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domingo, 11 de agosto de 2013

Cachorros e adultos - às vezes não é assim tão simples

(Click here for the English version)


Questão que me colocaram por e-mail há algum tempo:

Boa noite, eu encontrei o seu blog "por acaso" devido a uma pesquisa que andava a fazer sobre "Como relacionar os meus cães". E se não for muito incomodo para si, e pelo que percebi tem experiência nesta área, gostaria que me respondesse a esta questão, dentro dos possíveis.
Ora passo a explicar, eu tenho o Labrador Retriever com 6 anos, bastante sociável, carinhoso, estável e já bastante ponderado, tem por vezes aqueles picos de excitação quando está com outro macho mas rapidamente essa comportamento desaparece após se conhecerem.
Ou seja, o Bronco nunca teve problemas com outros cães, e quando digo problemas refiro-me a medo, ansiedade, ...
A questão é que à pouco tempo ele foi mordido, nada de muito grave por um Rafeiro do Alentejo, por descuido da minha parte e aquilo foi em menos de um milésimo de segundo e tenho algum medo que ele tenha ficado com algum receio a outros cães (isto foi a minha primeira conclusão).
E porquê? Porque está quase a fazer duas semanas que trouxe para casa uma cadela da raça Dogue Alemão, e a cadela como é óbvio quer brincar com ele, e acaba por chatear um pouco o Bronco e o mecanismo de defesa dele é simplesmente fugir da cadela.
No 1º dia mostrou-se muito interessado, mas quando viu que "aquela coisinha" ia ficar mudou de comportamento.
Eu tenho mantido os dois cães separados, ele tem acesso à casa toda e a cadela está na marquise devidamente acondicionada, e durante o dia junto-os entre 2 a 4 vezes no pátio, nunca mais de 30/45 min e este tempo é passado como descrevi à pouco, ela a querer brincar e ele a fugir e a evitar, mas ainda assim mostra algum interesse. E a questão do receio por parte dele em relação a outros cães é passado, porque este fim de semana um amigo trouxe cá o cão dele ( os cães não se conheciam ) e em pouco tempo estavam a brincar.
Com isto pergunto se devia mudar algo, ou o que que estou a fazer errado? Até porque isto é algo que me está a preocupar porque não pensei que corresse assim.
De frisar que a Daisy tem quase 3 meses e penso que não interpreta bem alguns sinais da parte dele. E penso não ser por ciúmes porque comem em locais separados/diferentes a horas diferentes.
Se me pudesse dar uma ajuda ficava muito grato.

A minha resposta:

Antes de fazer comentários sobre o que me expõe, quero fazer uma grande ressalva… É impossível discutir casos concretos sem ver ao certo a situação e os cães, de preferência no seu ambiente. Vou-lhe dizer o que me parece estar a ocorrer com base na sua descrição, mas tome apenas como indicações gerais, e não como algo de muito específico para o seu caso particular. Normalmente, há muitas subtilezas da comunicação canina, que a maior parte dos donos não se apercebem (incluindo pessoas supostamente com bastante experiência de cães) e que podem alterar todo o sentido com que uma pessoa interpreta uma situação.

Ora bem, então agora quanto às suas dúvidas… parece-me que temos aqui duas questões independentes

1º - A mordida ao Labrador
Não posso falar nada sobre se ficaram receios face a outros cães sem ver como se comporta, mas o facto de ele rapidamente se ter posto a brincar com o cão do seu amigo parece sugerir que não terão ficado grandes sequelas.
Uma mordida séria em cachorros pode por vezes deixar certos traumas, por ele associar a situação a qualquer estímulo – o sítio onde estava quando foi mordido, o tipo de cão que o mordeu, a pessoa com quem estava, etc. Agora num cão adulto, ainda por cima com a idade do seu, e sobretudo não sendo uma mordida séria, normalmente não deixa grandes más recordações…

2º - O Labrador com a Dogue Alemão
Nesta situação, e pelo que me descreve, faço uma leitura totalmente oposta à sua! ;)
Vamos trocar de espécie…Imagine que está sossegado em casa, a descansar, e uma criança está constantemente a vir para cima de si, aos pulos, a puxá-lo para brincar, mas você o que quer é descansar porque está cansado do dia de trabalho. O que é que faz?
Pois, extactamente!… O seu Labrador está é a ter um comportamento extremamente equilibrado!
Ok, não é propriamente a imagem que nos “pintam” quando se adquire um cachorro, que ele e o mais velho vão ser super-amigos, mas tal não está fora de questão.
Simplesmente, parece-me aqui que a cachorra é um bocado “chata” demais com o Labrador, um pouco “insistente”. E ele, como cão bem-educado que é, afasta-se para procurar um pouco de paz e sossego em vez de resmungar com ela.

