terça-feira, 12 de junho de 2012

Quanto custa criar um cachorro?

(Click here for the English version)

É frequente as pessoas reclamarem com um criador devido a preço que ele pede por um cachorro. O argumento mais frequente é “se eu for ao criador X o cachorro fica-me muito mais barato”.

Infelizmente, as pessoas raramente se apercebem dos custos reais de criar uma ninhada de forma adequada.

Como um familiar meu pensava há uns anos atrás - “hmmm, isso é um excelente negócio… Vejamos, cada cadela tem X cachorros, 2 vezes por ano, a Y euros cada um… Isso é uma mina de ouro!” Até lhe explicar que não era bem assim…

Quanto custa criar uma ninhada


Façamos um pequeno exercício matemático. Vamos assumir uma raça de tamanho médio (com a qual estou mais familiarizada), e 6 cachorros por ninhada.


Os custos directos e quantificáveis de criação de uma ninhada são:
•    alimentação adequada e reforçada da mãe e dos cachorros,
•    cuidados higieno-sanitários da mãe e dos cachorros,
•    microchipagem dos cachorros,
•    procedimentos administrativos (registos),
•    material diverso (gamelas, brinquedos para estimular física e mentalmente os cachorros),
•    custo da monta.

Um cálculo de valores mínimos dá como custos gerais da ninhada:

Criação de uma ninhada                                                                   Custo (€) 
Alimentação mãe (2ª metade da gravidez + 2 meses pós-parto)                 200
Alimentação cachorros (até aos 3 meses)                                                200
Desparasitação mãe                                                                                30
Desparasitação cachorros                                                                        30
Vacinação Cachorros (primo-vacinação com 3 doses)                               200
Microchips                                                                                              90
Registos                                                                                           123.50*
Custos vários (brinquedos, etc.)                                                               50
Custo da monta                                                                                     500        
                                                                            Total                  1423.50
                                                       Custo por cachorro                   237.25
* Nas raças portuguesas, o valor reduz-se a metade; algumas destas raças ou variedades estão total ou parcialmente isentas destes custos


Estes valores dizem respeito a rações de qualidade média/alta, não necessariamente topos de gama, e consumíveis (brinquedos, etc.) de qualidade média. Foram estimados através de experiência pessoal e conversas com vários criadores de raças de médio porte.
Atenção que são uma estimativa dos preços que um criador estabelecido consegue obter, através de acordos com marcas de ração e médicos veterinários! Estão abaixo do preço de venda ao público da maior parte dos bens necessários!!
Uma pessoa que se limite a criar com a sua cadela de estimação, e que precise de recorrer a lojas para adquirir ração e a consultas em clínicas veterinárias para os tratamentos e vacinações irá, obviamente, incorrer em custos muito mais elevados!

O preço da cruza possivelmente é o valor mais difícil de calcular nesta estimativa, pois varia de criador para criador e de acordo com o mérito do macho escolhido; pode mesmo ser 2 a 3+ vezes mais elevado.

Além disso, estes valores dizem respeito a um mundo perfeito. Ou seja, em que o parto decorre sem problemas, não há necessidade de acompanhamento médico-veterinário ou de cesariana, não há problemas pós-parto, não é necessário criar à mão ou suplementar os cachorros, etc. Por exemplo, há raças que nas quais, em virtude da sua anatomia, a maioria dos cachorros tem de nascer por cesariana.
Todas estas situações irão agravar consideravelmente o custo da ninhada.


O custo da manutenção da mãe


Se a criação de cães fosse um negócio, então a venda de cachorros serviria para, no mínimo, cobrir os custos de manutenção da progenitora ao longo do resto do ano, certo? Vejamos de que valores estamos a falar:

Manutenção de 1 adulto ao longo de 1 ano                      Custo (€)
Alimentação                                                                         540
Vacinação                                                                              50
Desparasitação                                                                      20
Custos vários (trelas, coleiras, gamelas, etc.)                           50        
                                                                               Total     660
                                                         Custo por cachorro    110

Uma vez mais, estamos a falar de um mundo perfeito (que não existe!), em que a cadela não tem qualquer problema de saúde ao longo do ano.

