(Click here for the English Version)
Olá!
Este blog tem andado muito parado, por uma grande diversidade de razões.
Espero agora reativá-lo, em moldes um pouco diferentes do que era.
Assim, em vez de longos artigos mais ou menos técnicos, passará a ter conteúdos mais breves e de interesse mais imediato para donos de cães e/ou para criadores. Será um local onde irei partilhar respostas a algumas das dúvidas questões que me vão colocando por e-mail (sempre com a autorização de quem fez a questão original), ou algumas das minhas opiniões sobre diferentes temas relacionados com a canicultura.
Para isto, conto com a vossa ajuda, com questões e ideias de temas que gostassem de ver abordados!
Se clicarem em “Ver o meu perfil completo”, no topo da barra à direita, terão acesso aos meus contactos.
Espero que gostem deste “novo” blog Aradik!
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sábado, 10 de agosto de 2013
domingo, 23 de dezembro de 2012
Season's Greetings / Festas Felizes !
Everyone - 4 and 2 legged - @ Aradik wishes you a Merry Christmas and a Very Happy New Year! :D
Todos nós - com 4 e 2 pernas - no canil Aradik vos desejamos um Feliz Natal e um Óptimo Ano Novo! :D
Todos nós - com 4 e 2 pernas - no canil Aradik vos desejamos um Feliz Natal e um Óptimo Ano Novo! :D
sexta-feira, 14 de dezembro de 2012
Farrusco (Adágio, Ch Port)
(click here for the English version)
Fez ontem um ano que perdi um bocado da minha alma…
Já me tinham morrido cães antes, por velhice, por acidente… mas nada como no caso do Farrusco… Fez ontem um ano que tive de por a minha alma gémea a dormir…
Depois de 2 meses de luta intensa contra uma doença intestinal, a percepção que não iria melhorar levou a que tomasse uma das decisões mais difíceis da minha vida, e fazer o que era melhor para o meu cão…
Há quase 2 anos escrevi este post sobre 3 dos cães que marcaram a minha vida, quer pessoal quer profissional. Obviamente, raramente fazemos um elogio aos que estão entre nós, e este caso não é excepção.
O Farrusco (Ch Adágio) foi sem sombra de dúvidas um dos cães da minha vida, e o Barbado da Terceira da minha vida!
Parece que foi ontem que o fui buscar ao aeroporto, vindo da Terceira. Ao fim de três intermináveis horas em que ninguém sabia onde o cão andava (os serviços aeroportuários enviaram-no para o terminal de passageiros em vez do terminal de carga, como devia pois viajava sozinho), finalmente recebo-o. Vou para o estacionamento do terminal, abro caixa transportadora, o cachorro – 2 meses mal feitos, meio palmo de cão – sai da caixa, sacode-se, olha para mim com uma expressão confiante “és tu que vais ficar comigo? Está bem!” e começar descontraidamente a passear e a cheirar os pneus dos carros. Eu chamo-o “bebé”, e ele, ainda sem nome e sem me conhecer de parte nenhuma, vem logo aos pulos para ao pé de mim!
Era um cão de carácter forte, dos mais fortes que já vi na raça! Na primeira noite que passou na cidade, ele
que era cão de campo, atirou-se ao Husky de um vizinho e foi aos calcanhares do meu vizinho do lado, que detesta cães! No dia seguinte, dia de Natal, foi finalmente para a quinta onde viveu uma boa parte da sua vida. Demorou uma semana a submeter-se a 7 Serras da Estrela adultos que andavam à solta! Mas a partir desse momento, percebeu que não era ele que tinha de tentar mandar, e relaxou! E aprendeu a ser cachorro… para o resto da sua vida!
Quando o Farrusco chegou às minhas mãos, tinha um olhar profundo de cão velho e sábio, de quem já viu muito. Ao longo do seu crescimento, foi gradualmente mudando para uma expressão cada vez mais jovial e brincalhona!
Tornou-se um cão extremamente equilibrado, ao qual nem nunca foi preciso ensinar nada formalmente, ele sabia o que eu queria dele ainda antes de eu o saber, e fazia-o de imediato e com um sorriso na cara.
Era um guardião fantástico e natural, que sabia quando tinha de trabalhar e quando não precisava de o fazer. Chegou efetivamente a impedir que estranhos entrassem na quinta – quando aproveitaram um momento em que estava a trocar os cães à solta para abrir o portão e entrar. Felizmente, tiveram o bom senso de parar quando viram um vulto preto a correr a toda a velocidade para eles. Aí, ele também parou sentado à frente deles, a ladrar (com uma expressão um pouco à Clint Eastwood, “Vá, mexe-te! Faz o meu dia!”). Quando finalmente cheguei ao cão e às pessoas (que nunca tínhamos visto antes), falei com elas e as deixei continuar a entrar, o Farrusco de imediato mudou de um modo de guarda ativo para… tentar saltar-lhes para o colo a pedir festas!
Era o tipo de cão que ele era – trabalhava quando preciso, se eu estivesse presente relaxava para cão de colo que só queria festas!
O Farrusco ganhou o seu lugar na história do Barbado da Terceira por ter sido o primeiro Campeão de Portugal da raça. Mas esse facto para mim é um mero detalhe na sua história de vida.
Deu-me dois dos que considero serem dos melhores Barbados que já criei, e os seus genes perduram nos seus filhos e netos. Isso é um pouco mais que um detalhe…
Mas mais que tudo…
Foi o meu primeiro Barbado da Terceira, após me ter apaixonado pela raça uns anos antes mas não ter antes condições para ter um…
Este presente em alguns dos meus melhores momentos, e em alguns dos piores…
E, sobretudo, foi verdadeiramente a minha alma-gémea… E isso nunca ninguém lhe há-de tirar!
Saudades!...
Fez ontem um ano que perdi um bocado da minha alma…Já me tinham morrido cães antes, por velhice, por acidente… mas nada como no caso do Farrusco… Fez ontem um ano que tive de por a minha alma gémea a dormir…
Depois de 2 meses de luta intensa contra uma doença intestinal, a percepção que não iria melhorar levou a que tomasse uma das decisões mais difíceis da minha vida, e fazer o que era melhor para o meu cão…
Há quase 2 anos escrevi este post sobre 3 dos cães que marcaram a minha vida, quer pessoal quer profissional. Obviamente, raramente fazemos um elogio aos que estão entre nós, e este caso não é excepção.
O Farrusco (Ch Adágio) foi sem sombra de dúvidas um dos cães da minha vida, e o Barbado da Terceira da minha vida!
Parece que foi ontem que o fui buscar ao aeroporto, vindo da Terceira. Ao fim de três intermináveis horas em que ninguém sabia onde o cão andava (os serviços aeroportuários enviaram-no para o terminal de passageiros em vez do terminal de carga, como devia pois viajava sozinho), finalmente recebo-o. Vou para o estacionamento do terminal, abro caixa transportadora, o cachorro – 2 meses mal feitos, meio palmo de cão – sai da caixa, sacode-se, olha para mim com uma expressão confiante “és tu que vais ficar comigo? Está bem!” e começar descontraidamente a passear e a cheirar os pneus dos carros. Eu chamo-o “bebé”, e ele, ainda sem nome e sem me conhecer de parte nenhuma, vem logo aos pulos para ao pé de mim!
Era um cão de carácter forte, dos mais fortes que já vi na raça! Na primeira noite que passou na cidade, ele
que era cão de campo, atirou-se ao Husky de um vizinho e foi aos calcanhares do meu vizinho do lado, que detesta cães! No dia seguinte, dia de Natal, foi finalmente para a quinta onde viveu uma boa parte da sua vida. Demorou uma semana a submeter-se a 7 Serras da Estrela adultos que andavam à solta! Mas a partir desse momento, percebeu que não era ele que tinha de tentar mandar, e relaxou! E aprendeu a ser cachorro… para o resto da sua vida!Quando o Farrusco chegou às minhas mãos, tinha um olhar profundo de cão velho e sábio, de quem já viu muito. Ao longo do seu crescimento, foi gradualmente mudando para uma expressão cada vez mais jovial e brincalhona!
Tornou-se um cão extremamente equilibrado, ao qual nem nunca foi preciso ensinar nada formalmente, ele sabia o que eu queria dele ainda antes de eu o saber, e fazia-o de imediato e com um sorriso na cara.
Era um guardião fantástico e natural, que sabia quando tinha de trabalhar e quando não precisava de o fazer. Chegou efetivamente a impedir que estranhos entrassem na quinta – quando aproveitaram um momento em que estava a trocar os cães à solta para abrir o portão e entrar. Felizmente, tiveram o bom senso de parar quando viram um vulto preto a correr a toda a velocidade para eles. Aí, ele também parou sentado à frente deles, a ladrar (com uma expressão um pouco à Clint Eastwood, “Vá, mexe-te! Faz o meu dia!”). Quando finalmente cheguei ao cão e às pessoas (que nunca tínhamos visto antes), falei com elas e as deixei continuar a entrar, o Farrusco de imediato mudou de um modo de guarda ativo para… tentar saltar-lhes para o colo a pedir festas!
Era o tipo de cão que ele era – trabalhava quando preciso, se eu estivesse presente relaxava para cão de colo que só queria festas!
O Farrusco ganhou o seu lugar na história do Barbado da Terceira por ter sido o primeiro Campeão de Portugal da raça. Mas esse facto para mim é um mero detalhe na sua história de vida.Deu-me dois dos que considero serem dos melhores Barbados que já criei, e os seus genes perduram nos seus filhos e netos. Isso é um pouco mais que um detalhe…
Mas mais que tudo…
Foi o meu primeiro Barbado da Terceira, após me ter apaixonado pela raça uns anos antes mas não ter antes condições para ter um…
Este presente em alguns dos meus melhores momentos, e em alguns dos piores…
E, sobretudo, foi verdadeiramente a minha alma-gémea… E isso nunca ninguém lhe há-de tirar!
Saudades!...
terça-feira, 12 de junho de 2012
Quanto custa criar um cachorro?
(Click here for the English version)
É frequente as pessoas reclamarem com um criador devido a preço que ele pede por um cachorro. O argumento mais frequente é “se eu for ao criador X o cachorro fica-me muito mais barato”.
Infelizmente, as pessoas raramente se apercebem dos custos reais de criar uma ninhada de forma adequada.
Como um familiar meu pensava há uns anos atrás - “hmmm, isso é um excelente negócio… Vejamos, cada cadela tem X cachorros, 2 vezes por ano, a Y euros cada um… Isso é uma mina de ouro!” Até lhe explicar que não era bem assim…
Façamos um pequeno exercício matemático. Vamos assumir uma raça de tamanho médio (com a qual estou mais familiarizada), e 6 cachorros por ninhada.
Os custos directos e quantificáveis de criação de uma ninhada são:
• alimentação adequada e reforçada da mãe e dos cachorros,
• cuidados higieno-sanitários da mãe e dos cachorros,
• microchipagem dos cachorros,
• procedimentos administrativos (registos),
• material diverso (gamelas, brinquedos para estimular física e mentalmente os cachorros),
• custo da monta.
Um cálculo de valores mínimos dá como custos gerais da ninhada:
Criação de uma ninhada Custo (€)
Alimentação mãe (2ª metade da gravidez + 2 meses pós-parto) 200
Alimentação cachorros (até aos 3 meses) 200
Desparasitação mãe 30
Desparasitação cachorros 30
Vacinação Cachorros (primo-vacinação com 3 doses) 200
Microchips 90
Registos 123.50*
Custos vários (brinquedos, etc.) 50
Custo da monta 500
Total 1423.50
Custo por cachorro 237.25
* Nas raças portuguesas, o valor reduz-se a metade; algumas destas raças ou variedades estão total ou parcialmente isentas destes custos
Estes valores dizem respeito a rações de qualidade média/alta, não necessariamente topos de gama, e consumíveis (brinquedos, etc.) de qualidade média. Foram estimados através de experiência pessoal e conversas com vários criadores de raças de médio porte.
Atenção que são uma estimativa dos preços que um criador estabelecido consegue obter, através de acordos com marcas de ração e médicos veterinários! Estão abaixo do preço de venda ao público da maior parte dos bens necessários!!
Uma pessoa que se limite a criar com a sua cadela de estimação, e que precise de recorrer a lojas para adquirir ração e a consultas em clínicas veterinárias para os tratamentos e vacinações irá, obviamente, incorrer em custos muito mais elevados!
O preço da cruza possivelmente é o valor mais difícil de calcular nesta estimativa, pois varia de criador para criador e de acordo com o mérito do macho escolhido; pode mesmo ser 2 a 3+ vezes mais elevado.
Além disso, estes valores dizem respeito a um mundo perfeito. Ou seja, em que o parto decorre sem problemas, não há necessidade de acompanhamento médico-veterinário ou de cesariana, não há problemas pós-parto, não é necessário criar à mão ou suplementar os cachorros, etc. Por exemplo, há raças que nas quais, em virtude da sua anatomia, a maioria dos cachorros tem de nascer por cesariana.
Todas estas situações irão agravar consideravelmente o custo da ninhada.
Se a criação de cães fosse um negócio, então a venda de cachorros serviria para, no mínimo, cobrir os custos de manutenção da progenitora ao longo do resto do ano, certo? Vejamos de que valores estamos a falar:
Manutenção de 1 adulto ao longo de 1 ano Custo (€)
Alimentação 540
Vacinação 50
Desparasitação 20
Custos vários (trelas, coleiras, gamelas, etc.) 50
Total 660
Uma vez mais, estamos a falar de um mundo perfeito (que não existe!), em que a cadela não tem qualquer problema de saúde ao longo do ano.
Ora bem, com base nos valores atrás indicados, podemos então calcular qual o custo mínimo de um cachorro criado com os cuidados básicos de alimentação e sanitários:
Custo mínimo de um cachorro Custo (€)
Parte do cachorro na ninhada 237.25
Parte do cachorro na manutenção da mãe 110.00
Custo total 347.25
Muito abaixo dos valores que vários criadores pedem? Pois, só que estes valores dizem respeito a um mundo perfeito (sem emergências ao longo do ano e durante o parto e criação da ninhada) e a uma criação “de vão de escada”, em que nos limitamos a juntar uma cadela com um cão (pode ver mais sobre os tipos de criadores neste post e neste post). Naturalmente, nem sequer contemplam a possibilidade de o criador ter lucro (ou seja, poder viver da criação de cães)!
Vejamos agora o que NÃO incluem...
Os custos acima discriminados:
• NÃO incluem os custos de aquisição dos progenitores
Dependendo da raça – a sua raridade, o seu porte, a maior ou menor dificuldade de reprodução, os testes de saúde requeridos – e da qualidade do exemplar – o seu tipo, a sua ascendência, o seu potencial –, a aquisição de um potencial futuro reprodutor pode ser um investimento bastante dispendioso.