Por regra, os adultos toleram muita coisa de cachorros novos, abstêm-se de fazer correctivos e deixam-nos fazer muita coisa que não deixariam cães mais velhos fazer. E isso pode levar a que cachorros sem ninguém que lhes explique como proceder fiquem abusivos. O problema é que à medida que vão crescendo, a partir mais ou menos dos 5 meses, os adultos deixam de tolerar certas coisas, e podem começar a reagir de forma diferente se o cachorro não começar a mostrar os comportamentos adequados.
Ou seja… na sua situação, mais do que preocupar-me com o comportamento do Labrador, eu preocupar-me-ia com o comportamento da cachorra. Tem de a habituar a ser mais calma com o Labrador, e a respeitar o ele não querer ser por vezes incomodado, se for preciso canalizando a energia dela para outras atividades que não envolvam “chatear” o Labrador.
E para isto, se não tiver muito habituado a interpretar comportamento canino, aconselhava que falasse com um educador canino. Não precisamos de estar necessariamente a falar de “treino” formal propriamente dito (mas que é sempre bom qualquer cão ter), mas de uma eventual modificação de comportamento, redirecionado a cachorra para atividades e brincadeiras mais benéficas para todos.
Espero que isto ajude um pouco…

quinta-feira, 1 de março de 2012

Quando começar a levar o cachorro à rua

(English version here)


Uma preocupação comum dos novos donos de cachorros é quando podem começar a levar os seus cachorros à rua. Normalmente recomento que os comecem a levar alguns dias após terem recebido as suas primeiras vacinas. Claro que, como nenhum cachorro sai de nossa casa sem que se tenham passado alguns dias da sua primeira (ou segunda, dependendo do tipo) dose de primo-vacinação, na prática isto significa que podem começar a sair a partir do momento que o cachorro esteja adaptado à sua nova família. Actualmente as vacinas são muito mais seguras que antigamente, podem ser administradas mais cedo e há mais cães vacinados, o que leva a que cães estranhos sejam menos propensos a transmitir doenças.
No entanto, ainda há muita informação desactualizada a circular, principalmente por parte de pessoas bem-intencionadas mas inexperientes ou veterinários da velha guarda

Para ajudar a refutar alguns desses mitos, reproduzo abaixo a minha tradução de uma carta aberta do Dr. R.K. Anderson, DVM, MPH, DACVB, DACVPM, uma referência no mundo da veterinária comportamentalista e fundador do Animal Behavior Resources Institute.


O ênfase em algumas das frases é meu.

A vacinação dos cachorros e a socialização atempada devem andar de mãos juntas

Diplomate ACVB and ACVPM
Professor and Director Emeritus, Animal Behavior Clinic and Center to Study Human/Animal Relationships and Environments
University of Minnesota
1666 Coffman Street, Suite 128,
Falcon Heights, MN 55108
Phone 612-644-7400 FAX 612-644-4262

Uma carta aberta aos meus colegas na Medicina Veterinária:

Os cachorros começam a aprender aquando do nascimento e o seu cérebro parece ser particularmente receptivo à aprendizagem e a reter experiências que são encontradas durante as primeiras 13 a 16 semanas após o nascimento. Isto significa que os criadores, os novos donos dos cachorros, os veterinários, os treinadores e os especialistas em comportamento têm a responsabilidade de ajudar a fornecer experiências atempadas de aprendizagem e de socialização com outros cachorros/cães, com crianças/adultos e com várias situações ambientais durante este período óptimo do nascimento às 16 semanas de idade.

Mutis veterinários tornam este programa de socialização e aprendizagem precoce parte de um plano total de bem-estar para criadores e novos donos de cachorros durante as primeiras 16 semanas da vida do cachorro – as primeiras 7-8 semanas com o criador e as 8 semanas seguintes com os novos donos. Estas aulas de socialização devem envolver cachorros das 8 às 12 semanas de idade como uma parte essencial de qualquer Programa de Bem-Estar para melhorar a relação entre os animais de companhia e as suas pessoas e aumentar a retenção dos cães na sua primeira casa de cachorro (ver JAVMA, Vol 223, No. 1, páginas 61-66, 2003)

Para beneficiar ao máximo deste período especial de aprendizagem, muitos veterinários recomendam que os novos donos levem os seus cachorros a aulas de socialização de cachorros, começando pelas 8 ou 9 semanas. Com esta idade terão recebido (e deve-lhes ser requerido) um mínimo da sua primeira série de vacinas de protecção contra doenças infecciosas. Isto fornece a base para uma imunidade cada vez maior através da exposição repetida a estes antigénios, quer através da exposição natural em pequenas doses quer pela exposição artificial com vacinas durante as 8 a 12 semanas seguintes. Adicionalmente, o dono e as pessoas oferecendo a socialização do cachorro devem tomar precauções para que o ambiente e os cachorros que participam estejam relativamente livres de exposição natural através de boa higiene e ambientes relativamente limpos.

