não! Lembro-me que, nas raras ocasiões em que as pessoas me perguntavam se podiam mexer no Nikko, e eu lhes dizia não explicando a razão, a resposta típica era “oh, mas ele é tão lindo, claro que não pode ter medo de pessoas!” O que é que ser bonito tem a ver com ter medo de pessoas? À partida, o dono conhece o seu cão melhor que ninguém e será a pessoa mais avalizada (salvo, em algumas situações, um profissional especializado) a aferir como o animal irá reagir em diferentes situações. Aliás, é precisamente o facto de as pessoas muitas vezes desrespeitarem as indicações do dono que leva a que alguns donos comecem sistematicamente a recusar qualquer contacto entre o seu cão e outras pessoas, criando um círculo vicioso em que o cão poderá inclusive começar a ganhar (ainda mais) medo às pessoas.
Mas também não caia no extremo oposto! É tão frequente ouvir os pais dizer aos seus filhos que se dirigem a um cão desconhecido “Não mexas que o cão morde!” Porquê incutir às crianças o medo aos cães? Se não se quer que a criança mexa no cão, não seria mais razoável explicar-lhe porque é que não deve mexer em cães desconhecidos e ensiná-la a pedir primeiro autorização ao dono?

Observe o cão 
Mesmo que o dono o autorize a mexer no seu cão, observe atentamente se o cão quer efectivamente esse contacto. Muitas pessoas acedem a que estranhos façam festas ao seu cão não porque este gosta da situação, ou porque os donos efectivamente não se importem, mas porque socialmente “fica mal” recusar. E forçar um cão tímido ou receoso ao contacto poderá agravar os seus medos e levar potencialmente a situações que ponham em risco a integridade física da pessoa e/ou do animal.
Mas se prestar atenção ao comportamento do cão, normalmente ele irá dar muitos sinais se está confortável com a situação ou não. Um cão que voluntariamente vem ter com a pessoa é um cão que, à partida, estará mais predisposto a estabelecer contacto físico. Mas e os outros? Alguns sinais indicadores de stress (ou sinais calmantes, como são frequentemente designados) são subtis e poderão passar desapercebidos para quem não os conhece – por exemplo, o retraír dos lábios, ou a dilatação das pupilas, que é uma resposta fisiológica de medo e que pode ser preparação para uma reacção de “fuga ou ataque”. Outros sinais não são tão subtis, mas muitas pessoas não os sabem interpretar correctamente. Como o cão que vira a cabeça de lado, evitando encarar a pessoa que se aproxima dele, não o faz porque viu algo mais interessante noutro sítio. Ou o cão que começa a bocejar ou a lamber os lábios ou o nariz, afinal ele não acabou de comer algo saboroso nem um passeio é altura em que esteja com sono. Mas alguns sinais são óbvios – o cão inseguro que se aproxima devagar e agachado, o cão que se afasta da pessoa ou que se refugia atrás ou entre as pernas do seu dono está claramente a demonstrar que a situação não lhe agrada. Isto, claro, sem chegar aos extremos do rosnar ou do snapping (dentada no ar, para desencorajar uma aproximação). Numa situação destas, porquê insistir? E arriscar tornar a situação extremamente complicada para todos os envolvidos?

Como abordar um cão?
Ok, portanto pediu autorização ao dono para fazer festas ao cão, e o animal não parece estar desconfortável com a situação. Apesar disso, talvez não seja uma boa chegar ao pé do cão, dar-lhe um abraço e pespegar-lhe com um beijo no meio do focinho! De uma forma geral, os cães não gostam de abraços, mesmo das pessoas que conhecem bem. Aliás, basta pensar que esse gesto não só não existe entre cães como lhes elimina a hipótese de se afastarem se quiserem. Apesar de cães com um grande laço entre eles gostem por vezes de estar contacto físico estreito um com o outro, o mais parecido com um abraço que eles têm ocorre normalmente durante rituais ou lutas hierárquicas entre cães. Não será assim difícil imaginar que este gesto tem para eles uma conotação diferente da que tem para nós.
Então que fazer? Não aborde o animal de frente, isso é intimidatório para o cão. Evite olhar o cão directamente nos olhos (gosta de ter um estranho a olhá-lo directamente nos olhos?), sobretudo nos primeiros momentos até o cão estar relaxado. Agache-se ao lado do cão, tornando-se assim mais acessível e cumprindo a etiqueta canina – ao contrário das pessoas, os cães cumprimentam-se de lado, não de frente. Deixe ser o cão a decidir vir ter consigo. Isto é muito importante, pois permite que seja o cão a decidir se se sente confortável com a situação. Pode mesmo deixar uma mão descaída, para o cão vir cheirar. Ele poderá aproximar-se e ficar a cheirar, ou aproximar-se, cheirar e afastar-se de imediato… respeite a sua decisão e não vá atrás dele se se afastar.