• NÃO incluem os custos de avaliação de desempenho/qualidade dos progenitores (provas de morfologia e/ou trabalho)
Muitas pessoas pensam que, como apenas querem um cão para companhia, não precisam de se dirigir a um criador que participa em provas com os seus cães, ou que tem cães campeões de beleza ou de trabalho. Nada mais longe da verdade! A participação em eventos de morfologia, com a obtenção de resultados mínimos, é a única forma de se assegurar que os exemplares efectivamente se assemelham à raça a que pertencem. Por exemplo, conheço cães com pedigrees completíssimos cujo aspecto nada tem a ver com o típico da sua raça, fora o seu tamanho. Adicionalmente, como nestes eventos certos desvios de cáracter são penalizados (nomeadamente agressividade ou timidez excessivas), isto também permite uma maior confiança em que os animais terão um carácter no mínimo relativamente estável. Quanto à participação em provas de trabalho adequadas, nas raças a que se apliquem, tal permite assegurar que os cães continuam a exibir o comportamento típico da sua raça.
Participar nestes eventos não é barato, especialmente se for feito regularmente, mas é uma segurança adicional quanto à potencial qualidade dos exemplares criados.
• NÃO incluem os custos de despistes de saúde ou de problemas genéticos
Sinceramente, se o criador lhe diz que não precisa de fazer despistes porque nunca viu nada de errado nos seus cães, fuja!! Já passámos há muito tempo a fase em que esta argumentação poderia funcionar.
Hoje em dia sabe-se que há doenças que só se manifestam em fases tardias da vida do animal, com consequências sérias para a sua qualidade de vida; outras que, por serem poligenéticas (devidas à acção de vários genes) precisam da combinação certa para se manifestarem; outras ainda em que o progenitor pode ser portador assintomático, mas quando é cruzado com outro portador origina cachorros afectados, etc.
Há algumas doenças para as quais nãos são conhecidas formas de despiste, e quanto a essas não se pode fazer nada, excepto estudar a fundo os pedigrees e evitar cruzar com indivíduos que se sabe ou suspeita estareem afectados.
Há outras doenças para as quais há formas de despiste mas não há testes genéticos, e como tal é preciso fazer exames de diagnóstico, uma ou mais vezes ao longo da vida do animal.
Há ainda algumas outras doenças para as quais já foi(foram) identificado(s) o(s) gene(s) responsável(eis) pela sua transmissão, pelo que é possível fazer o seu despiste, inclusive bastante cedo na vida do animal.
Claro que tudo isto tem custos. Por exemplo, um “simples” despiste de displasia de anca a um animal pode chegar a custar 300€. No Cão de Água Português, os exames normalmente requeridos para um exemplar desta raça podem chegar aos 800€ - tudo sem garantia que se venha a criar com o exemplar, caso não obtenha os resultados que se pretende nos testes.
• NÃO incluem os custos de transporte até ao pai da ninhada
Um criador sério não irá cruzar apenas (nem sempre) com o macho que tem em casa. Ele irá procurar o macho mais adequado para a sua cadela, de forma a procurar obter os melhores cachorros possíveis, quer o cão esteja na rua ao lado, na outra ponta do país ou noutro país. Naturalmente, o transporte da cadela ao reprodutor, ou a recolha e transporte do seu sémen se a ninhada for feita por inseminação artificial, tem custos.
• NÃO incluem problemas inesperados ao longo do ano
Qualquer pessoa que conviva com vários animais, ou mesmo com um único, sabe que, por muito cuidado que se tenha, há sempre acontecimentos inesperados – quer sejam feridas, infecções ou doenças – que têm de ser tratados adequadamente.
Nem incluem acasalamentos que, por qualquer razão, não originam cachorros, pelo que se perde essa época reprodutiva.
• NÃO incluem os custos de manutenção dos restantes exemplares
Mesmo possuindo vários exemplares em idade reprodutiva, um criador responsável não irá criar com todos eles todos os anos, e muito menos em todos os cios. Irá criar quando encontrar uma combinação que ache que será benéfica para a raça e tiver casas adequadas onde colocar os cachorros. Isso significa que, em cada ano, ele terá alguns exemplares que não se irão reproduzir. Mas isso não significa que não tenham de ser tratados e alimentados tal e qual como qualquer outro!
• NÃO incluem os custos do trabalho do criador
Se criar fosse efectivamente um negócio como qualquer outro, seria de esperar que o criador fosse compensado financeiramente pelo seu trabalho, como qualquer outro trabalhador, certo? E trabalho é coisa que não falta – tratar adequadamente dos animais, alimentá-los, mantê-los limpos e saudáveis, cuidar dos cachorros, providenciar estimulação física e mental aos adultos e aos cachorros… São horas e horas de trabalho semanal, frequentemente subtraídas ao tempo de descanso e familiar, e que raramente (se alguma vez!) são contabilizadas no cômputo geral.
Viu acima os custos mínimos de criar um cão sem qualquer controlo sobre a sua qualidade. Indiquei em seguida alguns outros aspectos cruciais que contribuem para aumentar o preço dos cachorros criados – mas que também conduzem a sua morfologia, comportamento e saúde a padrões mais elevados, logo tornando-os muito mais prometedores.
Carla Cruz
www.aradik.net
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É frequente as pessoas reclamarem com um criador devido a preço que ele pede por um cachorro. O argumento mais frequente é “se eu for ao criador X o cachorro fica-me muito mais barato”.Infelizmente, as pessoas raramente se apercebem dos custos reais de criar uma ninhada de forma adequada.
Como um familiar meu pensava há uns anos atrás - “hmmm, isso é um excelente negócio… Vejamos, cada cadela tem X cachorros, 2 vezes por ano, a Y euros cada um… Isso é uma mina de ouro!” Até lhe explicar que não era bem assim…
Quanto custa criar uma ninhada
Façamos um pequeno exercício matemático. Vamos assumir uma raça de tamanho médio (com a qual estou mais familiarizada), e 6 cachorros por ninhada.
Os custos directos e quantificáveis de criação de uma ninhada são:
• alimentação adequada e reforçada da mãe e dos cachorros,
• cuidados higieno-sanitários da mãe e dos cachorros,
• microchipagem dos cachorros,
• procedimentos administrativos (registos),
• material diverso (gamelas, brinquedos para estimular física e mentalmente os cachorros),
• custo da monta.
Um cálculo de valores mínimos dá como custos gerais da ninhada:
Criação de uma ninhada Custo (€)
Alimentação mãe (2ª metade da gravidez + 2 meses pós-parto) 200
Alimentação cachorros (até aos 3 meses) 200
Desparasitação mãe 30
Desparasitação cachorros 30
Vacinação Cachorros (primo-vacinação com 3 doses) 200
Microchips 90
Registos 123.50*
Custos vários (brinquedos, etc.) 50
Custo da monta 500
Total 1423.50
Custo por cachorro 237.25
* Nas raças portuguesas, o valor reduz-se a metade; algumas destas raças ou variedades estão total ou parcialmente isentas destes custos
Estes valores dizem respeito a rações de qualidade média/alta, não necessariamente topos de gama, e consumíveis (brinquedos, etc.) de qualidade média. Foram estimados através de experiência pessoal e conversas com vários criadores de raças de médio porte.
Atenção que são uma estimativa dos preços que um criador estabelecido consegue obter, através de acordos com marcas de ração e médicos veterinários! Estão abaixo do preço de venda ao público da maior parte dos bens necessários!!
Uma pessoa que se limite a criar com a sua cadela de estimação, e que precise de recorrer a lojas para adquirir ração e a consultas em clínicas veterinárias para os tratamentos e vacinações irá, obviamente, incorrer em custos muito mais elevados!
O preço da cruza possivelmente é o valor mais difícil de calcular nesta estimativa, pois varia de criador para criador e de acordo com o mérito do macho escolhido; pode mesmo ser 2 a 3+ vezes mais elevado.
Além disso, estes valores dizem respeito a um mundo perfeito. Ou seja, em que o parto decorre sem problemas, não há necessidade de acompanhamento médico-veterinário ou de cesariana, não há problemas pós-parto, não é necessário criar à mão ou suplementar os cachorros, etc. Por exemplo, há raças que nas quais, em virtude da sua anatomia, a maioria dos cachorros tem de nascer por cesariana.
Todas estas situações irão agravar consideravelmente o custo da ninhada.
O custo da manutenção da mãe
Se a criação de cães fosse um negócio, então a venda de cachorros serviria para, no mínimo, cobrir os custos de manutenção da progenitora ao longo do resto do ano, certo? Vejamos de que valores estamos a falar:
Manutenção de 1 adulto ao longo de 1 ano Custo (€)
Alimentação 540
Vacinação 50
Desparasitação 20
Custos vários (trelas, coleiras, gamelas, etc.) 50
Total 660
Custo por cachorro 110
Uma vez mais, estamos a falar de um mundo perfeito (que não existe!), em que a cadela não tem qualquer problema de saúde ao longo do ano.
O custo mínimo do cachorro
Ora bem, com base nos valores atrás indicados, podemos então calcular qual o custo mínimo de um cachorro criado com os cuidados básicos de alimentação e sanitários:
Custo mínimo de um cachorro Custo (€)
Parte do cachorro na ninhada 237.25
Parte do cachorro na manutenção da mãe 110.00
Custo total 347.25
Muito abaixo dos valores que vários criadores pedem? Pois, só que estes valores dizem respeito a um mundo perfeito (sem emergências ao longo do ano e durante o parto e criação da ninhada) e a uma criação “de vão de escada”, em que nos limitamos a juntar uma cadela com um cão (pode ver mais sobre os tipos de criadores neste post e neste post). Naturalmente, nem sequer contemplam a possibilidade de o criador ter lucro (ou seja, poder viver da criação de cães)!
Vejamos agora o que NÃO incluem...
O que falta considerar…
Os custos acima discriminados:
• NÃO incluem os custos de aquisição dos progenitores
Dependendo da raça – a sua raridade, o seu porte, a maior ou menor dificuldade de reprodução, os testes de saúde requeridos – e da qualidade do exemplar – o seu tipo, a sua ascendência, o seu potencial –, a aquisição de um potencial futuro reprodutor pode ser um investimento bastante dispendioso.
• NÃO incluem os custos de avaliação de desempenho/qualidade dos progenitores (provas de morfologia e/ou trabalho)
Muitas pessoas pensam que, como apenas querem um cão para companhia, não precisam de se dirigir a um criador que participa em provas com os seus cães, ou que tem cães campeões de beleza ou de trabalho. Nada mais longe da verdade! A participação em eventos de morfologia, com a obtenção de resultados mínimos, é a única forma de se assegurar que os exemplares efectivamente se assemelham à raça a que pertencem. Por exemplo, conheço cães com pedigrees completíssimos cujo aspecto nada tem a ver com o típico da sua raça, fora o seu tamanho. Adicionalmente, como nestes eventos certos desvios de cáracter são penalizados (nomeadamente agressividade ou timidez excessivas), isto também permite uma maior confiança em que os animais terão um carácter no mínimo relativamente estável. Quanto à participação em provas de trabalho adequadas, nas raças a que se apliquem, tal permite assegurar que os cães continuam a exibir o comportamento típico da sua raça.
Participar nestes eventos não é barato, especialmente se for feito regularmente, mas é uma segurança adicional quanto à potencial qualidade dos exemplares criados.
• NÃO incluem os custos de despistes de saúde ou de problemas genéticos
Sinceramente, se o criador lhe diz que não precisa de fazer despistes porque nunca viu nada de errado nos seus cães, fuja!! Já passámos há muito tempo a fase em que esta argumentação poderia funcionar.
Hoje em dia sabe-se que há doenças que só se manifestam em fases tardias da vida do animal, com consequências sérias para a sua qualidade de vida; outras que, por serem poligenéticas (devidas à acção de vários genes) precisam da combinação certa para se manifestarem; outras ainda em que o progenitor pode ser portador assintomático, mas quando é cruzado com outro portador origina cachorros afectados, etc.
Há algumas doenças para as quais nãos são conhecidas formas de despiste, e quanto a essas não se pode fazer nada, excepto estudar a fundo os pedigrees e evitar cruzar com indivíduos que se sabe ou suspeita estareem afectados.
Há outras doenças para as quais há formas de despiste mas não há testes genéticos, e como tal é preciso fazer exames de diagnóstico, uma ou mais vezes ao longo da vida do animal.
Há ainda algumas outras doenças para as quais já foi(foram) identificado(s) o(s) gene(s) responsável(eis) pela sua transmissão, pelo que é possível fazer o seu despiste, inclusive bastante cedo na vida do animal.
Claro que tudo isto tem custos. Por exemplo, um “simples” despiste de displasia de anca a um animal pode chegar a custar 300€. No Cão de Água Português, os exames normalmente requeridos para um exemplar desta raça podem chegar aos 800€ - tudo sem garantia que se venha a criar com o exemplar, caso não obtenha os resultados que se pretende nos testes.
• NÃO incluem os custos de transporte até ao pai da ninhada
Um criador sério não irá cruzar apenas (nem sempre) com o macho que tem em casa. Ele irá procurar o macho mais adequado para a sua cadela, de forma a procurar obter os melhores cachorros possíveis, quer o cão esteja na rua ao lado, na outra ponta do país ou noutro país. Naturalmente, o transporte da cadela ao reprodutor, ou a recolha e transporte do seu sémen se a ninhada for feita por inseminação artificial, tem custos.
• NÃO incluem problemas inesperados ao longo do ano
Qualquer pessoa que conviva com vários animais, ou mesmo com um único, sabe que, por muito cuidado que se tenha, há sempre acontecimentos inesperados – quer sejam feridas, infecções ou doenças – que têm de ser tratados adequadamente.
Nem incluem acasalamentos que, por qualquer razão, não originam cachorros, pelo que se perde essa época reprodutiva.
• NÃO incluem os custos de manutenção dos restantes exemplares
Mesmo possuindo vários exemplares em idade reprodutiva, um criador responsável não irá criar com todos eles todos os anos, e muito menos em todos os cios. Irá criar quando encontrar uma combinação que ache que será benéfica para a raça e tiver casas adequadas onde colocar os cachorros. Isso significa que, em cada ano, ele terá alguns exemplares que não se irão reproduzir. Mas isso não significa que não tenham de ser tratados e alimentados tal e qual como qualquer outro!
• NÃO incluem os custos do trabalho do criador
Se criar fosse efectivamente um negócio como qualquer outro, seria de esperar que o criador fosse compensado financeiramente pelo seu trabalho, como qualquer outro trabalhador, certo? E trabalho é coisa que não falta – tratar adequadamente dos animais, alimentá-los, mantê-los limpos e saudáveis, cuidar dos cachorros, providenciar estimulação física e mental aos adultos e aos cachorros… São horas e horas de trabalho semanal, frequentemente subtraídas ao tempo de descanso e familiar, e que raramente (se alguma vez!) são contabilizadas no cômputo geral.