O custo mínimo do cachorro



Ora bem, com base nos valores atrás indicados, podemos então calcular qual o custo mínimo de um cachorro criado com os cuidados básicos de alimentação e sanitários:

Custo mínimo de um cachorro                                      Custo (€)
Parte do cachorro na ninhada                                            237.25
Parte do cachorro na manutenção da mãe                          110.00 
                                                              Custo total        347.25

Muito abaixo dos valores que vários criadores pedem? Pois, só que estes valores dizem respeito a um mundo perfeito (sem emergências ao longo do ano e durante o parto e criação da ninhada) e a uma criação “de vão de escada”, em que nos limitamos a juntar uma cadela com um cão (pode ver mais sobre os tipos de criadores neste post e neste post). Naturalmente, nem sequer contemplam a possibilidade de o criador ter lucro (ou seja, poder viver da criação de cães)!

Vejamos agora o que NÃO incluem...

O que falta considerar…


Os custos acima discriminados:

•    NÃO incluem os custos de aquisição dos progenitores
Dependendo da raça – a sua raridade, o seu porte, a maior ou menor dificuldade de reprodução, os testes de saúde requeridos – e da qualidade do exemplar – o seu tipo, a sua ascendência, o seu potencial –, a aquisição de um potencial futuro reprodutor pode ser um investimento bastante dispendioso.

•    NÃO incluem os custos de avaliação de desempenho/qualidade dos progenitores (provas de morfologia e/ou trabalho)
Muitas pessoas pensam que, como apenas querem um cão para companhia, não precisam de se dirigir a um criador que participa em provas com os seus cães, ou que tem cães campeões de beleza ou de trabalho. Nada mais longe da verdade! A participação em eventos de morfologia, com a obtenção de resultados mínimos, é a única forma de se assegurar que os exemplares efectivamente se assemelham à raça a que pertencem. Por exemplo, conheço cães com pedigrees completíssimos cujo aspecto nada tem a ver com o típico da sua raça, fora o seu tamanho. Adicionalmente, como nestes eventos certos desvios de cáracter são penalizados (nomeadamente agressividade ou timidez excessivas), isto também permite uma maior confiança em que os animais terão um carácter no mínimo relativamente estável. Quanto à participação em provas de trabalho adequadas, nas raças a que se apliquem, tal permite assegurar que os cães continuam a exibir o comportamento típico da sua raça.
Participar nestes eventos não é barato, especialmente se for feito regularmente, mas é uma segurança adicional quanto à potencial qualidade dos exemplares criados.

•    NÃO incluem os custos de despistes de saúde ou de problemas genéticos
Sinceramente, se o criador lhe diz que não precisa de fazer despistes porque nunca viu nada de errado nos seus cães, fuja!! Já passámos há muito tempo a fase em que esta argumentação poderia funcionar.
Hoje em dia sabe-se que há doenças que só se manifestam em fases tardias da vida do animal, com consequências sérias para a sua qualidade de vida; outras que, por serem poligenéticas (devidas à acção de vários genes) precisam da combinação certa para se manifestarem; outras ainda em que o progenitor pode ser portador assintomático, mas quando é cruzado com outro portador origina cachorros afectados, etc.
Há algumas doenças para as quais nãos são conhecidas formas de despiste, e quanto a essas não se pode fazer nada, excepto estudar a fundo os pedigrees e evitar cruzar com indivíduos que se sabe ou suspeita estareem afectados.
Há outras doenças para as quais há formas de despiste mas não há testes genéticos, e como tal é preciso fazer exames de diagnóstico, uma ou mais vezes ao longo da vida do animal.
Há ainda algumas outras doenças para as quais já foi(foram) identificado(s) o(s) gene(s) responsável(eis) pela sua transmissão, pelo que é possível fazer o seu despiste, inclusive bastante cedo na vida do animal.
Claro que tudo isto tem custos. Por exemplo, um “simples” despiste de displasia de anca a um animal pode chegar a custar 300€. No Cão de Água Português, os exames normalmente requeridos para um exemplar desta raça podem chegar aos 800€ - tudo sem garantia que se venha a criar com o exemplar, caso não obtenha os resultados que se pretende nos testes.

