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domingo, 25 de dezembro de 2011

Etiqueta para com cães idosos (e os seus donos!)

(English version above)

Passei por isto com o meu primeiro cão, e ao longo dos últimos meses com um cão gravemente doente. Ler este artigo uns dias após a sua morte, e com os comentários que ouvi de desconhecidos quando o meu cão estava a piorar de dia para dia, tocou um ponto sensível.
Penso que este é um artigo que todos deveriam ler!

Republicado com permissão de The Bark


Uma chamada de atenção para melhorar a nossa etiqueta com os cães mais velhos.

Como qualquer outra pessoa numa sociedade que cada vez mais lamenta a redução do civismo, reconheço que há novas quebras de etiqueta a cada minuto. Por exemplo, num qualquer dia, os telemóveis são responsáveis por um factor de descortesia fora da escala.
Mas penso que há um tipo de comportamento indelicado entre os adultos humanos que basicamente não é controlado. Eu própria fui culpada dele e afastei-me sentindo-me realmente estúpida. É uma daquelas coisas que não chega aos manuais de etiqueta e aparentemente nem sequer é digno uma consideração fugidia por qualquer Paula Bobone.

Refiro-me às coisas rudes, completamente sem censura e frequentemente simplesmente más que as pessoas nos dizem sobre os nossos cães (por “nos” refiro-me ao pessoal dos cães). A minha grande amiga Pam tem um Pastor Alemão de 12 anos que está a envelhecer a olhos vistos. Tal como ocorre com qualquer um de nós, humanos e caninos, mas que pessoa seria tão rude a ponto de dizer: “Essa é a sua mãe? Ena, está com um aspecto terrível. Mal se pode mexer!” No entanto este é o tipo de lamechices não solicitadas que a minha amiga tem de aturar de estranhos, o dia todo, sobre o seu cão idoso. Posso simpatizar porque passei por isto três vezes, começando com o Beagle da minha família, o Sam, que viveu até quase aos 17 anos, a maioria deles principalmente por força de vontade.
“Que idade tem?” As pessoas perguntavam isto incessantemente sobre o meu agora-defunto Setter Irlandês, o Amos. Não me importava de lhes dizer que tinha 12 ou 13 anos. “Ena. Não vivem muito mais, pois não?” Quão esfarrapado é isto?
Mas ainda fica pior. Quando o meu grande e lanudo rafeiro Louie (chamávamos-lhe o nosso “cheira-virilhas da Bavária”) estava velho e frágil, uma pessoa uma vez perguntou-me, “Já pensou em abatê-lo?”. Antes de mais, isso é um bocado como perguntar a uma mulher nos seus 40s (isto também me aconteceu), “Alguma vez pensou em ter filhos?”. “Hmm, ora que bela ideia! Porque é que eu não pensei nisso?”. Quando o nosso cão está velho e doente, praticamente só conseguimos pensar no fim. O nosso coração está despedaçado e preparamo-nos para chegar à decisão de forma a evitar sofrimento desnecessário ao nosso cão enquanto nos damos tempo para nos sentirmos tão tranquilos quanto possível em relação a deixá-lo partir.
As pessoas assumem que podem dizer o que quiserem sobre o cão de um desconhecido. Enquanto que (espero) abster-se-iam de dizer “Desculpe, mas parece que o seu marido está a perder o cabelo”, quando o Louie estava a sofrer da doença de Cushing, perfeitos desconhecidos constantemente assumiam o dever de apontar a sua perda de pêlo. “Sabia que o seu cão está a perder o pêlo?”. E que mais podemos fazer para além de resmungar, ahm, sim, é o meu cão, é parte da minha família, estou quase sempre com ele, dou-lhe banho, escovo-o, dorme connosco e ao longo de quase todas estas actividades, se não em todas, estou a olhar para ele! E lembro-me sempre demasiado tarde que podia ter respondido “Sabe que tem uma verruga no sei queixo?”.

A Pam chegou ao ponto de recear passear o seu cão em público porque sabe que os transeuntes vão fazer comentários insensíveis que ela não consegue mais ouvir. Quando está na rua, ela é suficiente sensível para não recordar todas as pessoas com quem se cruza que são mortais. Tal como qualquer um de nós, consegue ver quando uma pessoa está nas últimas, mas abstém-se de dizer “Ena, está mesmo mais lento” ou de perguntar à filha da pessoa “Então e quanto tempo é que as pessoas da sua família tendem a viver?”. Quando se abordam pessoas como a minha amiga, ajuda lembrarmo-nos que ela sabe que o seu cão é velho. Ela sabe-o em cada segundo de cada dia.

Os últimos anos e meses que partilhamos com os nossos cães geriátricos são dos tempos mais agridoces da vida dos amantes de cães. Sabemos, desde o momento que os escolhemos em cachorros ou olhamos para o seu olhar cristalino no refúgio de animais, que os nossos corações se irão despedaçar um dia. O que torna tudo pior é que quanto mais velhos vão ficando, mais doces vão ficando, e quando alcançam uma doçura absolutamente crítica– simplesmente não se pode amá-los mais do que o que se ama já – ficam completamente exaustos e morrem. Pelo que uma pessoa que pacientemente ajuda um cão idoso no seu percurso cada vez menor é alguém que poderia beneficiar de um pouco de contenção piedosa. Como um simples olá ao dono, ou uma festa carinhosa na cabeça do canito emérito.

sábado, 17 de dezembro de 2011

Um cachorro para o Natal?

(Englosh version above)

(Este artigo foi inicialmente publicado, ligeiramente modificado, na revista Cães e Companhia nº 175, Dezembro 2011)


O Natal é tradicionalmente uma época de paz, alegria e… cachorros como presente?
Será que é boa ideia oferecer um ser vivo em épocas festivas, sobretudo quando é uma surpresa para quem o irá receber? Este texto procura abordar algumas questões relativas à aquisição de um cachorro, sob um ponto de vista talvez um pouco menos tradicional.