O barato sai caro!
Viu acima os custos mínimos de criar um cão sem qualquer controlo sobre a sua qualidade. Indiquei em seguida alguns outros aspectos cruciais que contribuem para aumentar o preço dos cachorros criados – mas que também conduzem a sua morfologia, comportamento e saúde a padrões mais elevados, logo tornando-os muito mais prometedores.
Quando andar à procura de um cão e vir anúncios de cachorros da mesma raça à venda por 50€ ou por 500 € ou mais, pense bem no que estará a ser cortado no cachorro mais barato!
Lembre-se que o barato pode, a prazo, sair caro, quer a nível financeiro, quer emocional!Carla Cruz
www.aradik.net
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quarta-feira, 11 de abril de 2012
Então queres ser criador?
(Click here for the English version)
Há umas semanas fui contactada por uma rapariga que me fez inúmeras perguntas sobre os meus cachorros e o maneio dos meus cães. Eu sou a primeira pessoa a encorajar os potenciais donos dos meus cachorros a fazerem todo o tipo de questões que lhes ocorra, mas algo me começou a parecer estranho. Quando confrontada, ela respondeu-me que estava a fazer essas perguntas para aprender porque gostaria de ser criadora. Isto deixou-me a pensar sobre o assunto…
O que é ser um criador? Será que se “quer ser criador”, como se quer ser professor, médico, etc.?
No seu Regulamento do Livro de Origens Português e do Registo Inicial, o Clube Português de Canicultura define o “criador” simplesmente como “o proprietário da cadela na ocasião do parto”. Isto é, naturalmente, uma definição ampla e objectiva, mais do que suficiente para o seu papel na emissão de registos.
Porém, nada nos diz sobre o intuito dos criadores, que é no fundo a primeira diferenciação entre eles. Já fiz um outro post a abordar este assunto, pode vê-lo clicando aqui
Por um lado, temos quem crie com um intuito declaradamente comercial, com o objectivo de obter o seu rendimento através da produção de cachorros para venda.
Pragmaticamente, nada há nada de fundamentalmente errado com isto, desde que os animais sejam mantidos em condições adequadas. No entanto, muitas vezes, para maximizar o rendimento, fazem-se “atalhos” pelo caminho, nomeadamente no maneio higieno-sanitário, na qualidade da alimentação, na realização de despistes de saúde, na verificação prévia da aptidão morfológica, comportamental e/ou funcional, na frequência de reprodução, na idade em que os cachorros são vendidos, etc. Mais do que “criadores”, talvez fosse mais correto chamá-los “produtores”.
Depois há quem crie porque tem uma cadela (ou cão) e, por qualquerdesculpa razão, em qualquer fase da sua vida ou regularmente, decide fazer uma ninhada, sem que tenha uma razão definida para o fazer ou um objectivo a alcançar.
Finalmente, há os verdadeiros Criadores, aqueles com letra maiúscula. Frequentemente, são pessoas que nem sequer planearam vir a sê-lo. São pessoas que se apaixonaram por uma raça, que adquiriram alguns exemplares antes de mais para seu prazer, que se empenham a estudar a fundo tudo o que puderem sobre ela – comportamento, funcionalidade, problemas de saúde e/ou genéticos, linhas de criação, etc. –, frequentemente que foram “mordidas pelo bichinho” da canicultura enquanto hobby (provas de beleza e/ou práticas).
São pessoas para quem criar vem como uma extensão natural desta sua paixão e do conhecimento sobre a raça que foram adquirindo ao longo dos anos, na tentativa de a melhorar e de obter exemplares cada vez melhores. Quando criam, fazem-no como um acto muito ponderado, e com o intuito de obterem um ou mais exemplares para si; a venda de cachorros é essencialmente um “sub-produto” desta demanda. Investem muito nos seus exemplares e nas ninhadas, e raramente (se é que alguma vez!) obtêm, no cômputo geral, lucro através da criação.
Esta ideia será talvez devida ao facto de, à medida que os cães vão crescendo e alcançando a maturidade, ser comum vê-los a tentar montar cadeiras, sofás e mesmo as pernas das pessoas, sejam ou não os seus donos. Isto não significa, como muitos pensam, que o cão precisa de acasalar ou que está a querer dominar o dono. Significa simplesmente que os vários comportamentos relacionados com a sexualidade se estão a começar a integrar e coordenar numa cadeia coerente e funcional.
Quanto às cadelas, basta pensar que, nos canídeos sociais em estado selvagem, em alcateias estáveis, a maioria das fêmeas defere a reprodução em favor da fêmea dominante, para constatar como a ausência de reprodução não as afecta. Mais, qualquer gravidez em qualquer espécie, é sempre um stress e risco adicional que pode efectivamente comprometer a sua qualidade de vida.
Adicionalmente, tanto quanto se sabe, os cães não são capazes de momentos de retrospectiva, não são capazes de olhar para o seu passado ou futuro mais ou menos distantes e pensar “oh, como gostaria de ser mãe/pai”.
Uma dasdesculpas argumentações mais frequentemente ouvidas por quem cria com a sua cadela sem um objectivo definido é o de que é importante para os seus filhos assistirem ao “milagre” do nascimento e da vida.
Bem, espero que estejam também preparados para ensinarem aos seus filhos o “milagre” da corrida de emergência para o veterinário se algo correr durante o parto.
E para lhes ensinarem o “milagre” da morte – porque mesmo que não se passe nada de errado durante o parto e a cadela não morra (é sempre um risco a ponderar!), é comum que um ou mais cachorros morram nos primeiros dias após o parto, por razões várias.
Criando porque “é importante que as crianças saibam como ocorre um nascimento”, o que fazer depois aos cachorros?
Quantos de nós não recebemos já, por e-mail ou nas redes sociais, mensagens reencaminhadas de amigos bem intencionados, dizendo que “X cachorrinhos da raça Y precisam de encontrar dono na próxima semana senão serão abatidos”?
Se não tem destino previamente preparados para os seus cachorros, porquê criar? Está preparado para explicar aos seus filhos porque é que lhes mostrou o “milagre” do nascimento e depois largou os cachorros num sítio qualquer ou os mandou abater porque ninguém quis ficar com eles e não tem espaço/condições/dinheiro para ficar com mais cães?
Cada vez mais, até os criadores bem estabelecidos, frequentemente com reservas prévias, estão a ter dificuldades em entregar os seus cachorros; muitas pessoas revelam interesse mas depois não concretizam, outras cancelam as suas reservas devido a mudanças (in)esperadas nas suas vidas. A dificuldade em encontrar bons donos para quem não é conhecido é ainda maior. Bem, pelo menos para quem se preocupa em que os seus cachorros vão para casas em que não os abandonem à primeira"desculpa" “contrariedade”.
Sabe-se que os cães, consoante a sua a raça e/ou o seu porte, são mais ou menos propensos a determinadas patologias. Mesmo que os progenitores não as manifestem eles próprios, podem ser portadores de genes para algumas delas, e produzir descendência afectada se acasalarem com outros portadores; podem ainda estar afectados mas não a(s) manifestar(em) por serem ainda novos (algumas doenças apenas se manifestam em fases mais tardias da vida).
Uma pessoa que apenas queira criar por criar tipicamente não se irá preocupar com o facto de poder vir a criar cães doentes (afinal, todos esperamos apenas o melhor, nunca pensamos no que pode correr mal, não é?). Aliás, algumas fazem-no mesmo sabendo que o seu animal tem algum problema, apenas porque é o seu preferido e querem um filho dele.
Porém, um criador sério irá naturalmente tentar evitar criar cachorros potencialmente doentes. Como? Fazendo exames prévios aos seus potenciais reprodutores, quer testes genéticos (se os genes para as doenças em causa já tiverem sido identificados) quer testes de despiste (tentando averiguar se o exemplar apresenta sintomas clínicos da doença, mesmo que não seja ainda possível aperceber-se dela).
Não pense que, tendo um cão sem raça, ou cruzando cães de raças diferentes, não precisa de se preocupar com isto. Afinal, os genes são os mesmos em toda a espécie; a frequência de ocorrência dos seus alelos é que pode variar. Por exemplo, cães de grande porte estão mais propensos à displasia da anca, sejam ou não de raça. Cruzar cães de duas raças diferentes não é uma razão para não testar os seus animais; se ambas tiverem propensão à(s) mesma(s) doença(s), os cachorros não vão miraculosamente deixar de poder ser afectados só por não serem de raça pura!
Mesmo quando tudo corre bem, criar não é simplesmente cruzar um cão com uma cadela, deixar os cachorros nascer, crescer e entrega-los a outras pessoas. É uma actividade que exige tempo e dedicação, para que os cachorros tenham o melhor início de vida possível.
É necessário vigiar o parto para tentar garantir que não há complicações e que a mãe cuida adequadamente dos cachorros. É necessário vigiar, ao longo das semanas seguintes, se os cachorros mamam o suficiente, se estão a crescer bem, e suplementar se necessário.
É necessário estimular os cachorros, física e mentalmente, habituá-los a várias situações, sons, cheiros, animais e pessoas, de formam a que cresçam felizes e emocionalmente estáveis.
É necessário fazer a triagem das pessoas interessadas nos cachorros, de forma a tentar assegurar que o futuro dono está apto para lidar com o que se pode esperar do carácter da raça e tentar conjugar os feitios individuais dos donos e dos cachorros.
A criação de cães não se compadece dos afazeres do dono da cadela. A mãe, por qualquer razão (doença/morte/leite insuficiente/rejeição) não pode cuidar dos cachorros? É ao criador que recai a responsabilidade de lhes dar de mamar de 2 em 2 h, de dia e de noite. Está doente, com uma depressão ou com uma crise familiar? Azar, os cachorros precisam de comer! Tem um trabalho das 9 h às 18 h e não tem ninguém em casa? Azar, os cachorros precisam de comer! Se se responsabilizou por pôr uma ninhada de cachorros no mundo, tem também de se responsabilizar por a criar adequadamente, mesmo quando a mãe deles não o pode ou consegue fazer.
Não existe uma resposta correcta, única ou fácil, mas este é o tipo de decisões e dilemas morais com que um criador se depara em cada ninhada…
Criar cães e vê-los crescer é sem dúvida uma experiência inolvidável! Exige muito tempo e dedicação, mas quando tudo corre bem, os benefícios (para o criador e para os futuros donos) suplantam as preocupações.
Mas há que estar preparado para as complicações, algo em que a maioria das pessoas não gosta de pensar e para as quais uma pessoa inexperiente (e por vezes experiente) não está normalmente preparada.
Pense bem se quer criar com o seu cão/cadela, analise bem as razões porque o quer fazer e pondere o que fazer aos cachorros (sim, isto também é uma responsabilidade do dono do macho, não apenas do da cadela!). Na maioria das vezes, é preferível, financeira e emocionalmente, castrar o seu animal (para evitar reprodução não desejada e os transtornos que isso origina) e deixar a criação para os criadores sérios e apaixonados, dispostos a sacrifícios para que cada cachorro que nasce seja o melhor possível e tenha uma vida feliz desde o início.
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Há umas semanas fui contactada por uma rapariga que me fez inúmeras perguntas sobre os meus cachorros e o maneio dos meus cães. Eu sou a primeira pessoa a encorajar os potenciais donos dos meus cachorros a fazerem todo o tipo de questões que lhes ocorra, mas algo me começou a parecer estranho. Quando confrontada, ela respondeu-me que estava a fazer essas perguntas para aprender porque gostaria de ser criadora. Isto deixou-me a pensar sobre o assunto…
O que é ser um criador? Será que se “quer ser criador”, como se quer ser professor, médico, etc.?
O que é um criador?
No seu Regulamento do Livro de Origens Português e do Registo Inicial, o Clube Português de Canicultura define o “criador” simplesmente como “o proprietário da cadela na ocasião do parto”. Isto é, naturalmente, uma definição ampla e objectiva, mais do que suficiente para o seu papel na emissão de registos.
Porém, nada nos diz sobre o intuito dos criadores, que é no fundo a primeira diferenciação entre eles. Já fiz um outro post a abordar este assunto, pode vê-lo clicando aqui
Por um lado, temos quem crie com um intuito declaradamente comercial, com o objectivo de obter o seu rendimento através da produção de cachorros para venda.
Pragmaticamente, nada há nada de fundamentalmente errado com isto, desde que os animais sejam mantidos em condições adequadas. No entanto, muitas vezes, para maximizar o rendimento, fazem-se “atalhos” pelo caminho, nomeadamente no maneio higieno-sanitário, na qualidade da alimentação, na realização de despistes de saúde, na verificação prévia da aptidão morfológica, comportamental e/ou funcional, na frequência de reprodução, na idade em que os cachorros são vendidos, etc. Mais do que “criadores”, talvez fosse mais correto chamá-los “produtores”.
Depois há quem crie porque tem uma cadela (ou cão) e, por qualquer
Finalmente, há os verdadeiros Criadores, aqueles com letra maiúscula. Frequentemente, são pessoas que nem sequer planearam vir a sê-lo. São pessoas que se apaixonaram por uma raça, que adquiriram alguns exemplares antes de mais para seu prazer, que se empenham a estudar a fundo tudo o que puderem sobre ela – comportamento, funcionalidade, problemas de saúde e/ou genéticos, linhas de criação, etc. –, frequentemente que foram “mordidas pelo bichinho” da canicultura enquanto hobby (provas de beleza e/ou práticas).
São pessoas para quem criar vem como uma extensão natural desta sua paixão e do conhecimento sobre a raça que foram adquirindo ao longo dos anos, na tentativa de a melhorar e de obter exemplares cada vez melhores. Quando criam, fazem-no como um acto muito ponderado, e com o intuito de obterem um ou mais exemplares para si; a venda de cachorros é essencialmente um “sub-produto” desta demanda. Investem muito nos seus exemplares e nas ninhadas, e raramente (se é que alguma vez!) obtêm, no cômputo geral, lucro através da criação.
As cadelas (e cães) devem criar pelo menos uma vez na vida?
Ainda é muito persistente o mito que os cães (e cadelas) devem criar pelo menos uma vez na vida, para não ficarem infelizes/frustrados/loucos!
Esta ideia será talvez devida ao facto de, à medida que os cães vão crescendo e alcançando a maturidade, ser comum vê-los a tentar montar cadeiras, sofás e mesmo as pernas das pessoas, sejam ou não os seus donos. Isto não significa, como muitos pensam, que o cão precisa de acasalar ou que está a querer dominar o dono. Significa simplesmente que os vários comportamentos relacionados com a sexualidade se estão a começar a integrar e coordenar numa cadeia coerente e funcional.