•    NÃO incluem os custos de transporte até ao pai da ninhada
Um criador sério não irá cruzar apenas (nem sempre) com o macho que tem em casa. Ele irá procurar o macho mais adequado para a sua cadela, de forma a procurar obter os melhores cachorros possíveis, quer o cão esteja na rua ao lado, na outra ponta do país ou noutro país. Naturalmente, o transporte da cadela ao reprodutor, ou a recolha e transporte do seu sémen se a ninhada for feita por inseminação artificial, tem custos.

•    NÃO incluem problemas inesperados ao longo do ano
Qualquer pessoa que conviva com vários animais, ou mesmo com um único, sabe que, por muito cuidado que se tenha, há sempre acontecimentos inesperados – quer sejam feridas, infecções ou doenças – que têm de ser tratados adequadamente.
Nem incluem acasalamentos que, por qualquer razão, não originam cachorros, pelo que se perde essa época reprodutiva.


•    NÃO incluem os custos de manutenção dos restantes exemplares
Mesmo possuindo vários exemplares em idade reprodutiva, um criador responsável não irá criar com todos eles todos os anos, e muito menos em todos os cios. Irá criar quando encontrar uma combinação que ache que será benéfica para a raça e tiver casas adequadas onde colocar os cachorros. Isso significa que, em cada ano, ele terá alguns exemplares que não se irão reproduzir. Mas isso não significa que não tenham de ser tratados e alimentados tal e qual como qualquer outro!

•    NÃO incluem os custos do trabalho do criador
Se criar fosse efectivamente um negócio como qualquer outro, seria de esperar que o criador fosse compensado financeiramente pelo seu trabalho, como qualquer outro trabalhador, certo? E trabalho é coisa que não falta – tratar adequadamente dos animais, alimentá-los, mantê-los limpos e saudáveis, cuidar dos cachorros, providenciar estimulação física e mental aos adultos e aos cachorros… São horas e horas de trabalho semanal, frequentemente subtraídas ao tempo de descanso e familiar, e que raramente (se alguma vez!) são contabilizadas no cômputo geral.



O barato sai caro!


Viu acima os custos mínimos de criar um cão sem qualquer controlo sobre a sua qualidade. Indiquei em seguida alguns outros aspectos cruciais que contribuem para aumentar o preço dos cachorros criados – mas que também conduzem a sua morfologia, comportamento e saúde a padrões mais elevados, logo tornando-os muito mais prometedores.

Quando andar à procura de um cão e vir anúncios de cachorros da mesma raça à venda por 50€ ou por 500 € ou mais, pense bem no que estará a ser cortado no cachorro mais barato!
Lembre-se que o barato pode, a prazo, sair caro, quer a nível financeiro, quer emocional!


Carla Cruz
www.aradik.net


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segunda-feira, 23 de abril de 2012

Workshop sobre genética do pelo e cor em cães / Canine coat and color genetics worskhop

A convite do Clube Português do Cão de Pastor Belga, irei dar no dia 25 de Abril um workshop sobre a genética do pelo e das cores em cães. Se estiver interessado, inscreva-se através do Clube – clique aqui.

At the request of the Portuguese Belgian Shepherd Dog Club, I will be doing on April 25 a workshop aboutx coat and color genetics in dogs. If you are interested, you can still register through the breed club – click here.


quarta-feira, 11 de abril de 2012

So you want to be a breeder?

(Clique aqui para a versão portuguesa)

A few weeks ago I was contacted by a girl asking me countless questions about my puppies and their husbandry. I am the first to encourage potential puppy owners to ask all sorts of questions, but something started smelling funny. When I asked her about it, she answered she was asking all those questions because she would like to be a breeder. This has left me thinking about it…

What does it mean to be a breeder? Does one “want to become a breeder” as one wants to become a teacher, a doctor, etc.?