Onde mexer?
Se o cão der sinais de estar confortável e procurar contacto, a fase seguinte é normalmente as pessoas tentarem fazer-lhe festas. Esta situação também requer frequentemente algum auto-controlo. Evite movimentos bruscos, que poderão assustar o cão. A tendência é tentar fazer festas na cabeça, mas a maioria dos cães não gosta particularmente de carícias aí. Pergunte ao dono se o cão tem algum sitio preferido, e/ou experimente as faces atrás dos lábios, atrás das orelhas, no peito, nos ombros, na base da cauda… É importante que o vá fazendo calmamente, sempre observando o cão, e que pare se o cão começar a exibir sinais de desconforto ou stress.

Em suma…

Para que todos (pessoas e cães) possam disfrutar os dias soalheiros que aí vêm, basta um pouco de respeito mútuo e bom-senso. A maioria dos cães gosta de interagir com outras pessoas, mas ao contrário do que muitas parecem pensar, nem todos os cães se sentem confortáveis nessa situação. Basta um pouco de bom senso por parte dos donos e das restantes pessoas para que os passeios sejam uma experiência agradável para todos envolvidos, e não um martírio para o cão e o dono.

domingo, 24 de abril de 2011

Nova actualização sobre o Kikko

(English version above)

Há muito tempo que não passo por aqui, porque tenho andado super-ocupada nos meus empregos. Entretanto, já tive quem me perguntasse como andava o Kikko, pelo que achei que realmente já ia sendo tempo de fazer uma actualização…

Sabem aquele provérbio “só damos valor às coisas quando deixamos de as ter”? Neste caso é mais ao contrário, mas a ideia geral também se aplica.
Nos últimos 2 meses não tenho tido tempo para me dedicar a trabalhar com os meus cães como gostaria, acabando por nem fazer uma grande dessensibilização ao barulho do carro. No entanto, a pergunta sobre o ponto da situação pôs-me a pensar, sobretudo no que se tem passado nas últimas duas semanas… E apercebi-me que cada vez mais frequentemente, quando chego a casa, penso que o Kikko “morreu” ;), pois estaciono o carro e entro em casa sem ser presenteada com um coro de latidos desenfreados, ou com cada vez menos latidos e, sobretudo, mais controlados. Apercebi-me também que, neste mesmo espaço de tempo, ele anda muito mais controlado à trela, quando vai para o parque de recreio. Em vez de continuar a tentar “levantar voo”, quando a trela estica na coleira, anda a conseguir controlar-se e não ir a puxar – o que é bastante o meu braço agradece! E na hora de voltar para casa, já não se põe a comer erva como se fosse o digno representante de uma manada de vacas e não houvesse amanhã!
Ou seja, de uma forma geral, noto no Kikko um muito maior auto-controlo do que o que tinha antes!
(Pronto, ok, este fim-de-semana estão a haver alguns retrocessos, mas a minha mãe está a passar cá a Páscoa, pelo que tenho esperanças que sejam devidos ao entusiasmo do Kikko em a ter cá, e não uma situação de dois passos em frente, um atrás.)
Há pouco mais de uma semana, os latidos passaram por uma fase que parecia totalmente descontrolada, sendo mesmo difícil fazê-lo calar-se (normalmente basta-me simplesmente dar essa ordem). Porém, desde então tem havido dias em que nem sequer ladra! Ou seja, parece-me (ou seria melhor dizer espero?) que estamos a começar a caminhar para a extinção dos latidos associados à ansiedade…

Um macho Teckel grande à esquerda e uma fêmea Drever pequena à direita
Tendo criado uma ninhada de Teckels e uma de Drevers (cães com basicamente o mesmo tipo morfológico e funções similares) com 15 dias de diferença de idade, foi possível fazer algumas comparações interessantes. Eu sei que é uma amostra muito pequena, mas também não há mais Drevers nesta ponta da Europa para comparar… mas parece-me, essencialmente, que em cachorros os Drevers tendem a ser mais imaturos que os Teckels, demorando mais tempo a desenvolver certos hábitos. Têm maior dificuldade em exercer auto-controlo, demoram muito tempo a aprender a não sujar em casa… mas em contrapartida também são muito mais “macios” que os Teckels, com menos problemas de convivência entre eles e uns eternos doces! :)