Quanto às cadelas, basta pensar que, nos canídeos sociais em estado selvagem, em alcateias estáveis, a maioria das fêmeas defere a reprodução em favor da fêmea dominante, para constatar como a ausência de reprodução não as afecta. Mais, qualquer gravidez em qualquer espécie, é sempre um stress e risco adicional que pode efectivamente comprometer a sua qualidade de vida.
Adicionalmente, tanto quanto se sabe, os cães não são capazes de momentos de retrospectiva, não são capazes de olhar para o seu passado ou futuro mais ou menos distantes e pensar “oh, como gostaria de ser mãe/pai”.
O “milagre” da vida
Uma das
Bem, espero que estejam também preparados para ensinarem aos seus filhos o “milagre” da corrida de emergência para o veterinário se algo correr durante o parto.
E para lhes ensinarem o “milagre” da morte – porque mesmo que não se passe nada de errado durante o parto e a cadela não morra (é sempre um risco a ponderar!), é comum que um ou mais cachorros morram nos primeiros dias após o parto, por razões várias.
O que fazer aos cachorros?
Se está a criar porque quer um cachorro da sua cadela/do seu cão, o que fazer aos restantes cachorros? Porque dificilmente irá nascer só um…
Criando porque “é importante que as crianças saibam como ocorre um nascimento”, o que fazer depois aos cachorros?
Quantos de nós não recebemos já, por e-mail ou nas redes sociais, mensagens reencaminhadas de amigos bem intencionados, dizendo que “X cachorrinhos da raça Y precisam de encontrar dono na próxima semana senão serão abatidos”?
Se não tem destino previamente preparados para os seus cachorros, porquê criar? Está preparado para explicar aos seus filhos porque é que lhes mostrou o “milagre” do nascimento e depois largou os cachorros num sítio qualquer ou os mandou abater porque ninguém quis ficar com eles e não tem espaço/condições/dinheiro para ficar com mais cães?
Cada vez mais, até os criadores bem estabelecidos, frequentemente com reservas prévias, estão a ter dificuldades em entregar os seus cachorros; muitas pessoas revelam interesse mas depois não concretizam, outras cancelam as suas reservas devido a mudanças (in)esperadas nas suas vidas. A dificuldade em encontrar bons donos para quem não é conhecido é ainda maior. Bem, pelo menos para quem se preocupa em que os seus cachorros vão para casas em que não os abandonem à primeira
A saúde é importante
Sabe-se que os cães, consoante a sua a raça e/ou o seu porte, são mais ou menos propensos a determinadas patologias. Mesmo que os progenitores não as manifestem eles próprios, podem ser portadores de genes para algumas delas, e produzir descendência afectada se acasalarem com outros portadores; podem ainda estar afectados mas não a(s) manifestar(em) por serem ainda novos (algumas doenças apenas se manifestam em fases mais tardias da vida).
Uma pessoa que apenas queira criar por criar tipicamente não se irá preocupar com o facto de poder vir a criar cães doentes (afinal, todos esperamos apenas o melhor, nunca pensamos no que pode correr mal, não é?). Aliás, algumas fazem-no mesmo sabendo que o seu animal tem algum problema, apenas porque é o seu preferido e querem um filho dele.
Porém, um criador sério irá naturalmente tentar evitar criar cachorros potencialmente doentes. Como? Fazendo exames prévios aos seus potenciais reprodutores, quer testes genéticos (se os genes para as doenças em causa já tiverem sido identificados) quer testes de despiste (tentando averiguar se o exemplar apresenta sintomas clínicos da doença, mesmo que não seja ainda possível aperceber-se dela).
Não pense que, tendo um cão sem raça, ou cruzando cães de raças diferentes, não precisa de se preocupar com isto. Afinal, os genes são os mesmos em toda a espécie; a frequência de ocorrência dos seus alelos é que pode variar. Por exemplo, cães de grande porte estão mais propensos à displasia da anca, sejam ou não de raça. Cruzar cães de duas raças diferentes não é uma razão para não testar os seus animais; se ambas tiverem propensão à(s) mesma(s) doença(s), os cachorros não vão miraculosamente deixar de poder ser afectados só por não serem de raça pura!
Criar exige esforço e dedicação!
Mesmo quando tudo corre bem, criar não é simplesmente cruzar um cão com uma cadela, deixar os cachorros nascer, crescer e entrega-los a outras pessoas. É uma actividade que exige tempo e dedicação, para que os cachorros tenham o melhor início de vida possível.
É necessário vigiar o parto para tentar garantir que não há complicações e que a mãe cuida adequadamente dos cachorros. É necessário vigiar, ao longo das semanas seguintes, se os cachorros mamam o suficiente, se estão a crescer bem, e suplementar se necessário.
É necessário estimular os cachorros, física e mentalmente, habituá-los a várias situações, sons, cheiros, animais e pessoas, de formam a que cresçam felizes e emocionalmente estáveis.
É necessário fazer a triagem das pessoas interessadas nos cachorros, de forma a tentar assegurar que o futuro dono está apto para lidar com o que se pode esperar do carácter da raça e tentar conjugar os feitios individuais dos donos e dos cachorros.
A criação de cães não se compadece dos afazeres do dono da cadela. A mãe, por qualquer razão (doença/morte/leite insuficiente/rejeição) não pode cuidar dos cachorros? É ao criador que recai a responsabilidade de lhes dar de mamar de 2 em 2 h, de dia e de noite. Está doente, com uma depressão ou com uma crise familiar? Azar, os cachorros precisam de comer! Tem um trabalho das 9 h às 18 h e não tem ninguém em casa? Azar, os cachorros precisam de comer! Se se responsabilizou por pôr uma ninhada de cachorros no mundo, tem também de se responsabilizar por a criar adequadamente, mesmo quando a mãe deles não o pode ou consegue fazer.
Decisões e dilemas fazem parte do dia-a-dia
E o que fazer com aquele cachorro mais fraco que em condições normais iria morrer? Tentar salvá-lo a todo o custo, mesmo sabendo que a prazo isso pode comprometer a viabilidade e robustez da raça (por mais tarde se criar com cães que não “deveriam” ter sobrevivido)? Deixá-lo morrer pois isso é o que aconteceria numa situação normal (mas numa situação normal a cadela provavelmente nem se teria reproduzido)?
Não existe uma resposta correcta, única ou fácil, mas este é o tipo de decisões e dilemas morais com que um criador se depara em cada ninhada…
Ainda quer criar?
Criar cães e vê-los crescer é sem dúvida uma experiência inolvidável! Exige muito tempo e dedicação, mas quando tudo corre bem, os benefícios (para o criador e para os futuros donos) suplantam as preocupações.
Mas há que estar preparado para as complicações, algo em que a maioria das pessoas não gosta de pensar e para as quais uma pessoa inexperiente (e por vezes experiente) não está normalmente preparada.
Pense bem se quer criar com o seu cão/cadela, analise bem as razões porque o quer fazer e pondere o que fazer aos cachorros (sim, isto também é uma responsabilidade do dono do macho, não apenas do da cadela!). Na maioria das vezes, é preferível, financeira e emocionalmente, castrar o seu animal (para evitar reprodução não desejada e os transtornos que isso origina) e deixar a criação para os criadores sérios e apaixonados, dispostos a sacrifícios para que cada cachorro que nasce seja o melhor possível e tenha uma vida feliz desde o início.
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domingo, 25 de março de 2012
Posição do Canil Aradik sobre o corte de caudas e orelhas
(Click here for the English version)
Desde que comecei a criar o Barbado da Terceira, tenho sido criticada por vários criadores em Portugal por não cortar as caudas e orelhas dos cães por mim criados.
Porque razão não o faço? Bem, a resposta pode ser dada numa única frase ou ser todo um longo post.
Não corto caudas e orelhas aos Barbados da Terceira porque acredito que o futuro de qualquer raça passará necessariamente por ser conhecido ao natural, pelo que prefiro começar a trabalhar desde o início para que as pessoas se habituem a este aspecto.
Lembro-me também dos comentários, comuns ainda hoje em algumas raças, de que um cão inteiro nem parecia pertencer à sua raça, porque ficava com o seu aspecto “natural” alterado.
Ora, pergunto eu, se o que distingue uma raça de outra são meramente detalhes cosméticos que requerem a amputação de partes do corpo, será que essa raça tem razão para existir enquanto entidade independente?
Daí ter optado por manter inteiros os cães por mim criados. Para que as pessoas se habituem a ver os Barbados da Terceira ao natural, para que não o venham a estranhar mais tarde e se apercebam que, mesmo de cauda e orelhas inteiras, o Barbado da Terceira tem um aspecto diferente de outras raças similares.
Os resultados que os meus cães têm obtido revelam bem que, pelo menos, os cães se parecem suficientemente com Barbados da Terceira para obterem bons resultados e obterem títulos em exposições de beleza.
O estalão provisório do Barbado da Terceira foi elaborado numa altura em que virtualmente todos os cães tinham a cauda cortada à nascença, tal como acontece ainda hoje com a maioria dos cães, pois esta é a apresentação culturalmente preferida. Aliás, a descrição sobre o porte da cauda em repouso é possivelmente baseada nas caudas de raças similares, pois actualmente os estalões não podem indicar explicitamente que se preferem animais que tenham sido sujeitos a alterações cirúrgicas.
Ora, quando se elaborar o estalão definitivo do Barbado da Terceira, será certamente necessário incluir mais detalhes sobre a cauda e o seu porte. Assim, a minha opção de não cortar as caudas aos cães por mim criados foi tomada (também) de forma a permitir a existência de uma população de animais na qual pudesse ser observada a cauda natural e as suas variações a nível de porte e comprimento, para que se possam tomar decisões informada por ocasião da elaboração do estalão definitivo.
Quanto ao corte das orelhas, a minha decisão de não cortar orelhas aos meus cães foi tomada com base no mesmo princípio que o de não cortar as caudas.
O estalão do Barbado da Terceira, elaborado numa altura em que a maioria dos cães tinha as orelhas cortadas, refere que as orelhas são de
No entanto, ao fazer pesquisas para um artigo que estava a preparar, vim a saber que, na realidade, ocorre precisamente o contrário. À nascença, as dendrites dos neurónios dos cachorros não estão ainda completamente mielinizadas (não têm ainda a sua “bainha” protectora completamente desenvolvida). Esta é a razão porque se pensava que a capacidade de sentir dor não estava ainda desenvolvida. Porém, hoje sabe-se que precisamente por isso, o que na realidade ocorre é que não há ainda inibição de certos impulsos, pelo que a dor é efectivamente sentida ainda mais intensamente! E em cachorros com menos de alguns meses de idade nem sequer é seguro usar anestesias em procedimentos cirúrgicos!
Vários estudos têm sugerido que cães com caudas curtas tendem a estar mais envolvidos em altercações agressivas com outros cães, possivelmente como resultado de problemas de comunicação. Um estudo publicado em 2008, o primeiro em condições controladas, usando um modelo robótico de cão em que apenas variava o comprimento e movimento da cauda (comprida a abanar, comprida estática, curta a abanar, curta estática), revelou diferenças na forma como os cães abordavam o modelo, sugerindo que a cauda efectivamente afecta o comportamento dos outros cães.
Assim, pode inferir-se que a ausência da cauda irá colocar o animal numa posição de desvantagem relativamente a cães com cauda e potencialmente aumentar a probabilidade de ocorrência de confrontos agressivos com outros cães.
Sempre me espantou como a um cão de pastoreio lhe é cortada a cauda! O trabalho destes cães requer frequentemente curvas, travagens e contra-curvas a velocidades relativamente elevadas, pelo que a cauda necessariamente irá ajudar.
Não quer isto dizer que um cão sem cauda não será capaz de desempenhar a sua função de forma correcta. Afinal, o “coração”, a “vontade” acaba por ser o elemento mais importante para a função do cão. Simplesmente, possivelmente o trabalho poderia tornar-se mais fácil com a cauda inteira a auxiliar.
Quanto ao corte de orelhas, a situação é diferente. Em quase todas as raças em que as orelhas são cortadas é comum invocar-se o argumento que os cães com orelhas pendentes estão mais propenso a otites.
Existem poucos estudos comparando a ocorrência de otites em cães de orelhas pendentes e de orelhas erectas. Parece efectivamente haver uma pequena maior incidência de otites no primeiro caso, mas os estudos tipicamente ou não especificam o tipo de orelhas pendentes (há muita variedade) ou baseiam-se em dados de Cocker Spaniels – que, com orelhas pesadas, compridas, bastante pendentes, são muito diferentes dos Barbados da Terceira, cujas orelhas são mais curtas e móveis, permitindo um melhor arejamento do canal auditivo.
Aliás, é interessante constatar que todas as raças de cães de água e retrievers (raças que, pela função, seriam a priori mais propensas a otites) têm as orelhas pendentes. Se a ocorrência de problemas a nível do canal auditivo fosse séria, certamente que já teriam sido selecionados cães de orelhas erectas…
Lembro-me como se fosse hoje quando vi o meu primeiro Barbado da Terceira ao vivo – o Xico, de Teresa Pamplona, há muitos anos atrás quando fui à Terceira no âmbito do meu trabalho de mestrado. Apaixonei-me de imediato pela raça em geral e por aquele cão em particular. Voltei a vê-lo alguns anos mais tarde, já mais desenvolvido, e a paixão voltou a surgir, mais forte. Era um cão fantástico, cinzento encoleirado, com orelhas e cauda cortadas dando-lhe um ar de facto ainda mais compacto e imponente!
Sim, efectivamente, ao contrário do que muitos pensam, gosto muito de ver o Barbado da Terceira com orelhas e cauda cortadas! Aliás, e contra os meus princípios, o meu primeiro Barbado, Ch Adágio (da mesma linha do Xico), teve as suas orelhas cortadas quando estava já comigo; foi o único cão a quem o fiz.
Além de ser o corte ser tradição na ilha de origem da raça, o aspecto fica completamente diferente e bastante apelativo.
Mas deveremos continuar agarrados ao passado em nome da “tradição”?
As orelhas também eram tradicionalmente cortadas, e hoje em dia já são cada vez mais os cães, mesmo na sua ilha natal, a serem mantidos com as orelhas inteiras. Deixar de cortar caudas é apenas o próximo passo lógico (e, a meu ver, inevitável).
Optar por não cortar caudas e orelhas tem os seus riscos. Como o aspecto fica diferente daquele a que as pessoas estão habituadas, um cão tem de ser superior aos restantes para ter o mesmo sucesso.