Há criadores e criadores

Todos nós reconhecemos que os médicos não são todos iguais, uns são melhores e mais eficientes no seu trabalho e outros piores. Também sabemos que há bons e maus mecânicos, canalizadores que conhecem o seu trabalho a fundo e outros que só andam a “tapar buracos”, etc. No entanto, no colectivo popular os criadores de cães parecem estar todos “enfiados no mesmo saco”; há uma tendência para se pensar que todos só querem criar o máximo de animais ao menor custo para tirar o máximo de lucro ao longo da vida das pobres das cadelas. Mas quem se dedica à criação de cães pode fazê-lo por uma variedade de razões, que indubitavelmente irão afectar o resultado final.

Incontestavelmente, há criadores que efectivamente se dedicam a criar cães com o objectivo claro de ganhar dinheiro, em que procuram maximizam a vida reprodutiva dos seus animais (independentemente da sua saúde, património genético ou qualidade) ao menor custo possível, de forma a maximizar a sua margem de lucro. São criadores que não se preocupam com o destino final dos seus cachorros, desde que sejam vendidos, e que aproveitam ao máximo a compra por impulso – como o cachorro tão querido na montra de uma loja de animais num centro comercial -, evitando que o potencial comprador veja os cachorros e os seus restantes exemplares no ambiente em que vivem normalmente. São os chamados “puppy mills” ou “fábricas de cachorros”. Em Portugal serão uma minoria dos casos, mas a fonte mais frequente dos cachorros vendidos em lojas.

A grande maioria dos cães criados provêm de “simples” donos de fêmeas em idade reprodutiva, pessoas que, sem terem necessariamente intenções de lucro, fazem criação por uma grande variedade de razões (desculpas?) – porque querem ter um filho da sua cadelinha tão linda, porque ainda está enraizada a ideia que todas as cadelas devem ter pelo menos uma ninhada na vida (ou que todos os cães devem cruzar pelo menos uma vez), porque têm um cão de raça pura e como tal devem criar, quanto mais não seja para “recuperarem” o dinheiro que gastaram nele, porque as crianças devem poder ver o “milagre do nascimento”, porque não controlaram a sua cadela no cio e ela acasalou com um cão, etc., etc. São pessoas normalmente bem-intencionadas, ou pelo contrário sem quaisquer cuidados com o maneio reprodutivo das suas fêmeas não castradas, que se limitam a juntar uma cadela com um cão, sem grandes preocupações com o que estão a produzir ou o destino ou saúde dos cachorros nascidos, desde que sejam entregues a quem “prometa estimar”. Em muitos casos, os cachorros são dados ou vendidos a baixo preço, logo após o desmame, enquanto ainda estão fase “fofinha”, sem cuidados sanitários (vacinas, desparasitações) de forma a não terem gastos com eles. Este tipo de criadores são frequentemente designados por “backyard breeders” (literalmente, “criadores de fundo de quintal”).

Finalmente há também os verdadeiros Criadores, aqueles efectivamente dignos desse nome, com “C” maiúsculo – os que criam com um objectivo definido, que se preocupam em melhorar a qualidade morfológica e funcional da raça, que se preocupam em reduzir a incidência de problemas a nível de saúde, genético e/ou comportamento que possam existir na raça. São pessoas que procuram conhecer ao máximo a sua raça e os exemplares existentes, de forma a procurar a melhor combinação possível para atingirem os seus objectivos, mesmo que seja necessário recorrer a animais que não os seus próprios. São pessoas que antes de criar procuram aferir a qualidade dos seus exemplares, que fazem despistes de saúde e genéticos para minimizar o risco de transmissão de problemas à descendência; que fazem um controlo reprodutivo das suas fêmeas, respeitando períodos de repouso e recuperação entre ninhadas, e planeiam antecipadamente as ninhadas. E são pessoas que avaliam os potenciais interessados em adquirir um dos seus cachorros, de forma a tentarem aferir se são compatíveis com a raça e personalidade de cada um dos animais criados (e recusam a venda a alguns interessados, se necessário), que procuram acompanhar o desenvolvimento de cada exemplar nas suas novas casas, estando disponíveis em qualquer altura para dar apoio aos donos, retomando ou ajudando a encontrar um novo lar, se necessário, qualquer exemplar por si criado em qualquer altura da sua vida. Serão talvez uma minoria no mar de produtores de cachorros, mas são estes os criadores que este artigo irá abordar prioritariamente.

Qual o preço do cachorro?

Esta é a pergunta mais frequente que um criador ouve. É frequentemente a única pergunta que o criador ouve. Que a pergunta ocorra é óbvio e é de facto um factor a ponderar na aquisição de um cão. Mas que seja a única? Ou efectivamente a mais importante?
Quando pretende adquirir um carro novo, não entra no primeiro stand que vê e diz ao vendedor “Quero um carro azul. Quanto custa?”, pois não? Irá decidir que tipo de veículo necessita, comparar as características técnicas dos automóveis de várias marcas dentro da gama que pretende, e só depois de ter ideia do que quer irá comparar os preços para as marcas e modelos pré-seleccionados, e em vários stands, certo? No entanto, quando se pretende adquirir um ser vivo que irá ser parte integrante da nossa vida durante 10 a 15 anos, a maior parte das pessoas apenas parece preocupar-se com o preço, sem procurar conhecer as “características técnicas” do animal. Tal como os criadores não são todos iguais, o potencial de cada cachorro, e os cuidados que lhe foram prestados, variam.