Nas minhas fêmeas Drever tenho notado que, após o primeiro cio, o seu carácter muda significativamente, ficam bastante mais extrovertidas, menos tímidas, mais “senhorinhas”. A última das irmãs do Kikko está neste momento em cio, pelo que isto poderá ser uma indicação que ele está também a começar a alcançar a maturidade. Finalmente! ;) 

(Não faz ideia do que é que estou a falar? Isso resolve-se falcimente - veja a primeira parte da série, a segunda parte da série e  a terceira parte da série)

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Problemas por separação - actualização

(English version above)

Há bastante tempo que não dou novidades, em grande parte devido a um excesso de trabalho a nível profissional. Vamos então fazer um ponto da situação quanto os problemas de separação com que tenho andando a lidar…

A maioria dos problemas do Kikko tornou-se bastante manejável ao longo do tempo, à medida que se foi acomodando à sua nova vida. A maioria do ladrar por ansiedade acabou, tipicamente já só ladra nas situações normais – como ver gente estranha ou tractores a passar em frente a casa. Já pouco puxa na trela, mesmo sem o halti, apesar de o fazer quando está excitado. Na caixa, apesar de não estar totalmente relaxado durante o dia, fica sossegado nas situações normais, como quando é fechado à noite para dormir. O principal problema que ainda persiste – o ladrar ansioso (e barulhento!) quando me sente a chegar a casa depois de ter saído durante algumas horas.