Um cão de orelhas cortadas de imediato aparenta ter uma cabeça mais larga, uma vantagem num cão que se deseja que seja compacto e robusto.
Por sua vez, um cão de cauda inteira vai imediatamente parecer mais comprido, não só em movimento (com a cauda no prolongamento do corpo), mas também quando está parado, devido ao volume do seu pelo. Se adicionalmente o cão tiver branco nos membros (como pessoalmente gosto), ainda vai parecer mais comprido, por a ilusão da diferença de cor nas patas “quebrar” a altura do cão. A menos que o juiz seja capaz de ultrapassar as ilusões de óptica, o cão será frequentemente penalizado.
Portando… será que há actualmente desvantagens em apresentar em exposições cães de cauda inteira (porque de orelhas inteiras felizmente são cada vez mais)? Sim, há! Mas há que começar a trabalhar e a investir hoje a pensar no amanhã!
Será que é frequente ouvir que um cão tem de ter a cauda (e orelhas) cortadas para ser um Barbado da Terceira? Sim! No entanto, não é isso que define a pertença a uma raça ou sequer a qualidade do cão. Há bons e maus cães de cauda e orelhas cortadas, há bons e maus cães de cauda e orelhas inteiras.
Acredito que o “choque cultural” do aspecto diferente com o cão inteiro será muito menor se, desde o início, as pessoas se habituarem a ver as duas “versões” da raça e começarem a “treinar” o olho para o que (acredito que) vai ser o futuro.
Tem sido este o princípio por que me tenho regido no Canil Aradik!
Carla Cruz
www.aradik.net
P.S. – Naturalmente, o facto de ter optado por manter os cães de minha criação inteiros não obriga a que os outros criadores o façam, como alguns parecem temer, dada a veemência com que protestam. Cada um deve actuar de acordo com a sua consciência e os seus princípios, e não com base no que os outros fazem! Existem locais próprios para avaliar os méritos ou deméritos das decisões tomadas.
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| Ch Ananás de Aradik |
Porque razão não o faço? Bem, a resposta pode ser dada numa única frase ou ser todo um longo post.
A razão condensada
Não corto caudas e orelhas aos Barbados da Terceira porque acredito que o futuro de qualquer raça passará necessariamente por ser conhecido ao natural, pelo que prefiro começar a trabalhar desde o início para que as pessoas se habituem a este aspecto.
As várias razões em detalhe
1. Evitar a repetição do passado
Comecei a acompanhar a canicultura, por fora, nos anos 1990s – uma época em que não havia a mesma facilidade de difusão de ideias que há hoje em dia, com a internet. No entanto, lembro-me de já na altura ver o pessoal do meio dos Boxers, Dobermanns, Spaniels, etc., discutir a proibição do corte de caudas e orelhas (algo que ocorre ainda hoje!), e a sua preocupação por nunca ter havido selecção para estas características, pelo que não se sabia o que se poderia obter.Lembro-me também dos comentários, comuns ainda hoje em algumas raças, de que um cão inteiro nem parecia pertencer à sua raça, porque ficava com o seu aspecto “natural” alterado.
Ora, pergunto eu, se o que distingue uma raça de outra são meramente detalhes cosméticos que requerem a amputação de partes do corpo, será que essa raça tem razão para existir enquanto entidade independente?
Daí ter optado por manter inteiros os cães por mim criados. Para que as pessoas se habituem a ver os Barbados da Terceira ao natural, para que não o venham a estranhar mais tarde e se apercebam que, mesmo de cauda e orelhas inteiras, o Barbado da Terceira tem um aspecto diferente de outras raças similares.
Os resultados que os meus cães têm obtido revelam bem que, pelo menos, os cães se parecem suficientemente com Barbados da Terceira para obterem bons resultados e obterem títulos em exposições de beleza.
2. No resto da Europa…
Apesar de em Portugal ainda ser comum verem-se animais de caudas e orelhas cortadas nos diferentes eventos desportivos (incluindo os eventos de morfologia canina, ou exposições de beleza), em cada vez mais países europeus é-lhes vedado o acesso a estes eventos. Ora, qualquer que seja a raça que estejamos a considerar, se queremos permanecer competitivos a nível europeu, temos de poder concorrer no seu terreno de jogo, logo temos de estar preparados para cumprir as suas regras. Isso implica deixar de cortar caudas e orelhas.3. O estalão da raça
Relativamente à cauda, o estalão do Barbado da Terceira indica:“Com implantação média a baixa. Em repouso a cauda cai e encurva na parte inferior. Admitem-se anuros.”Como se vê, é uma descrição bastante genérica, não são referidos, como ocorre noutras raças, detalhes como o comprimento relativo da cauda (se chega ao curvilhão, acima ou abaixo) nem sobre o seu porte em movimento, por exemplo.
O estalão provisório do Barbado da Terceira foi elaborado numa altura em que virtualmente todos os cães tinham a cauda cortada à nascença, tal como acontece ainda hoje com a maioria dos cães, pois esta é a apresentação culturalmente preferida. Aliás, a descrição sobre o porte da cauda em repouso é possivelmente baseada nas caudas de raças similares, pois actualmente os estalões não podem indicar explicitamente que se preferem animais que tenham sido sujeitos a alterações cirúrgicas.
Ora, quando se elaborar o estalão definitivo do Barbado da Terceira, será certamente necessário incluir mais detalhes sobre a cauda e o seu porte. Assim, a minha opção de não cortar as caudas aos cães por mim criados foi tomada (também) de forma a permitir a existência de uma população de animais na qual pudesse ser observada a cauda natural e as suas variações a nível de porte e comprimento, para que se possam tomar decisões informada por ocasião da elaboração do estalão definitivo.
Quanto ao corte das orelhas, a minha decisão de não cortar orelhas aos meus cães foi tomada com base no mesmo princípio que o de não cortar as caudas.
O estalão do Barbado da Terceira, elaborado numa altura em que a maioria dos cães tinha as orelhas cortadas, refere que as orelhas são de
“inserção média a alta, triangulares, de tamanho médio. Pendentes, quebradas e bem revestidas de pêlo. Têm mobilidade de porte e em atenção levantam na base e dobram para a frente.”Actualmente, já se vêm cada vez mais cães com orelhas inteiras, quer no continente quer mesmo na Terceira, pelo que espero que esta amostra permita avaliar correctamente a variação que existe a nível de porte e inserção de orelhas, de forma a que o estalão reflicta da melhor forma possível a população existente.
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| Da esquerda para a direita: Multi-Ch Figo, Multi-Ch Sheila & Ch Adágio |
4. Bem-estar
Quando tomei a decisão de não cortar caudas, pensava, tal como todos os criadores “sabem”, que as caudas eram cortadas nos primeiros dias de vida porque à nascença o sistema sensorial dos cachorros está pouco desenvolvido, pelo que a sua capacidade em sentir dor estaria muito diminuída – logo, o corte de caudas seria uma operação relativamente indolor, aliás, tanto que é praticada sem anestesia.No entanto, ao fazer pesquisas para um artigo que estava a preparar, vim a saber que, na realidade, ocorre precisamente o contrário. À nascença, as dendrites dos neurónios dos cachorros não estão ainda completamente mielinizadas (não têm ainda a sua “bainha” protectora completamente desenvolvida). Esta é a razão porque se pensava que a capacidade de sentir dor não estava ainda desenvolvida. Porém, hoje sabe-se que precisamente por isso, o que na realidade ocorre é que não há ainda inibição de certos impulsos, pelo que a dor é efectivamente sentida ainda mais intensamente! E em cachorros com menos de alguns meses de idade nem sequer é seguro usar anestesias em procedimentos cirúrgicos!
5. Comportamento
A cauda é um elemento muito importante na comunicação dos cães com outros cães e com pessoas. Ela contribui para comunicar o estado de espírito do cão, as suas intenções, etc.Vários estudos têm sugerido que cães com caudas curtas tendem a estar mais envolvidos em altercações agressivas com outros cães, possivelmente como resultado de problemas de comunicação. Um estudo publicado em 2008, o primeiro em condições controladas, usando um modelo robótico de cão em que apenas variava o comprimento e movimento da cauda (comprida a abanar, comprida estática, curta a abanar, curta estática), revelou diferenças na forma como os cães abordavam o modelo, sugerindo que a cauda efectivamente afecta o comportamento dos outros cães.
Assim, pode inferir-se que a ausência da cauda irá colocar o animal numa posição de desvantagem relativamente a cães com cauda e potencialmente aumentar a probabilidade de ocorrência de confrontos agressivos com outros cães.
6. Funcionalidade
A cauda funciona como um “contra-peso” em situações que requeiram agilidade (saltos, curvas em corridas, etc.).Sempre me espantou como a um cão de pastoreio lhe é cortada a cauda! O trabalho destes cães requer frequentemente curvas, travagens e contra-curvas a velocidades relativamente elevadas, pelo que a cauda necessariamente irá ajudar.
Não quer isto dizer que um cão sem cauda não será capaz de desempenhar a sua função de forma correcta. Afinal, o “coração”, a “vontade” acaba por ser o elemento mais importante para a função do cão. Simplesmente, possivelmente o trabalho poderia tornar-se mais fácil com a cauda inteira a auxiliar.
7. Saúde
Em algumas raças, o corte de caudas é justificado com o argumento que é feito para evitar que sofra danos na passar no mato ou a bater em objectos. Dado que no Barbado da Terceira nunca ouvi argumentos a favor do corte da cauda relativos a questões de saúde, vou abster-me de os comentar aqui e agora.Quanto ao corte de orelhas, a situação é diferente. Em quase todas as raças em que as orelhas são cortadas é comum invocar-se o argumento que os cães com orelhas pendentes estão mais propenso a otites.
Existem poucos estudos comparando a ocorrência de otites em cães de orelhas pendentes e de orelhas erectas. Parece efectivamente haver uma pequena maior incidência de otites no primeiro caso, mas os estudos tipicamente ou não especificam o tipo de orelhas pendentes (há muita variedade) ou baseiam-se em dados de Cocker Spaniels – que, com orelhas pesadas, compridas, bastante pendentes, são muito diferentes dos Barbados da Terceira, cujas orelhas são mais curtas e móveis, permitindo um melhor arejamento do canal auditivo.
Aliás, é interessante constatar que todas as raças de cães de água e retrievers (raças que, pela função, seriam a priori mais propensas a otites) têm as orelhas pendentes. Se a ocorrência de problemas a nível do canal auditivo fosse séria, certamente que já teriam sido selecionados cães de orelhas erectas…
O meu Barbado da Terceira
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| Ch Adágio |
Sim, efectivamente, ao contrário do que muitos pensam, gosto muito de ver o Barbado da Terceira com orelhas e cauda cortadas! Aliás, e contra os meus princípios, o meu primeiro Barbado, Ch Adágio (da mesma linha do Xico), teve as suas orelhas cortadas quando estava já comigo; foi o único cão a quem o fiz.
Além de ser o corte ser tradição na ilha de origem da raça, o aspecto fica completamente diferente e bastante apelativo.
Mas deveremos continuar agarrados ao passado em nome da “tradição”?
As orelhas também eram tradicionalmente cortadas, e hoje em dia já são cada vez mais os cães, mesmo na sua ilha natal, a serem mantidos com as orelhas inteiras. Deixar de cortar caudas é apenas o próximo passo lógico (e, a meu ver, inevitável).
Desvantagens em manter os cães inteiros
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| Ch Cortiça de Aradik |
Optar por não cortar caudas e orelhas tem os seus riscos. Como o aspecto fica diferente daquele a que as pessoas estão habituadas, um cão tem de ser superior aos restantes para ter o mesmo sucesso.
Um cão de orelhas cortadas de imediato aparenta ter uma cabeça mais larga, uma vantagem num cão que se deseja que seja compacto e robusto.
Por sua vez, um cão de cauda inteira vai imediatamente parecer mais comprido, não só em movimento (com a cauda no prolongamento do corpo), mas também quando está parado, devido ao volume do seu pelo. Se adicionalmente o cão tiver branco nos membros (como pessoalmente gosto), ainda vai parecer mais comprido, por a ilusão da diferença de cor nas patas “quebrar” a altura do cão. A menos que o juiz seja capaz de ultrapassar as ilusões de óptica, o cão será frequentemente penalizado.
Portando… será que há actualmente desvantagens em apresentar em exposições cães de cauda inteira (porque de orelhas inteiras felizmente são cada vez mais)? Sim, há! Mas há que começar a trabalhar e a investir hoje a pensar no amanhã!
No fundo…
Será que é frequente ouvir que um cão tem de ter a cauda (e orelhas) cortadas para ser um Barbado da Terceira? Sim! No entanto, não é isso que define a pertença a uma raça ou sequer a qualidade do cão. Há bons e maus cães de cauda e orelhas cortadas, há bons e maus cães de cauda e orelhas inteiras.
Acredito que o “choque cultural” do aspecto diferente com o cão inteiro será muito menor se, desde o início, as pessoas se habituarem a ver as duas “versões” da raça e começarem a “treinar” o olho para o que (acredito que) vai ser o futuro.
Tem sido este o princípio por que me tenho regido no Canil Aradik!
Carla Cruz
www.aradik.net
P.S. – Naturalmente, o facto de ter optado por manter os cães de minha criação inteiros não obriga a que os outros criadores o façam, como alguns parecem temer, dada a veemência com que protestam. Cada um deve actuar de acordo com a sua consciência e os seus princípios, e não com base no que os outros fazem! Existem locais próprios para avaliar os méritos ou deméritos das decisões tomadas.
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domingo, 25 de dezembro de 2011
Etiqueta para com cães idosos (e os seus donos!)
(English version above)
Passei por isto com o meu primeiro cão, e ao longo dos últimos meses com um cão gravemente doente. Ler este artigo uns dias após a sua morte, e com os comentários que ouvi de desconhecidos quando o meu cão estava a piorar de dia para dia, tocou um ponto sensível.
Penso que este é um artigo que todos deveriam ler!
Republicado com permissão de The Bark
Uma chamada de atenção para melhorar a nossa etiqueta com os cães mais velhos.
Como qualquer outra pessoa numa sociedade que cada vez mais lamenta a redução do civismo, reconheço que há novas quebras de etiqueta a cada minuto. Por exemplo, num qualquer dia, os telemóveis são responsáveis por um factor de descortesia fora da escala.
Mas penso que há um tipo de comportamento indelicado entre os adultos humanos que basicamente não é controlado. Eu própria fui culpada dele e afastei-me sentindo-me realmente estúpida. É uma daquelas coisas que não chega aos manuais de etiqueta e aparentemente nem sequer é digno uma consideração fugidia por qualquer Paula Bobone.