Nos numerosos sites de anúncios grátis existentes na net, é comum encontrar cachorros à venda por valores irrisórios. Quando se pergunta a um criador sério quanto custa um cachorro da mesma raça, obter-se-á um valor nitidamente superior. Porquê a diferença? Há razão para comprar um cachorro mais caro quando se encontram mais baratos? Sim! E há motivos quer a curto quer a longo prazo. Criar um cachorro adequadamente, de forma a dar-lhe o melhor início de vida possível, não é barato. Há que considerar a ração de boa qualidade e adequada à idade e estado fisiológico que deve ser dada à mãe e às crias após o desmame, os suplementos (vitaminas, minerais) quando necessários, as desparasitações regulares e frequentes que devem ser feitas a cada um dos bebés e à mãe, as vacinas, os brinquedos para estimulação física e mental… isto sem sequer contabilizar o tempo despendido pelo criador a assegurar-se que o parto corre da melhor forma, que os cachorros mamam adequadamente, a socializa-los e habituá-los a várias situações que irão encontrar na sua vida futura, etc..
Claro que se pode ver aqui várias formas de poupar dinheiro e vender cães baratos – com uma ração de baixa qualidade, que não cobre adequadamente as necessidades especais dos animais nesta fase, não efectuando vacinas e desparasitações, vendendo os cachorros logo após o desmame, para não incorrer nos gastos da sua alimentação, etc.… Naturalmente, isto tem consequências a nível da saúde actual e futura do cachorro. Enquanto está a mamar, a cria recebe anti-corpos da sua mãe através do leite, mas no desmame essa protecção termina, apenas sendo recuperada com uma vacinação adequada. Se o cachorro mudar de família logo após o desmame, isso irá ocorrer numa situação em que as suas defesas estão significativamente reduzidas, pelo que tem um risco aumentado de contrair doenças na sua nova casa, um ambiente novo potencialmente com riscos que não existiam no local onde nasceu. Algumas doenças adquiridas nesta idade são fatais ou deixam sequelas para o resto da vida!
A longo prazo, também a nível comportamental é um risco adquirir um cachorro de tão tenra idade. Ao longo do crescimento do cachorro, ele passa por diferentes fases de desenvolvimento não só físico como psicológico. Entre as 3 e as 12 semanas, ocorre o que é designado como “período de socialização”, em que aprende as regras de comportamento primeiro com outros cães e depois com outros animais e pessoas. Um cachorro que saia demasiado cedo de perto da sua mãe e irmãos para uma nova casa não terá ocasião de aprender as regras de comunicação e etiqueta caninas, e tem riscos acrescidos de, por essa razão, vir a ter problemas futuros no relacionamento com outros cães e pessoas.

Um criador sério irá recusar-se a vender um cachorro antes dos 2-3 meses de idade. Desta forma, poderá proceder a um correcto plano de desparasitação e primo-vacinação, procurando assegurar que quando o cachorro sai tem já as defesas necessárias para resistir às “agressões” do novo ambiente (mas é fundamental que o novo dono complete o plano para uma protecção adequada). Este período passado com o criador permite também que o cachorro adquira os elementos básicos da interacção social com outros cães e pessoas e permite que comece a ser feita uma socialização a diversos tipos de situações, que deverá depois ser continuada pelo novo proprietário.

Há mais para além do preço

Se está a ler este texto é porque tem, a priori, um interesse em cães superior à média da população e irá esforçar-se por ser um bom dono para um cão que venha a adquirir. Tendo já noções básicas do que é necessário para ter um cão, ou experiência prévia, é natural que a sua principal preocupação quando for adquirir um cão seja o seu preço. Mas o criador que irá contactar não o conhece! Quando é contactado e apenas lhe perguntam pelo preço, a ideia que é transmitida por vezes é apenas a de que estão à procura de um cão o mais barato possível, o que é deveras desencorajante para quem procura a melhor casa possível para os seus cães.
Adicionalmente, há mais factores a considerar quando se adquire um cão, que fazem com que o preço de compra acabe por ser um factor secundário no cômputo geral.

Pode (e deve!), por exemplo, perguntar-se sobre as patologias existentes na raça, e o que é que o criador está a fazer para tentar minorar o seu efeito. Quando se compra um cachorro cujos progenitores tenham feito testes de despiste para as principais doenças que afectam a sua raça, e apesar de tal não ser uma garantia que o cachorro será indemne delas, pelo menos tem-se uma ideia de qual o real risco de vir ou não a ser afectado; um cachorro proveniente de animais não testados é sempre um “tiro no escuro”, uma lotaria em que não se sabe o que se está a adquirir.

Deverá pedir-se para ver os cachorros e a progenitora da ninhada (por vezes o pai não pertence ao criador, pelo que poderá não estar presente) e tentar avaliar se os cachorros parecem estar em boas condições físicas e comportamentais – com pelo brilhante, olhos limpos, activos e brincalhões, etc. Se o criador recusar, desconfie e inquira; se é certo que em cachorros de tenra idade o manuseamento por estranhos pode ser um risco de saúde, depois de os cachorros estarem adequadamente vacinados esse risco é mínimo.

Questione o criador sobre o que lhe passar pela cabeça que possa ser relevante; um criador sério estará disponível para responder e educar potenciais interessados. Esteja também preparado para que o criador lhe coloque questões, de forma a aferir se a raça e algum indivíduo em particular é ou não adequado para si. Afinal, um S. Bernardo de 70 kg talvez não seja a escolha ideal para a nossa frágil avó de 70 anos; um Pug certamente não será o mais indicado para o jovem dinâmico que gosta de correr 20 km todos os dias na companhia do seu cão; um terrier escavador não será perfeito para quem gosta de ter um jardim imaculado.
E, muito importante, visite vários criadores antes de tomar uma decisão! Converse com eles, questione e responda às perguntas, forme a sua opinião e decida de forma informada. Lembre-se que o preço que pagará pelo seu cachorro inclui não apenas o seu custo no momento, mas também todo o apoio que o criador disponibilizará ao longo da vida do animal.

Tem cachorros disponíveis?