Há cerca de 2 meses, comecei a aperceber-me (e foi-me corroborado pela vizinha) que os cães se punham a ladrar e uivar quando eu saía de casa para ir à cidade (algo que não ocorre todos os dias, vantagens de se trabalhar em casa uma boa parte do tempo). Pessoalmente, é uma situação que não considero particularmente problemática (afinal, vários cães juntos tendem a ladrar mais facilmente), mas de forma a evitar potenciais problemas com os vizinhos, seria necessário fazer algo a esse respeito. Mas, tendo vários cães, para determinar que acção deveria tomar, precisava primeiro de saber quem era o culpado pelo barulho – uivar é um acto social, em que vários cães se juntam quando um inicia o acto, logo é importante saber quem começa a fazer barulho para saber com quem e como terei de agir. Ora, o facto de eles só fazerem barulho quando eu saio e não fica ninguém em casa (se ficar alguém em casa, não fazem barulho), torna complicado avaliar a situação. A única opção – filmar os cães! Não tenho nenhuma câmara de vídeo, mas felizmente a máquina fotográfica permite gravar pequenos vídeos. Infelizmente estão limitados a 10 minutos de duração, mas pela minha impressão e comentários da vizinha, os cães começavam a fazer barulho quase logo a eu sair, e apenas durante um par de minutos, pelo que esta duração deveria ser o suficiente. Primeiro, apontei a câmara ao suspeito mais provável – o Kikko, que ainda estava em fase de adaptação, era o cão mais ansioso e o menos habituado a estar em caixa (todos os cães que tenho em casa estão habituados a ficar fechados nas suas transportadoras quando tenho que ir a algum lado durante períodos relativamente curtos). Ora, qual não foi a minha surpresa quando regresso a casa e visiono o vídeo – 10 minutos em que o cão, apesar de não estar totalmente relaxado, está calado e chega mesmo a deitar-se para dormir perto do fim da filmagem! Hmmm… ok, então temos outro culpado não antecipado (mas não de todo inesperado) … Na vez seguinte, aponto então a câmara ao suspeito nº 2 – o Pinhão. Apesar de o Pinhão estar habituado a estar na sua caixa (aliás, frequentemente prefere ir dormir e relaxar para lá que estar com os outros cães), o seu nível de ansiedade aumentou desde que o Kikko voltou para cá – provavelmente por uma conjugação da ansiedade do Kikko com o meu excesso de atenção para com ele, inadvertidamente prestando menos atenção aos outros, quebrando as suas rotinas, essenciais para ele encontrar alguma estabilidade e relaxar (O Pinhão é um cão muito ansioso, apesar de ter feito enormes progressos desde que está comigo). Portanto, filmei o Pinhão e voilá, o “culpado” estava encontrado. Efectivamente, era o Pinhão a começar com gemidos e uivo. Ao longo de filmagens subsequentes, apercebi-me que tinha tido bastante “sorte” quando filmei o Kikko da primeira vez, pois na realidade quer o Pinhão quer o Kikko são os iniciadores dos gemidos e uivos. E começando eles a uivar, os restantes seguem-se – apercebi-me que os Drevers adoram uivar, e os Teckels não ficam muito atrás, embora sejam mais fáceis de calar! ;) Curiosamente, normalmente os Barbados da Terceira não se juntavam ao coro.
Ora bem… então já sabia então quem começava a fazer barulho quando eu saia… agora, como lidar com isso? Primeiro, pensei em arranjar Kongs para todos, não apenas para o Kikko como tinha até então. Porém, isto não funcionou com o Pinhão, o problema dele não era o aborrecimento, além de ele não ser particularmente motivado por comida (nem mesmo ossos de roer).
A ideia número 2 foi por a caixa do Pinhão e do Kikko lado a lado. O Pinhão e o Kikko tornaram-se os melhores amigos, pelo que pensei que talvez o problema fosse ansiedade por não estarem juntos (apesar de à noite não o estarem e não haver problemas). Isso também não resolveu, o barulho continuou…
Soltá-los para passearem e fazerem as necessidades no quintal antes de sair também não ajudou…
Entretanto, lembrei-me de uma coisa que, não resolvendo o problema de base, poderia tornar a situação manejável… A minha Drever mais velha, a Lupi, é a cadela que mais facilmente se põe a uivar – quando ouve outros cães a gemer, quando ouve sirenes na estrada, quando ouve barulhos diferentes e prolongados... Costumo pô-la a dormir dentro de casa, mas quando saio durante o dia ela fica na garagem com outros cães. Ora, quando o Pinhão e/ou o Kikko começam a gemer quando saio, a primeira a começar a uivar é a Lupi, e os restantes cães começam a uivar depois dela. Portanto, se conseguisse evitar que ela começasse a uivar, à partida já não teria o “concerto” habitual. Portanto, quando vou sair, comecei a trazer a Lupi para casa e para a sua caixa, ao pé das dos restantes cães de casa. Bom resultado! O Pinhão e o Kikko ainda fazem barulho, mas como a Lupi está ao pé deles, já não se põe a uivar, pelo que o resto dos canitos também não. Ok, não tenho a causa última resolvida, mas tenho o problema com os vizinhos manejado enquanto procuro uma solução melhor!
Adicionalmente, comecei também a alterar as minhas rotinas de saída de casa. Normalmente seguia uma sequência previsível – fechar os cães da rua e a porta da garagem, soltar os cães de casa no quintal enquanto mudo de roupa, colocar o computador portátil na mochila, fechar os cães de casa, pegar nas chaves e sair. Agora ando a alterar essa ordem, por exemplo, mudar de roupa e fazer outras coisas, soltá-los (ou não) e continuar a vidinha normal sem os fechar, etc., para tentar quebrar a associação da rotina fixa com a saída. Entretanto, há poucos dias passei uns dias sem carro, enquanto estava na oficina a ser arranjado. E isso permitiu-me identificar uma situação de que não me tinha apercebido – quando seguia as minhas rotinas normais para sair de casa, mas indo de autocarro em vez de carro, os cães não faziam barulho! E quando voltava para casa de autocarro, o Kikko não se punha a ladrar tão rapidamente e tão alto, só quando estava mesmo a entrar em casa. Ou seja, aparentemente o principal iniciador do barulho não era o facto de eu sair em si, mas sim o barulho do carro. Óptimo! Finalmente identifiquei (espero eu!) o factor que inicia a ansiedade no Pinhão e no Kikko quando saio. E se for efectivamente o carro, penso que será uma situação relativamente fácil de dessensibilizar – deverá ser suficiente ir ligando e desligando o carro em diferentes alturas, sem necessariamente sair, sair e regressar logo, etc.

Agora é esperar pelas “cenas dos próximos capítulos” para ver se efectivamente se controla o problema assim ou não…

(Se chegou agora a este post e não faz ideia do que estou a falar, veja a primeira parte da série e a segunda parte da série)