Refiro-me às coisas rudes, completamente sem censura e frequentemente simplesmente más que as pessoas nos dizem sobre os nossos cães (por “nos” refiro-me ao pessoal dos cães). A minha grande amiga Pam tem um Pastor Alemão de 12 anos que está a envelhecer a olhos vistos. Tal como ocorre com qualquer um de nós, humanos e caninos, mas que pessoa seria tão rude a ponto de dizer: “Essa é a sua mãe? Ena, está com um aspecto terrível. Mal se pode mexer!” No entanto este é o tipo de lamechices não solicitadas que a minha amiga tem de aturar de estranhos, o dia todo, sobre o seu cão idoso. Posso simpatizar porque passei por isto três vezes, começando com o Beagle da minha família, o Sam, que viveu até quase aos 17 anos, a maioria deles principalmente por força de vontade.
“Que idade tem?” As pessoas perguntavam isto incessantemente sobre o meu agora-defunto Setter Irlandês, o Amos. Não me importava de lhes dizer que tinha 12 ou 13 anos. “Ena. Não vivem muito mais, pois não?” Quão esfarrapado é isto?
Mas ainda fica pior. Quando o meu grande e lanudo rafeiro Louie (chamávamos-lhe o nosso “cheira-virilhas da Bavária”) estava velho e frágil, uma pessoa uma vez perguntou-me, “Já pensou em abatê-lo?”. Antes de mais, isso é um bocado como perguntar a uma mulher nos seus 40s (isto também me aconteceu), “Alguma vez pensou em ter filhos?”. “Hmm, ora que bela ideia! Porque é que eu não pensei nisso?”. Quando o nosso cão está velho e doente, praticamente só conseguimos pensar no fim. O nosso coração está despedaçado e preparamo-nos para chegar à decisão de forma a evitar sofrimento desnecessário ao nosso cão enquanto nos damos tempo para nos sentirmos tão tranquilos quanto possível em relação a deixá-lo partir.
As pessoas assumem que podem dizer o que quiserem sobre o cão de um desconhecido. Enquanto que (espero) abster-se-iam de dizer “Desculpe, mas parece que o seu marido está a perder o cabelo”, quando o Louie estava a sofrer da doença de Cushing, perfeitos desconhecidos constantemente assumiam o dever de apontar a sua perda de pêlo. “Sabia que o seu cão está a perder o pêlo?”. E que mais podemos fazer para além de resmungar, ahm, sim, é o meu cão, é parte da minha família, estou quase sempre com ele, dou-lhe banho, escovo-o, dorme connosco e ao longo de quase todas estas actividades, se não em todas, estou a olhar para ele! E lembro-me sempre demasiado tarde que podia ter respondido “Sabe que tem uma verruga no sei queixo?”.
A Pam chegou ao ponto de recear passear o seu cão em público porque sabe que os transeuntes vão fazer comentários insensíveis que ela não consegue mais ouvir. Quando está na rua, ela é suficiente sensível para não recordar todas as pessoas com quem se cruza que são mortais. Tal como qualquer um de nós, consegue ver quando uma pessoa está nas últimas, mas abstém-se de dizer “Ena, está mesmo mais lento” ou de perguntar à filha da pessoa “Então e quanto tempo é que as pessoas da sua família tendem a viver?”. Quando se abordam pessoas como a minha amiga, ajuda lembrarmo-nos que ela sabe que o seu cão é velho. Ela sabe-o em cada segundo de cada dia.
Os últimos anos e meses que partilhamos com os nossos cães geriátricos são dos tempos mais agridoces da vida dos amantes de cães. Sabemos, desde o momento que os escolhemos em cachorros ou olhamos para o seu olhar cristalino no refúgio de animais, que os nossos corações se irão despedaçar um dia. O que torna tudo pior é que quanto mais velhos vão ficando, mais doces vão ficando, e quando alcançam uma doçura absolutamente crítica– simplesmente não se pode amá-los mais do que o que se ama já – ficam completamente exaustos e morrem. Pelo que uma pessoa que pacientemente ajuda um cão idoso no seu percurso cada vez menor é alguém que poderia beneficiar de um pouco de contenção piedosa. Como um simples olá ao dono, ou uma festa carinhosa na cabeça do canito emérito.
sábado, 24 de dezembro de 2011
sábado, 17 de dezembro de 2011
Um cachorro para o Natal?
(Englosh version above)
(Este artigo foi inicialmente publicado, ligeiramente modificado, na revista Cães e Companhia nº 175, Dezembro 2011)
O Natal é tradicionalmente uma época de paz, alegria e… cachorros como presente?
Será que é boa ideia oferecer um ser vivo em épocas festivas, sobretudo quando é uma surpresa para quem o irá receber? Este texto procura abordar algumas questões relativas à aquisição de um cachorro, sob um ponto de vista talvez um pouco menos tradicional.
Há criadores e criadores
Todos nós reconhecemos que os médicos não são todos iguais, uns são melhores e mais eficientes no seu trabalho e outros piores. Também sabemos que há bons e maus mecânicos, canalizadores que conhecem o seu trabalho a fundo e outros que só andam a “tapar buracos”, etc. No entanto, no colectivo popular os criadores de cães parecem estar todos “enfiados no mesmo saco”; há uma tendência para se pensar que todos só querem criar o máximo de animais ao menor custo para tirar o máximo de lucro ao longo da vida das pobres das cadelas. Mas quem se dedica à criação de cães pode fazê-lo por uma variedade de razões, que indubitavelmente irão afectar o resultado final.
Incontestavelmente, há criadores que efectivamente se dedicam a criar cães com o objectivo claro de ganhar dinheiro, em que procuram maximizam a vida reprodutiva dos seus animais (independentemente da sua saúde, património genético ou qualidade) ao menor custo possível, de forma a maximizar a sua margem de lucro. São criadores que não se preocupam com o destino final dos seus cachorros, desde que sejam vendidos, e que aproveitam ao máximo a compra por impulso – como o cachorro tão querido na montra de uma loja de animais num centro comercial -, evitando que o potencial comprador veja os cachorros e os seus restantes exemplares no ambiente em que vivem normalmente. São os chamados “puppy mills” ou “fábricas de cachorros”. Em Portugal serão uma minoria dos casos, mas a fonte mais frequente dos cachorros vendidos em lojas.
A grande maioria dos cães criados provêm de “simples” donos de fêmeas em idade reprodutiva, pessoas que, sem terem necessariamente intenções de lucro, fazem criação por uma grande variedade de razões (desculpas?) – porque querem ter um filho da sua cadelinha tão linda, porque ainda está enraizada a ideia que todas as cadelas devem ter pelo menos uma ninhada na vida (ou que todos os cães devem cruzar pelo menos uma vez), porque têm um cão de raça pura e como tal devem criar, quanto mais não seja para “recuperarem” o dinheiro que gastaram nele, porque as crianças devem poder ver o “milagre do nascimento”, porque não controlaram a sua cadela no cio e ela acasalou com um cão, etc., etc. São pessoas normalmente bem-intencionadas, ou pelo contrário sem quaisquer cuidados com o maneio reprodutivo das suas fêmeas não castradas, que se limitam a juntar uma cadela com um cão, sem grandes preocupações com o que estão a produzir ou o destino ou saúde dos cachorros nascidos, desde que sejam entregues a quem “prometa estimar”. Em muitos casos, os cachorros são dados ou vendidos a baixo preço, logo após o desmame, enquanto ainda estão fase “fofinha”, sem cuidados sanitários (vacinas, desparasitações) de forma a não terem gastos com eles. Este tipo de criadores são frequentemente designados por “backyard breeders” (literalmente, “criadores de fundo de quintal”).
Finalmente há também os verdadeiros Criadores, aqueles efectivamente dignos desse nome, com “C” maiúsculo – os que criam com um objectivo definido, que se preocupam em melhorar a qualidade morfológica e funcional da raça, que se preocupam em reduzir a incidência de problemas a nível de saúde, genético e/ou comportamento que possam existir na raça. São pessoas que procuram conhecer ao máximo a sua raça e os exemplares existentes, de forma a procurar a melhor combinação possível para atingirem os seus objectivos, mesmo que seja necessário recorrer a animais que não os seus próprios. São pessoas que antes de criar procuram aferir a qualidade dos seus exemplares, que fazem despistes de saúde e genéticos para minimizar o risco de transmissão de problemas à descendência; que fazem um controlo reprodutivo das suas fêmeas, respeitando períodos de repouso e recuperação entre ninhadas, e planeiam antecipadamente as ninhadas. E são pessoas que avaliam os potenciais interessados em adquirir um dos seus cachorros, de forma a tentarem aferir se são compatíveis com a raça e personalidade de cada um dos animais criados (e recusam a venda a alguns interessados, se necessário), que procuram acompanhar o desenvolvimento de cada exemplar nas suas novas casas, estando disponíveis em qualquer altura para dar apoio aos donos, retomando ou ajudando a encontrar um novo lar, se necessário, qualquer exemplar por si criado em qualquer altura da sua vida. Serão talvez uma minoria no mar de produtores de cachorros, mas são estes os criadores que este artigo irá abordar prioritariamente.
Qual o preço do cachorro?
Esta é a pergunta mais frequente que um criador ouve. É frequentemente a única pergunta que o criador ouve. Que a pergunta ocorra é óbvio e é de facto um factor a ponderar na aquisição de um cão. Mas que seja a única? Ou efectivamente a mais importante?
Quando pretende adquirir um carro novo, não entra no primeiro stand que vê e diz ao vendedor “Quero um carro azul. Quanto custa?”, pois não? Irá decidir que tipo de veículo necessita, comparar as características técnicas dos automóveis de várias marcas dentro da gama que pretende, e só depois de ter ideia do que quer irá comparar os preços para as marcas e modelos pré-seleccionados, e em vários stands, certo? No entanto, quando se pretende adquirir um ser vivo que irá ser parte integrante da nossa vida durante 10 a 15 anos, a maior parte das pessoas apenas parece preocupar-se com o preço, sem procurar conhecer as “características técnicas” do animal. Tal como os criadores não são todos iguais, o potencial de cada cachorro, e os cuidados que lhe foram prestados, variam.
Nos numerosos sites de anúncios grátis existentes na net, é comum encontrar cachorros à venda por valores irrisórios. Quando se pergunta a um criador sério quanto custa um cachorro da mesma raça, obter-se-á um valor nitidamente superior. Porquê a diferença? Há razão para comprar um cachorro mais caro quando se encontram mais baratos? Sim! E há motivos quer a curto quer a longo prazo. Criar um cachorro adequadamente, de forma a dar-lhe o melhor início de vida possível, não é barato. Há que considerar a ração de boa qualidade e adequada à idade e estado fisiológico que deve ser dada à mãe e às crias após o desmame, os suplementos (vitaminas, minerais) quando necessários, as desparasitações regulares e frequentes que devem ser feitas a cada um dos bebés e à mãe, as vacinas, os brinquedos para estimulação física e mental… isto sem sequer contabilizar o tempo despendido pelo criador a assegurar-se que o parto corre da melhor forma, que os cachorros mamam adequadamente, a socializa-los e habituá-los a várias situações que irão encontrar na sua vida futura, etc..
Claro que se pode ver aqui várias formas de poupar dinheiro e vender cães baratos – com uma ração de baixa qualidade, que não cobre adequadamente as necessidades especais dos animais nesta fase, não efectuando vacinas e desparasitações, vendendo os cachorros logo após o desmame, para não incorrer nos gastos da sua alimentação, etc.… Naturalmente, isto tem consequências a nível da saúde actual e futura do cachorro. Enquanto está a mamar, a cria recebe anti-corpos da sua mãe através do leite, mas no desmame essa protecção termina, apenas sendo recuperada com uma vacinação adequada. Se o cachorro mudar de família logo após o desmame, isso irá ocorrer numa situação em que as suas defesas estão significativamente reduzidas, pelo que tem um risco aumentado de contrair doenças na sua nova casa, um ambiente novo potencialmente com riscos que não existiam no local onde nasceu. Algumas doenças adquiridas nesta idade são fatais ou deixam sequelas para o resto da vida!
A longo prazo, também a nível comportamental é um risco adquirir um cachorro de tão tenra idade. Ao longo do crescimento do cachorro, ele passa por diferentes fases de desenvolvimento não só físico como psicológico. Entre as 3 e as 12 semanas, ocorre o que é designado como “período de socialização”, em que aprende as regras de comportamento primeiro com outros cães e depois com outros animais e pessoas. Um cachorro que saia demasiado cedo de perto da sua mãe e irmãos para uma nova casa não terá ocasião de aprender as regras de comunicação e etiqueta caninas, e tem riscos acrescidos de, por essa razão, vir a ter problemas futuros no relacionamento com outros cães e pessoas.
Um criador sério irá recusar-se a vender um cachorro antes dos 2-3 meses de idade. Desta forma, poderá proceder a um correcto plano de desparasitação e primo-vacinação, procurando assegurar que quando o cachorro sai tem já as defesas necessárias para resistir às “agressões” do novo ambiente (mas é fundamental que o novo dono complete o plano para uma protecção adequada). Este período passado com o criador permite também que o cachorro adquira os elementos básicos da interacção social com outros cães e pessoas e permite que comece a ser feita uma socialização a diversos tipos de situações, que deverá depois ser continuada pelo novo proprietário.
Há mais para além do preço
Se está a ler este texto é porque tem, a priori, um interesse em cães superior à média da população e irá esforçar-se por ser um bom dono para um cão que venha a adquirir. Tendo já noções básicas do que é necessário para ter um cão, ou experiência prévia, é natural que a sua principal preocupação quando for adquirir um cão seja o seu preço. Mas o criador que irá contactar não o conhece! Quando é contactado e apenas lhe perguntam pelo preço, a ideia que é transmitida por vezes é apenas a de que estão à procura de um cão o mais barato possível, o que é deveras desencorajante para quem procura a melhor casa possível para os seus cães.
Adicionalmente, há mais factores a considerar quando se adquire um cão, que fazem com que o preço de compra acabe por ser um factor secundário no cômputo geral.
Pode (e deve!), por exemplo, perguntar-se sobre as patologias existentes na raça, e o que é que o criador está a fazer para tentar minorar o seu efeito. Quando se compra um cachorro cujos progenitores tenham feito testes de despiste para as principais doenças que afectam a sua raça, e apesar de tal não ser uma garantia que o cachorro será indemne delas, pelo menos tem-se uma ideia de qual o real risco de vir ou não a ser afectado; um cachorro proveniente de animais não testados é sempre um “tiro no escuro”, uma lotaria em que não se sabe o que se está a adquirir.
Deverá pedir-se para ver os cachorros e a progenitora da ninhada (por vezes o pai não pertence ao criador, pelo que poderá não estar presente) e tentar avaliar se os cachorros parecem estar em boas condições físicas e comportamentais – com pelo brilhante, olhos limpos, activos e brincalhões, etc. Se o criador recusar, desconfie e inquira; se é certo que em cachorros de tenra idade o manuseamento por estranhos pode ser um risco de saúde, depois de os cachorros estarem adequadamente vacinados esse risco é mínimo.