Esta é normalmente a 2ª pergunta mais comum ao criador, quando se chega à fase da 2ª pergunta. Também por razões óbvias. A pessoa sabe que quer adicionar um companheiro de 4 patas à sua vida, por isso quer fazê-lo quando tomou essa decisão. Porém, essa não é necessariamente a melhor via!
Um criador normalmente não tem cachorros sempre disponíveis, tê-los á quando achar que encontrou uma combinação de progenitores que lhe permitirá chegar mais perto dos seus objectivos. No caso de possuir numerosos exemplares, isso talvez lhe permita gerir as suas fêmeas de forma a efectivamente ir fazendo várias ninhadas ao longo do ano, se o desejar e tiver uma procura adequada. No entanto, caso tenha poucos exemplares, as suas ninhadas serão mais espaçadas no tempo, haverá períodos em que não vai ter jovens disponíveis.

Caso se trate de uma raça relativamente popular, haverá certamente criadores responsáveis em número suficiente para que, com um pouco de pesquisa, o futuro proprietário encontre um criador que lhe agrade com cachorros disponíveis. No entanto, no caso de raças mais raras, com poucos criadores, a probabilidade é a de não encontrar cachorros disponíveis quando a pessoa se lembrou que quer um. Nesse caso, o ideal é a pessoa inscrever-se na lista de espera do criador, aguardando que este tenha uma ninhada disponível. Isto irá dar-lhe uma maior hipótese de vir a ter o cachorro desejado, até porque muitos criadores apenas criam quando têm boas casas asseguradas para os seus cachorros.

Beneficie deste período para ir conversando com o criador, colocar todas as dúvidas e questões que lhe ocorrerem e ir preparando com calma e tranquilidade a chegada do seu novo companheiro. Aproveite também para ponderar seriamente se é a altura certa para adquirir um ser vivo que irá requerer cuidados e atenção constantes durante 10 ou mais anos. Vivemos numa sociedade de consumo e gratificação imediatos, em que adquirimos bens sem ponderar seriamente se necessitamos deles e o que faremos com eles no futuro. Um animal não é um peluche ou playstation que podemos deixar numa prateleira quando nos fartamos dele!

Um cachorro para oferecer?

O Natal é tradicionalmente uma das alturas em que há mais procura por cachorros. Há quem ache que é o presente ideal, quem queira oferecer um cão ao(à) cônjuge, a um familiar, ou mesmo a um amigo. Também é comum quem queira oferecer um cachorro ao filho, porque há meses que faz birra que quer um, ou porque teve boas notas no primeiro período, ou para “ensiná-lo a ser responsável”… No entanto, sob o ponto de vista de um criador sério, o Natal é uma das épocas do ano mais problemáticas! É uma das alturas em que mais difícil separar o trigo do joio em termos de potenciais casas para cada um dos seus cachorros. Isto porque normalmente oferecer um cachorro de surpresa a alguém dá maus resultados. A aquisição de um ser vivo deve ser um acto bem ponderado, em que todos os envolvidos devem ter participado da decisão e estar de acordo. Caso contrário corre-se o sério risco de não haver tempo ou vontade para cuidar dele de forma adequada, se perder o interesse pela “novidade”, etc., levando ao aumento do abandono pouco tempo depois do Natal.

Um exemplo clássico é a aquisição de um cão para “dar responsabilidade à criança”. O princípio é muito bonito, mas o que acontece quando o jovem regressar às aulas e deixar de ter tempo disponível para o cão? Ou quando passar a novidade ou o cachorro crescer, e o seu filho perder o interesse no cão, como acontece sobretudo com crianças mais novas (ou adolescentes que subitamente encontram outros interesses na sua vida)? Se os pais não tiverem assumido previamente que a responsabilidade final do cuidado pelo animal recai sobre eles, mais cedo ou mais tarde é provável que ele seja abandonado. Que responsabilidade se está então a ensinar aos jovens? Que quando se perde interesse, é legítimo abandonar um ser vivo?

Também sob o ponto de vista do próprio cachorro, a época festiva não é a mais adequada para mudar de casa. O canito já está a passar pelo choque de subitamente se ver sem tudo aquilo que conhecia e num ambiente estranho. Um ambiente que, neste período é tipicamente de grande agitação, com as férias escolares, a família e amigos em casa, etc., quando o que ele precisa é de tranquilidade para se ambientar à nova casa e se desenvolver de forma equilibrada. E quando ele finalmente se começa a acostumar à sua nova vida, eis que tudo muda novamente – as férias acabam e as crianças regressam às aulas, os adultos ao trabalho, e o ambiente altera-se novamente. Será preferível aguardar por este período pós-festas para acolher o cachorro, de forma a que faça uma integração suave no que é o ritmo normal ao longo do ano da sua família de acolhimento.

Se efectivamente ficar acordado oferecer um cachorro no Natal, se a decisão for tomada de forma responsável, com o acordo de todos os envolvidos e do criador, porque não, em vez de sujeitar o cachorro a esta época confusa, elaborar com o criador uma espécie de “pacote de boas-vindas” para quem irá receber o cão, a oferecer no Natal em vez do cão, como preparação prévia para ir buscar o cachorro em melhor ocasião?

Adopte, não compre?

Sendo o Natal uma altura em que a aquisição de cães é tradicionalmente superior, as campanhas de adopção responsável de cães abandonados são também mais visíveis. Frequentemente o lema escolhido é algo nas linhas de “adopte, não compre” ou “cada cão comprado é um cão num canil que é abatido”. Mas isto não será um pouco de chantagem emocional?