A experiência e dados epidemiológicos apoiam a relativa segurança e ausência de transmissão de doenças nestas aulas de socialização de cachorros ao longo dos últimos 10 anos em muitas partes dos Estados Unidos. Efectivamente, o risco de um cão morrer com uma infecção por esgana ou parvovirose é muito menor que o risco muito mais elevado de o cão morrer (eutanasiado) devido a um problema de comportamento. Muitos veterinários oferecem agora, aos novos donos de cachorros, aulas de socialização nos seus hospitais ou em instalações de treino nas imediações, com a assistência de treinadores e especialistas em comportamento. Isto enfatiza a importância de socialização e treino atempados como partes importantes de um plano de bem-estar para todos os cachorros. Precisamos de reconhecer que este período especial sensível à aprendizagem é a melhor oportunidade que temos para influenciar o comportamento para os cães e a parte mais importante e duradoura de um plano de bem-estar total.

Há riscos? Sim. Mas 10 anos de boa experiência e dados, com raras excepções, fornecem aos veterinários a oportunidade para de uma forma geral recomendarem aulas de socialização e treino precoces, começando quando os cachorros têm 8 a 9 semanas de idade. No entanto, devemos respeitar a opinião profissional de cada veterinário, em casos ou situações individuais, em que circunstâncias especiais requeiram maior imunização de um dado cachorro antes de o inscrever em aulas de socialização e treino precoces entre as 8 e as 12 semanas de idade. Tenha em atenção que durante qualquer período de atraso na inscrição em aulas para cachorros, os donos devem começar um programa de bem-estar substituto com socialização precoce a crianças, adultos, outros animais e estímulos ambientais fora da sua família, para beneficiarem deste período especial da vida do cachorro, tendo em consideração o planeamento e quaisquer preocupações do veterinário do cachorro.

Lembre-se que o risco de um cão morrer (eutanasiado) devido a problemas comportamentais é mais de 1000 vezes o risco de morrer por esgana ou parvovirose. A aprendizagem precoce, a socialização dos cachorros e a vacinação adequadas devem andar juntas num programa de bem-estar desenhado para proteger as vidas dos cães e melhor a sua ligação às famílias.

Se houver mais questões, os veterinários/treinadores podem contactar-me para discussão e clarificação.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Cachorros brincando com cães adultos

(English version above)

É muito importante que, durante o seu crescimento, os cachorros se habituem a lidar quer com pessoas quer com outros cães que não a sua mãe. É desta forma que aprendem os códigos de conduta próprios da sua espécie, que aprendem a relacionar-se e a comunicar com outros cães. Se forem privados destas experiências, quando forem mais velhos poderão vir a ter dificuldades em lidar com outros cães que encontrem ao longo da sua vida, o que pode mesmo levar a eventuais agressões devidas a desentendimentos por problemas de comunicação.

Pode ver aqui um artigo que escrevi para a revista “Cães e Companhia” sobre o desenvolvimento comportamental dos cães desde o nascimento até à idade adulta:



Em nossa casa, os nossos cachorros são primeiro apresentados aos outros cães da sua raça/tipo morfológico. Inicialmente apenas interactuam com os adultos um a um. Depois, à medida que vou avaliando o comportamento quer dos cachorros quer dos adultos, irão brincando com cada vez mais cães. Neste vídeo, os cachorros, com 7 semanas, estão a brincar com a maioria dos nossos Teckels e Drevers adultos. Naturalmente, isto apenas aconteceu depois de várias semanas a apresentar os cachorros aos adultos.



Depois de os cachorros estarem à vontade com os cães do seu tipo e porte, começo a apresentá-los aos cães de tamanho e comportamento diferente.
Neste vídeo, os cachorros estão a conhecer alguns dos nossos Barbados da Terceira.
Uma das vantagens de termos cães de raças diferentes, com características físicas e comportamentais distintas, é que os nossos cachorros aprendem desde cedo a relacionar-se com diferentes tipos de cães, aprendendo as diferenças de comportamento e comunicação associadas a diferentes morfologias e funcionalidades.



ATENÇÃO: Não recomendo a qualquer pessoa que coloque vários cães adultos e cachorros juntos. Apenas pondere fazê-lo se conhecer muito bem o comportamento de cada um quer com os cachorros quer com os outros cães e se tiver excelentes conhecimentos de comportamento canino e de interpretação de linguagem corporal (de forma a poder aperceber-se de qualquer problema antes que escale). Naturalmente, mesmo assim, apenas deverá fazê-lo se puder estar vigiar adequadamente os cães. Facilmente uma brincadeira poderá levar a um aumentar do nível de excitação dos cães de forma a que possam inadvertidamente magoar um cachorro. O próprio comportamento dos cachorros, diferente do dos adultos, pode levar a um despoletar do instinto predatório o que, associado ao comportamento de matilha por estarem vários cães juntos, pode levar a que haja danos sérios aos cachorros se não houver uma supervisão estrita por parte de uma pessoa experiente! 


E quanto a si, o que faz para tentar assegurar que o seu cão se entende com quem se encontra na rua?