Questione o criador sobre o que lhe passar pela cabeça que possa ser relevante; um criador sério estará disponível para responder e educar potenciais interessados. Esteja também preparado para que o criador lhe coloque questões, de forma a aferir se a raça e algum indivíduo em particular é ou não adequado para si. Afinal, um S. Bernardo de 70 kg talvez não seja a escolha ideal para a nossa frágil avó de 70 anos; um Pug certamente não será o mais indicado para o jovem dinâmico que gosta de correr 20 km todos os dias na companhia do seu cão; um terrier escavador não será perfeito para quem gosta de ter um jardim imaculado.
E, muito importante, visite vários criadores antes de tomar uma decisão! Converse com eles, questione e responda às perguntas, forme a sua opinião e decida de forma informada. Lembre-se que o preço que pagará pelo seu cachorro inclui não apenas o seu custo no momento, mas também todo o apoio que o criador disponibilizará ao longo da vida do animal.
Tem cachorros disponíveis?
Esta é normalmente a 2ª pergunta mais comum ao criador, quando se chega à fase da 2ª pergunta. Também por razões óbvias. A pessoa sabe que quer adicionar um companheiro de 4 patas à sua vida, por isso quer fazê-lo quando tomou essa decisão. Porém, essa não é necessariamente a melhor via!
Um criador normalmente não tem cachorros sempre disponíveis, tê-los á quando achar que encontrou uma combinação de progenitores que lhe permitirá chegar mais perto dos seus objectivos. No caso de possuir numerosos exemplares, isso talvez lhe permita gerir as suas fêmeas de forma a efectivamente ir fazendo várias ninhadas ao longo do ano, se o desejar e tiver uma procura adequada. No entanto, caso tenha poucos exemplares, as suas ninhadas serão mais espaçadas no tempo, haverá períodos em que não vai ter jovens disponíveis.
Caso se trate de uma raça relativamente popular, haverá certamente criadores responsáveis em número suficiente para que, com um pouco de pesquisa, o futuro proprietário encontre um criador que lhe agrade com cachorros disponíveis. No entanto, no caso de raças mais raras, com poucos criadores, a probabilidade é a de não encontrar cachorros disponíveis quando a pessoa se lembrou que quer um. Nesse caso, o ideal é a pessoa inscrever-se na lista de espera do criador, aguardando que este tenha uma ninhada disponível. Isto irá dar-lhe uma maior hipótese de vir a ter o cachorro desejado, até porque muitos criadores apenas criam quando têm boas casas asseguradas para os seus cachorros.
Beneficie deste período para ir conversando com o criador, colocar todas as dúvidas e questões que lhe ocorrerem e ir preparando com calma e tranquilidade a chegada do seu novo companheiro. Aproveite também para ponderar seriamente se é a altura certa para adquirir um ser vivo que irá requerer cuidados e atenção constantes durante 10 ou mais anos. Vivemos numa sociedade de consumo e gratificação imediatos, em que adquirimos bens sem ponderar seriamente se necessitamos deles e o que faremos com eles no futuro. Um animal não é um peluche ou playstation que podemos deixar numa prateleira quando nos fartamos dele!
Um cachorro para oferecer?
O Natal é tradicionalmente uma das alturas em que há mais procura por cachorros. Há quem ache que é o presente ideal, quem queira oferecer um cão ao(à) cônjuge, a um familiar, ou mesmo a um amigo. Também é comum quem queira oferecer um cachorro ao filho, porque há meses que faz birra que quer um, ou porque teve boas notas no primeiro período, ou para “ensiná-lo a ser responsável”… No entanto, sob o ponto de vista de um criador sério, o Natal é uma das épocas do ano mais problemáticas! É uma das alturas em que mais difícil separar o trigo do joio em termos de potenciais casas para cada um dos seus cachorros. Isto porque normalmente oferecer um cachorro de surpresa a alguém dá maus resultados. A aquisição de um ser vivo deve ser um acto bem ponderado, em que todos os envolvidos devem ter participado da decisão e estar de acordo. Caso contrário corre-se o sério risco de não haver tempo ou vontade para cuidar dele de forma adequada, se perder o interesse pela “novidade”, etc., levando ao aumento do abandono pouco tempo depois do Natal.
Um exemplo clássico é a aquisição de um cão para “dar responsabilidade à criança”. O princípio é muito bonito, mas o que acontece quando o jovem regressar às aulas e deixar de ter tempo disponível para o cão? Ou quando passar a novidade ou o cachorro crescer, e o seu filho perder o interesse no cão, como acontece sobretudo com crianças mais novas (ou adolescentes que subitamente encontram outros interesses na sua vida)? Se os pais não tiverem assumido previamente que a responsabilidade final do cuidado pelo animal recai sobre eles, mais cedo ou mais tarde é provável que ele seja abandonado. Que responsabilidade se está então a ensinar aos jovens? Que quando se perde interesse, é legítimo abandonar um ser vivo?
Também sob o ponto de vista do próprio cachorro, a época festiva não é a mais adequada para mudar de casa. O canito já está a passar pelo choque de subitamente se ver sem tudo aquilo que conhecia e num ambiente estranho. Um ambiente que, neste período é tipicamente de grande agitação, com as férias escolares, a família e amigos em casa, etc., quando o que ele precisa é de tranquilidade para se ambientar à nova casa e se desenvolver de forma equilibrada. E quando ele finalmente se começa a acostumar à sua nova vida, eis que tudo muda novamente – as férias acabam e as crianças regressam às aulas, os adultos ao trabalho, e o ambiente altera-se novamente. Será preferível aguardar por este período pós-festas para acolher o cachorro, de forma a que faça uma integração suave no que é o ritmo normal ao longo do ano da sua família de acolhimento.
Se efectivamente ficar acordado oferecer um cachorro no Natal, se a decisão for tomada de forma responsável, com o acordo de todos os envolvidos e do criador, porque não, em vez de sujeitar o cachorro a esta época confusa, elaborar com o criador uma espécie de “pacote de boas-vindas” para quem irá receber o cão, a oferecer no Natal em vez do cão, como preparação prévia para ir buscar o cachorro em melhor ocasião?
Adopte, não compre?
Sendo o Natal uma altura em que a aquisição de cães é tradicionalmente superior, as campanhas de adopção responsável de cães abandonados são também mais visíveis. Frequentemente o lema escolhido é algo nas linhas de “adopte, não compre” ou “cada cão comprado é um cão num canil que é abatido”. Mas isto não será um pouco de chantagem emocional?
Frequentemente o público que procura um cão de raça a um criador é algo diferente do que adopta um cão de um refúgio. Enquanto que este último “apenas” (sem qualquer sentido perjorativo!) procura um fiel companheiro, quem procura um cão de raça tipicamente fá-lo porque deseja encontrar um certo número de características físicas e comportamentais que são mais fáceis de encontrar um cão de raça do que num sem raça definida, devido à selecção efectuada que leva a que as características sejam substancialmente mais previsíveis num cachorro de raça. (1)
De qualquer forma, apesar de um cachorro comprado potencialmente até poder significar, no imediato, que um cão abandonado não será adoptado, as consequências a longo prazo poderão ser diferentes. Quando se adquire um cachorro a um criador sério, está-se ao mesmo tempo a assegurar um acompanhamento ao longo da sua vida, o criador está disponível para ajudar o proprietário no que puder, inclusive para retomar o cão se tal for necessário; diminui-se assim grandemente o risco do exemplar ser abandonado mais tarde. Quanto maior for a proporção de exemplares adquiridos a criadores empenhados, vs. puppy mills ou criadores de fundo de quintal, menor será a probabilidade de virem a acabar abandonados.
Faça o seu trabalho de casa!
Há alguns anos atrás, poderia ser difícil, para quem não estava no meio da canicultura, saber como encontrar um criador de determinada raça e o que procurar num cachorro. Hoje em dia, com o papel preponderante da internet nas nossas vidas, com meios de comunicação especializados disponíveis ao grande público, essa tarefa simplificou-se consideravelmente. Despenda tempo a pesquisar a raça que escolheu (e seja objectivo quanto à origem da informação consultada!!), visite vários criadores e converse com eles, mesmo que não esteja a planear adquirir já um exemplar - é fundamental saber se a sua escolha se adequa ao seu estilo de vida e personalidade, é importante encontrar um criador em quem possa confiar e sentir que irá ter apoio sempre que necessitar, em qualquer fase da vida do animal. Fundamentalmente, use o seu bom-senso e espírito crítico e não caia na armadilha da gratificação imediata. Um animal na nossa vida é uma grande responsabilidade, exige tempo e dedicação ao longo de anos, não irá permanecer cachorro pequenino e fofinho durante muito tempo. Esta é provavelmente uma das decisões mais importantes que irá tomar na sua vida! Certamente quererá tomá-la dispondo do máximo de informação possível, certo?
E já agora, depois de adquirir o seu cachorro, procure manter um contacto regular com o criador. Ele deixa um pouco de si em cada cachorro que entrega, e também gostaria de ter notícias deles, saber que se está a desenvolver bem (ou não) e que ele e a sua família estão felizes!
(1) Em Portugal, ainda não são comum os “breed rescues”, grupos que se dedicam à recolha e re-alojamento de cães abandonados de uma dada raça ou grupo de raças
(Este artigo foi inicialmente publicado, ligeiramente modificado, na revista Cães e Companhia nº 175, Dezembro 2011)
O Natal é tradicionalmente uma época de paz, alegria e… cachorros como presente?
Será que é boa ideia oferecer um ser vivo em épocas festivas, sobretudo quando é uma surpresa para quem o irá receber? Este texto procura abordar algumas questões relativas à aquisição de um cachorro, sob um ponto de vista talvez um pouco menos tradicional.
Há criadores e criadores
Todos nós reconhecemos que os médicos não são todos iguais, uns são melhores e mais eficientes no seu trabalho e outros piores. Também sabemos que há bons e maus mecânicos, canalizadores que conhecem o seu trabalho a fundo e outros que só andam a “tapar buracos”, etc. No entanto, no colectivo popular os criadores de cães parecem estar todos “enfiados no mesmo saco”; há uma tendência para se pensar que todos só querem criar o máximo de animais ao menor custo para tirar o máximo de lucro ao longo da vida das pobres das cadelas. Mas quem se dedica à criação de cães pode fazê-lo por uma variedade de razões, que indubitavelmente irão afectar o resultado final.
Incontestavelmente, há criadores que efectivamente se dedicam a criar cães com o objectivo claro de ganhar dinheiro, em que procuram maximizam a vida reprodutiva dos seus animais (independentemente da sua saúde, património genético ou qualidade) ao menor custo possível, de forma a maximizar a sua margem de lucro. São criadores que não se preocupam com o destino final dos seus cachorros, desde que sejam vendidos, e que aproveitam ao máximo a compra por impulso – como o cachorro tão querido na montra de uma loja de animais num centro comercial -, evitando que o potencial comprador veja os cachorros e os seus restantes exemplares no ambiente em que vivem normalmente. São os chamados “puppy mills” ou “fábricas de cachorros”. Em Portugal serão uma minoria dos casos, mas a fonte mais frequente dos cachorros vendidos em lojas.
A grande maioria dos cães criados provêm de “simples” donos de fêmeas em idade reprodutiva, pessoas que, sem terem necessariamente intenções de lucro, fazem criação por uma grande variedade de razões (desculpas?) – porque querem ter um filho da sua cadelinha tão linda, porque ainda está enraizada a ideia que todas as cadelas devem ter pelo menos uma ninhada na vida (ou que todos os cães devem cruzar pelo menos uma vez), porque têm um cão de raça pura e como tal devem criar, quanto mais não seja para “recuperarem” o dinheiro que gastaram nele, porque as crianças devem poder ver o “milagre do nascimento”, porque não controlaram a sua cadela no cio e ela acasalou com um cão, etc., etc. São pessoas normalmente bem-intencionadas, ou pelo contrário sem quaisquer cuidados com o maneio reprodutivo das suas fêmeas não castradas, que se limitam a juntar uma cadela com um cão, sem grandes preocupações com o que estão a produzir ou o destino ou saúde dos cachorros nascidos, desde que sejam entregues a quem “prometa estimar”. Em muitos casos, os cachorros são dados ou vendidos a baixo preço, logo após o desmame, enquanto ainda estão fase “fofinha”, sem cuidados sanitários (vacinas, desparasitações) de forma a não terem gastos com eles. Este tipo de criadores são frequentemente designados por “backyard breeders” (literalmente, “criadores de fundo de quintal”).
Finalmente há também os verdadeiros Criadores, aqueles efectivamente dignos desse nome, com “C” maiúsculo – os que criam com um objectivo definido, que se preocupam em melhorar a qualidade morfológica e funcional da raça, que se preocupam em reduzir a incidência de problemas a nível de saúde, genético e/ou comportamento que possam existir na raça. São pessoas que procuram conhecer ao máximo a sua raça e os exemplares existentes, de forma a procurar a melhor combinação possível para atingirem os seus objectivos, mesmo que seja necessário recorrer a animais que não os seus próprios. São pessoas que antes de criar procuram aferir a qualidade dos seus exemplares, que fazem despistes de saúde e genéticos para minimizar o risco de transmissão de problemas à descendência; que fazem um controlo reprodutivo das suas fêmeas, respeitando períodos de repouso e recuperação entre ninhadas, e planeiam antecipadamente as ninhadas. E são pessoas que avaliam os potenciais interessados em adquirir um dos seus cachorros, de forma a tentarem aferir se são compatíveis com a raça e personalidade de cada um dos animais criados (e recusam a venda a alguns interessados, se necessário), que procuram acompanhar o desenvolvimento de cada exemplar nas suas novas casas, estando disponíveis em qualquer altura para dar apoio aos donos, retomando ou ajudando a encontrar um novo lar, se necessário, qualquer exemplar por si criado em qualquer altura da sua vida. Serão talvez uma minoria no mar de produtores de cachorros, mas são estes os criadores que este artigo irá abordar prioritariamente.
Qual o preço do cachorro?
Esta é a pergunta mais frequente que um criador ouve. É frequentemente a única pergunta que o criador ouve. Que a pergunta ocorra é óbvio e é de facto um factor a ponderar na aquisição de um cão. Mas que seja a única? Ou efectivamente a mais importante?