Frequentemente o público que procura um cão de raça a um criador é algo diferente do que adopta um cão de um refúgio. Enquanto que este último “apenas” (sem qualquer sentido perjorativo!) procura um fiel companheiro, quem procura um cão de raça tipicamente fá-lo porque deseja encontrar um certo número de características físicas e comportamentais que são mais fáceis de encontrar um cão de raça do que num sem raça definida, devido à selecção efectuada que leva a que as características sejam substancialmente mais previsíveis num cachorro de raça. (1)

De qualquer forma, apesar de um cachorro comprado potencialmente até poder significar, no imediato, que um cão abandonado não será adoptado, as consequências a longo prazo poderão ser diferentes. Quando se adquire um cachorro a um criador sério, está-se ao mesmo tempo a assegurar um acompanhamento ao longo da sua vida, o criador está disponível para ajudar o proprietário no que puder, inclusive para retomar o cão se tal for necessário; diminui-se assim grandemente o risco do exemplar ser abandonado mais tarde. Quanto maior for a proporção de exemplares adquiridos a criadores empenhados, vs. puppy mills ou criadores de fundo de quintal, menor será a probabilidade de virem a acabar abandonados.

Faça o seu trabalho de casa!

Há alguns anos atrás, poderia ser difícil, para quem não estava no meio da canicultura, saber como encontrar um criador de determinada raça e o que procurar num cachorro. Hoje em dia, com o papel preponderante da internet nas nossas vidas, com meios de comunicação especializados disponíveis ao grande público, essa tarefa simplificou-se consideravelmente. Despenda tempo a pesquisar a raça que escolheu (e seja objectivo quanto à origem da informação consultada!!), visite vários criadores e converse com eles, mesmo que não esteja a planear adquirir já um exemplar - é fundamental saber se a sua escolha se adequa ao seu estilo de vida e personalidade, é importante encontrar um criador em quem possa confiar e sentir que irá ter apoio sempre que necessitar, em qualquer fase da vida do animal. Fundamentalmente, use o seu bom-senso e espírito crítico e não caia na armadilha da gratificação imediata. Um animal na nossa vida é uma grande responsabilidade, exige tempo e dedicação ao longo de anos, não irá permanecer cachorro pequenino e fofinho durante muito tempo. Esta é provavelmente uma das decisões mais importantes que irá tomar na sua vida! Certamente quererá tomá-la dispondo do máximo de informação possível, certo?

E já agora, depois de adquirir o seu cachorro, procure manter um contacto regular com o criador. Ele deixa um pouco de si em cada cachorro que entrega, e também gostaria de ter notícias deles, saber que se está a desenvolver bem (ou não) e que ele e a sua família estão felizes!



(1) Em Portugal, ainda não são comum os “breed rescues”, grupos que se dedicam à recolha e re-alojamento de cães abandonados de uma dada raça ou grupo de raças

terça-feira, 5 de julho de 2011

Passear com o cão à solta - Sim… Não… Talvez…

(versão inglesa acima)

As férias de Verão chegaram, com o bom tempo e os dias longos. Com elas vem a disponibilidade para passar mais tempo ao ar livre com a família – tanto a de 2 como a de 4 patas. E a tentação de andar com o nosso companheiro canino à solta é naturalmente grande, tanto mais que no resto do ano, por razões diversas, normalmente temos menos tempo disponível para ele. Mas será que o devemos fazer de qualquer maneira?



Dificilmente alguém irá contestar o facto que os cães precisam de andar à solta. São animais sociais e activos, que precisam de poder desgastar regularmente as suas energias e de ser estimulados física e psicologicamente. Os simples passeios higiénicos diários, à trela, rápidos e em sítios conhecidos, dificilmente serão suficientes para satisfazer as necessidades dos nossos companheiros. Ao contrário do que popularmente se pensa, mesmo os de pequeno porte não satisfazem as suas necessidades de exercício com o andar em casa; muitas vezes, têm mesmo necessidades proporcionalmente maiores que as de cães de porte superior.
Quando correm bem, os passeios à solta são uma excelente oportunidade para reforçar os laços e cumplicidade existentes entre o dono e o seu cão. Mas existem numerosas oportunidades para que corram mal, e o dono deve estar ciente delas para se poder precaver.

Bom senso… e obediência!
A maioria dos riscos, infelizmente, advém muito da falta de cuidado… Vezes demasiadas se vêm cães sem trela, mesmo em espaços confinados e/ou desconhecidos, a manifestar evidentes sinais de stress, a embater contra objectos (nomeadamente as cada vez mais presentes portas de vidro, que os cães não apreendem de imediato que constituem uma barreira, por verem o que está do outro lado). Um cão à solta tem, por inerência, maior probabilidade de se magoar ou de causar danos, mesmo que não intencionalmente. Um cão que se assuste ou que persiga algum animal, facilmente corre para o meio da estrada, arriscando-se seriamente a ser atropelado. Ou a embater em alguém, por estar mais focado no que está a perseguir do que no que se passa em seu redor. Um cão à solta deve ser um cão treinado, obediente, que responda à chamada do seu dono qualquer que seja a situação, de forma a precaver situações problemáticas. Isto é necessário não só em espaços abertos, mas mesmo também quando se tem o animal à solta em espaços vedados, como parques para cães – não deixa de haver pessoas e outros cães a quem é necessário prestar atenção, para que o passeio seja uma experiência agradável para todos os envolvidos.

Propensão racial
Algumas raças têm tendência a serem mais atentas ao dono, enquanto outras tendem a ser mais independentes. Os cães de pastoreio, por exemplo, tendo sido selecionados para trabalhar sob a supervisão de pessoas, tendem a ser mais responsivos aos desejos do dono e a permanecer mais nas suas imediações, e o inverso tende a ocorrer com os cães de montanha, mais independentes e exploradores da área em que se encontram. Já os sabujos, por exemplo, apesar de serem bastante atentos ao dono, quando encontram um cheiro que lhes interesse e começam a seguir o rasto, manifestam uma notável “surdez selectiva”. Isto porque essa actividade é para eles bastante mais atractiva e recompensadora que a mera presença do dono (por muito que custe a alguns donos assumir isto). Naturalmente, isto são as tendências gerais, e existe muita variação individual dentro de cada raça, frequentemente até mais que entre raças. No entanto, é uma boa regra empírica considerar os diferentes tipos raciais e a sua tendência para se comportar de forma diferente quando estão à solta, para os donos implementarem estratégias para assegurar a obediência do seu cão em qualquer situação – há que procurar garantir que constituem o principal foco de interesse do seu companheiro, mais interessante que qualquer outra actividade.

“Ele só quer brincar!”
Está você na praia a relaxar quando, vindo do nada, aparece um cão a correr atrás de uma bola atirada por alguém, fazendo uma curva apertada mesmo em cima da sua toalha e dando-lhe um banho de areia. Como se isso não fosse suficiente para destruir a sua boa disposição, um outro sai do mar e sacode-se vigorosamente ao seu lado, dando-lhe desta vez literalmente um banho de água fria. Por muito que goste de cães, este não será certamente um dos seus momentos favoritos!
Quando passeia no parque, a situação poderá tornar-se ainda mais complicada. O seu cão até poderá só querer brincar, mas as outras pessoas têm também direito a poder disfrutar o espaço público da sua forma, sem serem importunadas. Ele até pode ser o cão mais simpático e bonacheirão da zona, mas isso não é razão para deixar o seu S. Bernardo de 70 kg ir a correr desenfreadamente para cima de um transeunte a pedir-lhe festas, enchendo-o de baba, só porque “ele só quer brincar”. Ou para deixar o seu Collie andar a correr à volta das pessoas tentando juntá-las num único grupo, mordiscando os seus calcanhares (comportamento de pastoreio). Deve ainda ser prestada atenção especial a locais ondem andem pessoas de bicicleta, patins, trotinetes, etc., já que a maioria dos cães tende a associá-los a presas a perseguir.
Se o seu cão não estiver habituado com crianças, ou pouco, vigie-o cuidadosamente em zonas onde haja garotos a brincar. As crianças têm uma forma e um comportamento diferente do dos adultos, e cães que a elas não estejam habituados poderão não as apreender como pessoas, mas sim como brinquedos animados ou presas a perseguir.



“Ele não morde!”
Quando um cão está excitado a aproveitar os seus poucos momentos à solta e se apercebe de outro cão, muitas vezes a tendência é ir a correr ter com o outro. Quase automaticamente, o dono frequentemente deixa-o ir, limitando-se a comentar para o dono do outro “Não faz mal, o meu cão não morde!” Mas será uma situação assim tão simples e inocente?
Por um lado, o seu cão poderá efectivamente não morder numa situação normal, mas o dono nada sabe sobre o outro, se é agressivo, se está assustado, etc. Será sensato expor qualquer dos cães a uma situação de potencial risco sem tomar as medidas adequadas?
Por outro lado, e frequentemente em virtude do isolamento social a que a maioria dos cães urbanos estão sujeitos (muitas vezes imposta pelos donos, que de imediato afastam qualquer cão que se tenta aproximar do seu), muitos não sabem aproximar-se educadamente de outros cães cumprindo as regras de etiqueta canina. Numa abordagem correcta, os dois cães aproximam-se calmamente, com uma postura relaxada, sem fixarem o olhar um no outro (poderão alternar o olhar para o outro com o desviarem o olhar), posicionam-se lado a lado, para cheirarem a região peri-anal do outro (o equivalente canino ao aperto de mãos humano) e, não havendo tensão, poderão prosseguir o seu caminho ou tentarem brincar um com o outro. Quando esta abordagem não é adequadamente efectuada, poderão surgir problemas por má interpretação das intenções. Por exemplo, é comum, quando os cães estão muito excitados, virem a correr directamente para o outro, parando mesmo em frente dele. Num equivalente humano, pense num desconhecido que o vê à distância e vem a correr para cima de si, parando a poucos centímetros. Desagradável, não?
Numa situação destas, um cão mais confiante poderá exibir sinais tentando acalmar a situação, como o afastar-se calmamente, manter-se no mesmo local mas pôr-se a cheirar o solo (quase de certeza que o chão não é mais interessante que o outro cão, mas mostrando desinteresse, pode ser que o outro cão acalme), lamber os lábios, etc. Caso o cão seja inseguro e/ou não tenha possibilidade de escolher o que fazer (como acontece quando o cão está à trela), poderá eventualmente exibir sinais de agressividade (eriçar do pelo, arreganhar os lábios, rosnar…), de forma a tentar desencorajar o outro cão de se aproximar. Também os donos podem, inadvertidamente, contribuir para aumentar a tensão nos encontros. Por exemplo, ao desconhecerem as normas de conduta canina, há quem impeça os cães de cheirarem a região anal, por acharem esse comportamento repugnante. Mais frequente ainda é os donos ficarem nervosos com a aproximação de um cão desconhecido e fazerem tensão na trela, num comportamento quase reflexo de procurar segurar melhor o seu animal. Ora, o cão vai sentir essa tensão e ficará a pensar que efectivamente a situação poderá ser problemática, o que poderá levar a um aumentar da real tensão. O ideal, numa situação em que ambos os cães estejam à trela, é vigiar calmamente a linguagem corporal dos cães envolvidos, mantendo a trela lassa para não criar tensões desnecessárias. Quando ambos os cães estão à solta, não há o elemento humano a “complicar” a aproximação entre os cães, e qualquer um pode optar por se afastar, mas nem por isso se deve descurar a atenção ao comportamento dos animais. Uma má interpretação do comportamento por parte de um deles, ou desconhecimento do significado das posturas corporais (há que não esquecer que muitos cães vivem num ambiente virtualmente humano, desde cachorros com pouco ou nenhum contacto com outros cães) poderá levar ao surgimento de conflitos. Mas quando um dos cães está à solta e o outro está à trela, poderá haver o problema da sobre-excitação do cão à solta aliado à tensão apercebida pelo dono e o cão preso, que não tem a possibilidade de se afastar se o desejar; à falta da hipótese de fuga, ao cão receoso resta a do ataque... O dono do cão à solta tem então a responsabilidade acrescida de procurar assegurar que o seu cão não perturba o outro cão.