Quando pretende adquirir um carro novo, não entra no primeiro stand que vê e diz ao vendedor “Quero um carro azul. Quanto custa?”, pois não? Irá decidir que tipo de veículo necessita, comparar as características técnicas dos automóveis de várias marcas dentro da gama que pretende, e só depois de ter ideia do que quer irá comparar os preços para as marcas e modelos pré-seleccionados, e em vários stands, certo? No entanto, quando se pretende adquirir um ser vivo que irá ser parte integrante da nossa vida durante 10 a 15 anos, a maior parte das pessoas apenas parece preocupar-se com o preço, sem procurar conhecer as “características técnicas” do animal. Tal como os criadores não são todos iguais, o potencial de cada cachorro, e os cuidados que lhe foram prestados, variam.
Nos numerosos sites de anúncios grátis existentes na net, é comum encontrar cachorros à venda por valores irrisórios. Quando se pergunta a um criador sério quanto custa um cachorro da mesma raça, obter-se-á um valor nitidamente superior. Porquê a diferença? Há razão para comprar um cachorro mais caro quando se encontram mais baratos? Sim! E há motivos quer a curto quer a longo prazo. Criar um cachorro adequadamente, de forma a dar-lhe o melhor início de vida possível, não é barato. Há que considerar a ração de boa qualidade e adequada à idade e estado fisiológico que deve ser dada à mãe e às crias após o desmame, os suplementos (vitaminas, minerais) quando necessários, as desparasitações regulares e frequentes que devem ser feitas a cada um dos bebés e à mãe, as vacinas, os brinquedos para estimulação física e mental… isto sem sequer contabilizar o tempo despendido pelo criador a assegurar-se que o parto corre da melhor forma, que os cachorros mamam adequadamente, a socializa-los e habituá-los a várias situações que irão encontrar na sua vida futura, etc..
Claro que se pode ver aqui várias formas de poupar dinheiro e vender cães baratos – com uma ração de baixa qualidade, que não cobre adequadamente as necessidades especais dos animais nesta fase, não efectuando vacinas e desparasitações, vendendo os cachorros logo após o desmame, para não incorrer nos gastos da sua alimentação, etc.… Naturalmente, isto tem consequências a nível da saúde actual e futura do cachorro. Enquanto está a mamar, a cria recebe anti-corpos da sua mãe através do leite, mas no desmame essa protecção termina, apenas sendo recuperada com uma vacinação adequada. Se o cachorro mudar de família logo após o desmame, isso irá ocorrer numa situação em que as suas defesas estão significativamente reduzidas, pelo que tem um risco aumentado de contrair doenças na sua nova casa, um ambiente novo potencialmente com riscos que não existiam no local onde nasceu. Algumas doenças adquiridas nesta idade são fatais ou deixam sequelas para o resto da vida!
A longo prazo, também a nível comportamental é um risco adquirir um cachorro de tão tenra idade. Ao longo do crescimento do cachorro, ele passa por diferentes fases de desenvolvimento não só físico como psicológico. Entre as 3 e as 12 semanas, ocorre o que é designado como “período de socialização”, em que aprende as regras de comportamento primeiro com outros cães e depois com outros animais e pessoas. Um cachorro que saia demasiado cedo de perto da sua mãe e irmãos para uma nova casa não terá ocasião de aprender as regras de comunicação e etiqueta caninas, e tem riscos acrescidos de, por essa razão, vir a ter problemas futuros no relacionamento com outros cães e pessoas.
Um criador sério irá recusar-se a vender um cachorro antes dos 2-3 meses de idade. Desta forma, poderá proceder a um correcto plano de desparasitação e primo-vacinação, procurando assegurar que quando o cachorro sai tem já as defesas necessárias para resistir às “agressões” do novo ambiente (mas é fundamental que o novo dono complete o plano para uma protecção adequada). Este período passado com o criador permite também que o cachorro adquira os elementos básicos da interacção social com outros cães e pessoas e permite que comece a ser feita uma socialização a diversos tipos de situações, que deverá depois ser continuada pelo novo proprietário.
Há mais para além do preço
Se está a ler este texto é porque tem, a priori, um interesse em cães superior à média da população e irá esforçar-se por ser um bom dono para um cão que venha a adquirir. Tendo já noções básicas do que é necessário para ter um cão, ou experiência prévia, é natural que a sua principal preocupação quando for adquirir um cão seja o seu preço. Mas o criador que irá contactar não o conhece! Quando é contactado e apenas lhe perguntam pelo preço, a ideia que é transmitida por vezes é apenas a de que estão à procura de um cão o mais barato possível, o que é deveras desencorajante para quem procura a melhor casa possível para os seus cães.
Adicionalmente, há mais factores a considerar quando se adquire um cão, que fazem com que o preço de compra acabe por ser um factor secundário no cômputo geral.
Pode (e deve!), por exemplo, perguntar-se sobre as patologias existentes na raça, e o que é que o criador está a fazer para tentar minorar o seu efeito. Quando se compra um cachorro cujos progenitores tenham feito testes de despiste para as principais doenças que afectam a sua raça, e apesar de tal não ser uma garantia que o cachorro será indemne delas, pelo menos tem-se uma ideia de qual o real risco de vir ou não a ser afectado; um cachorro proveniente de animais não testados é sempre um “tiro no escuro”, uma lotaria em que não se sabe o que se está a adquirir.
Deverá pedir-se para ver os cachorros e a progenitora da ninhada (por vezes o pai não pertence ao criador, pelo que poderá não estar presente) e tentar avaliar se os cachorros parecem estar em boas condições físicas e comportamentais – com pelo brilhante, olhos limpos, activos e brincalhões, etc. Se o criador recusar, desconfie e inquira; se é certo que em cachorros de tenra idade o manuseamento por estranhos pode ser um risco de saúde, depois de os cachorros estarem adequadamente vacinados esse risco é mínimo.
Questione o criador sobre o que lhe passar pela cabeça que possa ser relevante; um criador sério estará disponível para responder e educar potenciais interessados. Esteja também preparado para que o criador lhe coloque questões, de forma a aferir se a raça e algum indivíduo em particular é ou não adequado para si. Afinal, um S. Bernardo de 70 kg talvez não seja a escolha ideal para a nossa frágil avó de 70 anos; um Pug certamente não será o mais indicado para o jovem dinâmico que gosta de correr 20 km todos os dias na companhia do seu cão; um terrier escavador não será perfeito para quem gosta de ter um jardim imaculado.
E, muito importante, visite vários criadores antes de tomar uma decisão! Converse com eles, questione e responda às perguntas, forme a sua opinião e decida de forma informada. Lembre-se que o preço que pagará pelo seu cachorro inclui não apenas o seu custo no momento, mas também todo o apoio que o criador disponibilizará ao longo da vida do animal.
Tem cachorros disponíveis?
Esta é normalmente a 2ª pergunta mais comum ao criador, quando se chega à fase da 2ª pergunta. Também por razões óbvias. A pessoa sabe que quer adicionar um companheiro de 4 patas à sua vida, por isso quer fazê-lo quando tomou essa decisão. Porém, essa não é necessariamente a melhor via!
Um criador normalmente não tem cachorros sempre disponíveis, tê-los á quando achar que encontrou uma combinação de progenitores que lhe permitirá chegar mais perto dos seus objectivos. No caso de possuir numerosos exemplares, isso talvez lhe permita gerir as suas fêmeas de forma a efectivamente ir fazendo várias ninhadas ao longo do ano, se o desejar e tiver uma procura adequada. No entanto, caso tenha poucos exemplares, as suas ninhadas serão mais espaçadas no tempo, haverá períodos em que não vai ter jovens disponíveis.
Caso se trate de uma raça relativamente popular, haverá certamente criadores responsáveis em número suficiente para que, com um pouco de pesquisa, o futuro proprietário encontre um criador que lhe agrade com cachorros disponíveis. No entanto, no caso de raças mais raras, com poucos criadores, a probabilidade é a de não encontrar cachorros disponíveis quando a pessoa se lembrou que quer um. Nesse caso, o ideal é a pessoa inscrever-se na lista de espera do criador, aguardando que este tenha uma ninhada disponível. Isto irá dar-lhe uma maior hipótese de vir a ter o cachorro desejado, até porque muitos criadores apenas criam quando têm boas casas asseguradas para os seus cachorros.
Beneficie deste período para ir conversando com o criador, colocar todas as dúvidas e questões que lhe ocorrerem e ir preparando com calma e tranquilidade a chegada do seu novo companheiro. Aproveite também para ponderar seriamente se é a altura certa para adquirir um ser vivo que irá requerer cuidados e atenção constantes durante 10 ou mais anos. Vivemos numa sociedade de consumo e gratificação imediatos, em que adquirimos bens sem ponderar seriamente se necessitamos deles e o que faremos com eles no futuro. Um animal não é um peluche ou playstation que podemos deixar numa prateleira quando nos fartamos dele!
Um cachorro para oferecer?
O Natal é tradicionalmente uma das alturas em que há mais procura por cachorros. Há quem ache que é o presente ideal, quem queira oferecer um cão ao(à) cônjuge, a um familiar, ou mesmo a um amigo. Também é comum quem queira oferecer um cachorro ao filho, porque há meses que faz birra que quer um, ou porque teve boas notas no primeiro período, ou para “ensiná-lo a ser responsável”… No entanto, sob o ponto de vista de um criador sério, o Natal é uma das épocas do ano mais problemáticas! É uma das alturas em que mais difícil separar o trigo do joio em termos de potenciais casas para cada um dos seus cachorros. Isto porque normalmente oferecer um cachorro de surpresa a alguém dá maus resultados. A aquisição de um ser vivo deve ser um acto bem ponderado, em que todos os envolvidos devem ter participado da decisão e estar de acordo. Caso contrário corre-se o sério risco de não haver tempo ou vontade para cuidar dele de forma adequada, se perder o interesse pela “novidade”, etc., levando ao aumento do abandono pouco tempo depois do Natal.
Um exemplo clássico é a aquisição de um cão para “dar responsabilidade à criança”. O princípio é muito bonito, mas o que acontece quando o jovem regressar às aulas e deixar de ter tempo disponível para o cão? Ou quando passar a novidade ou o cachorro crescer, e o seu filho perder o interesse no cão, como acontece sobretudo com crianças mais novas (ou adolescentes que subitamente encontram outros interesses na sua vida)? Se os pais não tiverem assumido previamente que a responsabilidade final do cuidado pelo animal recai sobre eles, mais cedo ou mais tarde é provável que ele seja abandonado. Que responsabilidade se está então a ensinar aos jovens? Que quando se perde interesse, é legítimo abandonar um ser vivo?
Também sob o ponto de vista do próprio cachorro, a época festiva não é a mais adequada para mudar de casa. O canito já está a passar pelo choque de subitamente se ver sem tudo aquilo que conhecia e num ambiente estranho. Um ambiente que, neste período é tipicamente de grande agitação, com as férias escolares, a família e amigos em casa, etc., quando o que ele precisa é de tranquilidade para se ambientar à nova casa e se desenvolver de forma equilibrada. E quando ele finalmente se começa a acostumar à sua nova vida, eis que tudo muda novamente – as férias acabam e as crianças regressam às aulas, os adultos ao trabalho, e o ambiente altera-se novamente. Será preferível aguardar por este período pós-festas para acolher o cachorro, de forma a que faça uma integração suave no que é o ritmo normal ao longo do ano da sua família de acolhimento.
Se efectivamente ficar acordado oferecer um cachorro no Natal, se a decisão for tomada de forma responsável, com o acordo de todos os envolvidos e do criador, porque não, em vez de sujeitar o cachorro a esta época confusa, elaborar com o criador uma espécie de “pacote de boas-vindas” para quem irá receber o cão, a oferecer no Natal em vez do cão, como preparação prévia para ir buscar o cachorro em melhor ocasião?
Adopte, não compre?
Sendo o Natal uma altura em que a aquisição de cães é tradicionalmente superior, as campanhas de adopção responsável de cães abandonados são também mais visíveis. Frequentemente o lema escolhido é algo nas linhas de “adopte, não compre” ou “cada cão comprado é um cão num canil que é abatido”. Mas isto não será um pouco de chantagem emocional?
Frequentemente o público que procura um cão de raça a um criador é algo diferente do que adopta um cão de um refúgio. Enquanto que este último “apenas” (sem qualquer sentido perjorativo!) procura um fiel companheiro, quem procura um cão de raça tipicamente fá-lo porque deseja encontrar um certo número de características físicas e comportamentais que são mais fáceis de encontrar um cão de raça do que num sem raça definida, devido à selecção efectuada que leva a que as características sejam substancialmente mais previsíveis num cachorro de raça. (1)
De qualquer forma, apesar de um cachorro comprado potencialmente até poder significar, no imediato, que um cão abandonado não será adoptado, as consequências a longo prazo poderão ser diferentes. Quando se adquire um cachorro a um criador sério, está-se ao mesmo tempo a assegurar um acompanhamento ao longo da sua vida, o criador está disponível para ajudar o proprietário no que puder, inclusive para retomar o cão se tal for necessário; diminui-se assim grandemente o risco do exemplar ser abandonado mais tarde. Quanto maior for a proporção de exemplares adquiridos a criadores empenhados, vs. puppy mills ou criadores de fundo de quintal, menor será a probabilidade de virem a acabar abandonados.
Faça o seu trabalho de casa!
Há alguns anos atrás, poderia ser difícil, para quem não estava no meio da canicultura, saber como encontrar um criador de determinada raça e o que procurar num cachorro. Hoje em dia, com o papel preponderante da internet nas nossas vidas, com meios de comunicação especializados disponíveis ao grande público, essa tarefa simplificou-se consideravelmente. Despenda tempo a pesquisar a raça que escolheu (e seja objectivo quanto à origem da informação consultada!!), visite vários criadores e converse com eles, mesmo que não esteja a planear adquirir já um exemplar - é fundamental saber se a sua escolha se adequa ao seu estilo de vida e personalidade, é importante encontrar um criador em quem possa confiar e sentir que irá ter apoio sempre que necessitar, em qualquer fase da vida do animal. Fundamentalmente, use o seu bom-senso e espírito crítico e não caia na armadilha da gratificação imediata. Um animal na nossa vida é uma grande responsabilidade, exige tempo e dedicação ao longo de anos, não irá permanecer cachorro pequenino e fofinho durante muito tempo. Esta é provavelmente uma das decisões mais importantes que irá tomar na sua vida! Certamente quererá tomá-la dispondo do máximo de informação possível, certo?
E já agora, depois de adquirir o seu cachorro, procure manter um contacto regular com o criador. Ele deixa um pouco de si em cada cachorro que entrega, e também gostaria de ter notícias deles, saber que se está a desenvolver bem (ou não) e que ele e a sua família estão felizes!
(1) Em Portugal, ainda não são comum os “breed rescues”, grupos que se dedicam à recolha e re-alojamento de cães abandonados de uma dada raça ou grupo de raças
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