Peça autorização primeiro… e vigie
Uma forma simples é manter o seu cão perto de si e perguntar primeiro ao dono do outro se se podem acercar. Caso o dono recuse (pode ter um cão receoso, agressivo, frágil, em tratamento, etc.), respeite e prossiga com o seu passeio. Caso aceite, vigie a interacção entre os cães. Observe como se aproximam, e se o seu cão começar a ficar demasiado excitado, chame-o de volta, apenas permita abordagens calmas, de forma a evitar mal-entendidos e riscos. Após as apresentações, caso ambos os cães queiram brincar um pouco, não baixe a guarda. Apesar de na brincadeira os cães usarem normalmente numerosos sinais indicadores que o que estão a fazer não é para ser levado a sério, de forma a tranquilizar o seu companheiro, diferentes cães podem ter diferentes formas de brincar – uns gostam de ser mais físicos na brincadeira, outros preferem jogos mais calmos… Deve ser prestado especial atenção às brincadeiras entre cães de porte muito diferente, pois há risco de o cão maior sem querer magoar o mais pequeno. Aliás, essa é a principal razão para a recomendação de haver dois recintos separados nos parques para cães, para que animais de diferente porte possam interagir em segurança com cães do seu tamanho.


Respeite para ser respeitado
Por muita vontade que tenha de andar sempre com o seu cão bem educado à solta (independentemente da legalidade ou não da situação), tenha em mente que há pessoas que têm medo de cães ou que, mesmo não os receando, não apreciam particularmente tê-los perto de si. Muitas pessoas não sabem interpretar correctamente a expressão corporal dos cães, e podem sentir-se ameaçadas pela abordagem de um cão desconhecido. Não se esqueça que na maioria dos espaços públicos os cães devem circular à trela, e é-lhes inclusive interdito o acesso a vários locais. Apesar de tradicionalmente haver uma certa tolerância quanto a estas liberdades, há que respeitar os outros! Aprenda a interpretar a linguagem corporal dos cães, mantenha o seu cão à trela ou junto a si quando está perto de outras pessoas, não o deixe aproximar-se de pessoas ou cães sem autorização e nunca se esqueça de recolher os dejectos que o seu cão faz, mesmo quando este anda à solta. Se todos respeitarmos as regras elementares de bom senso, respeito e sã convivência, pode ser que gradualmente se comece a mudar as mentalidades e a conseguir o acesso legal dos cães a cada vez mais espaços públicos.

terça-feira, 10 de maio de 2011

Pessoas conhecendo cães / Cães conhecendo pessoas

(English version above)

O primeiro cão que tive desde cachorro, o Nikko, tinha medo de pessoas. E tinha a sorte (ou o azar, sob o ponto de vista dele) de ter um aspecto muito atractivo, com o seu pelo desgrenhado. Quando eu o passeava, se tivesse a sorte de as pessoas me perguntarem se lhe podiam fazer festas (isto porque a maior parte nem se dava ao trabalho de perguntar, faziam-no logo), dizia que não, que ele não gostava pelo que não o queria forçar a uma situação desagradável para ele. Já a minha mãe, cheia de boas intenções, dizia que sim e, se fosse preciso, pegava no cachorro ao colo para as pessoas lhe poderem mexer melhor. Ora, naturalmente isto só agravava a situação, pois ele ficava sem a hipótese de escolher o que fazer e eventualmente afastar-se.

Se fosse consigo, gostava?

Imagine… Está você calmamente a disfrutar o seu passeio, a apreciar a vista, a ver quem passa, quando de repente vem um perfeito desconhecido ter consigo, agarra-o, dá-lhe um abraço bem apertado como se fosse um amigo de longa data, apalpa-o todo e desaparece em seguida. Confuso? Um pouco mais à frente, aproxima-se outra pessoa, pega-o ao colo, enche-o de beijos enquanto lhe fala como se fosse um bebé e vai-se embora. Mas o que é que se passa? Passado mais um pouco, estas situações repetem-se. Quando é que a sua paciência acaba? No meu caso pessoal, posso dizer que certamente rapidamente me tornaria num perigo para a integridade física das pessoas… ;)
Surreal? Certamente! Não passaria pela cabeça de ninguém comportar-se assim com perfeitos desconhecidos. No entanto, esta é a realidade de inúmeros cães, quando vão passear – serem frequentemente interceptados por pessoas que lhes querem mexer, enquanto se espera que não tenham qualquer tipo de reacção negativa!

Um cão na rua é um bom cão?

Quando vê uma criança na rua, assume imediatamente que é uma criança bem-educada? No entanto, quando vêm um cão na rua, a maioria das pessoas assume que o cão irá tolerar tudo o que lhe aparecer. E efectivamente, a maioria dos cães sabem comportar-se minimamente em público. Mas e quanto aos que não sabem? Ah, mas esses os seus donos deixam em casa! O que é que isso resolve? Um cão que fique permanentemente confinado em casa nunca aprenderá a comportar-se numa sociedade humana. É necessário vir para o exterior, calma e controladamente, para aprender as regras que deve cumprir. E para isso é preciso que o dono esteja disposto a ensiná-lo, com ou sem a ajuda de profissionais consoante a situação, e que as outras pessoas respeitem o espaço do cão e a sua necessidade de aprendizagem.

Peça autorização primeiro

A maior parte das pessoas, e principalmente as crianças, assim que vêm um cão na rua, de imediato se dirige a ele e começa a mexer-lhe. No entanto, habitue-se, e ensine os seus filhos, a pedir primeiro autorização ao dono. É tão simples e tão mais seguro! E é um sinal de respeito pelo dono e pelo cão. E respeite o que o dono lhe diz, quer concorde quer não! Lembro-me que, nas raras ocasiões em que as pessoas me perguntavam se podiam mexer no Nikko, e eu lhes dizia não explicando a razão, a resposta típica era “oh, mas ele é tão lindo, claro que não pode ter medo de pessoas!” O que é que ser bonito tem a ver com ter medo de pessoas? À partida, o dono conhece o seu cão melhor que ninguém e será a pessoa mais avalizada (salvo, em algumas situações, um profissional especializado) a aferir como o animal irá reagir em diferentes situações. Aliás, é precisamente o facto de as pessoas muitas vezes desrespeitarem as indicações do dono que leva a que alguns donos comecem sistematicamente a recusar qualquer contacto entre o seu cão e outras pessoas, criando um círculo vicioso em que o cão poderá inclusive começar a ganhar (ainda mais) medo às pessoas.
Mas também não caia no extremo oposto! É tão frequente ouvir os pais dizer aos seus filhos que se dirigem a um cão desconhecido “Não mexas que o cão morde!” Porquê incutir às crianças o medo aos cães? Se não se quer que a criança mexa no cão, não seria mais razoável explicar-lhe porque é que não deve mexer em cães desconhecidos e ensiná-la a pedir primeiro autorização ao dono?

Observe o cão 
Mesmo que o dono o autorize a mexer no seu cão, observe atentamente se o cão quer efectivamente esse contacto. Muitas pessoas acedem a que estranhos façam festas ao seu cão não porque este gosta da situação, ou porque os donos efectivamente não se importem, mas porque socialmente “fica mal” recusar. E forçar um cão tímido ou receoso ao contacto poderá agravar os seus medos e levar potencialmente a situações que ponham em risco a integridade física da pessoa e/ou do animal.
Mas se prestar atenção ao comportamento do cão, normalmente ele irá dar muitos sinais se está confortável com a situação ou não. Um cão que voluntariamente vem ter com a pessoa é um cão que, à partida, estará mais predisposto a estabelecer contacto físico. Mas e os outros? Alguns sinais indicadores de stress (ou sinais calmantes, como são frequentemente designados) são subtis e poderão passar desapercebidos para quem não os conhece – por exemplo, o retraír dos lábios, ou a dilatação das pupilas, que é uma resposta fisiológica de medo e que pode ser preparação para uma reacção de “fuga ou ataque”. Outros sinais não são tão subtis, mas muitas pessoas não os sabem interpretar correctamente. Como o cão que vira a cabeça de lado, evitando encarar a pessoa que se aproxima dele, não o faz porque viu algo mais interessante noutro sítio. Ou o cão que começa a bocejar ou a lamber os lábios ou o nariz, afinal ele não acabou de comer algo saboroso nem um passeio é altura em que esteja com sono. Mas alguns sinais são óbvios – o cão inseguro que se aproxima devagar e agachado, o cão que se afasta da pessoa ou que se refugia atrás ou entre as pernas do seu dono está claramente a demonstrar que a situação não lhe agrada. Isto, claro, sem chegar aos extremos do rosnar ou do snapping (dentada no ar, para desencorajar uma aproximação). Numa situação destas, porquê insistir? E arriscar tornar a situação extremamente complicada para todos os envolvidos?

Como abordar um cão?
Ok, portanto pediu autorização ao dono para fazer festas ao cão, e o animal não parece estar desconfortável com a situação. Apesar disso, talvez não seja uma boa chegar ao pé do cão, dar-lhe um abraço e pespegar-lhe com um beijo no meio do focinho! De uma forma geral, os cães não gostam de abraços, mesmo das pessoas que conhecem bem. Aliás, basta pensar que esse gesto não só não existe entre cães como lhes elimina a hipótese de se afastarem se quiserem. Apesar de cães com um grande laço entre eles gostem por vezes de estar contacto físico estreito um com o outro, o mais parecido com um abraço que eles têm ocorre normalmente durante rituais ou lutas hierárquicas entre cães. Não será assim difícil imaginar que este gesto tem para eles uma conotação diferente da que tem para nós.
Então que fazer? Não aborde o animal de frente, isso é intimidatório para o cão. Evite olhar o cão directamente nos olhos (gosta de ter um estranho a olhá-lo directamente nos olhos?), sobretudo nos primeiros momentos até o cão estar relaxado. Agache-se ao lado do cão, tornando-se assim mais acessível e cumprindo a etiqueta canina – ao contrário das pessoas, os cães cumprimentam-se de lado, não de frente. Deixe ser o cão a decidir vir ter consigo. Isto é muito importante, pois permite que seja o cão a decidir se se sente confortável com a situação. Pode mesmo deixar uma mão descaída, para o cão vir cheirar. Ele poderá aproximar-se e ficar a cheirar, ou aproximar-se, cheirar e afastar-se de imediato… respeite a sua decisão e não vá atrás dele se se afastar.

Onde mexer?
Se o cão der sinais de estar confortável e procurar contacto, a fase seguinte é normalmente as pessoas tentarem fazer-lhe festas. Esta situação também requer frequentemente algum auto-controlo. Evite movimentos bruscos, que poderão assustar o cão. A tendência é tentar fazer festas na cabeça, mas a maioria dos cães não gosta particularmente de carícias aí. Pergunte ao dono se o cão tem algum sitio preferido, e/ou experimente as faces atrás dos lábios, atrás das orelhas, no peito, nos ombros, na base da cauda… É importante que o vá fazendo calmamente, sempre observando o cão, e que pare se o cão começar a exibir sinais de desconforto ou stress.

Em suma…

Para que todos (pessoas e cães) possam disfrutar os dias soalheiros que aí vêm, basta um pouco de respeito mútuo e bom-senso. A maioria dos cães gosta de interagir com outras pessoas, mas ao contrário do que muitas parecem pensar, nem todos os cães se sentem confortáveis nessa situação. Basta um pouco de bom senso por parte dos donos e das restantes pessoas para que os passeios sejam uma experiência agradável para todos envolvidos, e não um martírio para o cão e o dono.