Who is a breeder?


 In its Regulations of the Portuguese Studbook, the Portuguese Kennel Club defines a “breeder” quite simply as “the owner of the bitch when she whelps”. This is obviously a broad and objective definition, more than enough for its role in pedigree issuing.

However, it tells us nothing about the goals of the breeders, which are in essence their main differentiation. I wrote before on this issue, you can read it by clicking here.

On one hand, there are those who breed with an explicit commercial goal, aiming to get their income through the production of puppies for sale.
Pragmatically, there’s nothing fundamentally wrong with this, as long as the animals are kept under the proper conditions. However, on order to maximize income, “shortcuts” are often taken, namely in regarding health care and screening; feeding quality; morphological, behavioral and/or functional assessment; breeding frequency; age the puppies are sold; etc. Rather than “breeders”, it might be more correct to call these people “producers”.

On the other hand, there are those who breed because they have a bitch (or male) and, for any excuse reason, at a given phase of the dog’s life or regularly, decide to breed a litter, without a defined reason or goal to achieve.

Finally, there are the real Breeders, those with a capital B. They are typically people who hadn’t even thought about being a breeder. They’re people who fell in love with a breed, who got some dogs first and foremost for their own pleasure, who committed themselves to study everything they could about the breed – behavior, function, health and/or genetic problems, breeding lines, etc. -, who often adopted the dog fancy “as a hobby (show and/or working trials).
They are people for whom breeding comes as a natural continuation of this passion and the knowledge about their breed they acquired over the years, always trying to improve it and get increasingly better animals. When they breed, they do it as a very thought-out action, aiming to get one or more dogs for themselves; selling puppies is mainly a “by-product” of this quest. They invest a lot on their dogs and litters and rarely (if ever!) manage to make a profit out of breeding.

Should dogs breed at least once in their life?

 

The myth that dogs (both males and females) should breed at least one in their life, so as they don’t get miserable/frustrated/insane, is still quite common!

This idea is maybe due to the fact that, as dogs grow up and achieve maturity, it is common to see them trying to hump chairs, sofas and even people’s legs, regardless of them being their owner’s or not. This does not mean, as many think, that the dog needs to breed or that he is trying to dominate his owner. It just means, quite simply, that the several sexual behaviors are starting to integrate and coordinate as a coherent functional chain.

As for the females, it is enough to think that in social wild canids in stable packs, most females defer breeding to the dominant female, so lack of reproduction does not affect them. Furthermore, any pregnancy in any species is always an additional stress and risk, which can indeed affect the animal’s quality of life.
Also, as far as we know, dogs are not capable of deep though moments; they cannot look back to their more or less distant past or future and think “Oh, how I would like to be a mother/father!”

The “miracle” of life


One of the most common excuses arguments used by those who breed their bitch without a defined goal is that it is important for their children to see the “miracle” of birth and life.

Well, I hope they are also prepared to teach their children about the “miracle” of the emergency trip to the vet if something goes wrong during whelping. And to teach them about the “miracle” of death – because even if nothing goes wrong during the birth and the female doesn’t die (it is always a risk to consider!), it is common that one or more puppies die during the first few days post-partum, due to a number of reasons.

What to do about the puppies?

 

If you are breeding because you want a puppy from your bitch/male, what to do to the rest of the puppies? Because hardly only you one puppy will be born…
If breeding because “it is important that children know how a birth occurs”, what to do to the puppies?
How many of us haven’t received, by e-mail or through social networks, forwarded messages from well-meaning friends, saying that “X puppies belonging to breed Y need to find an owner during next week or they will be put down”?

If you don’t have some previously arranged homes for your puppies, why are you breeding in the first place?
Are you prepared to explain to your children why you showed them the “miracle” of birth and then dumped the puppies somewhere or put them down because no one wanted them and you don’t have space/conditions/enough money to keep them?

Nowadays, even well established breeders, often with reserved puppies, are having increased difficulties in homing their dogs; many people show an interest but don’t follow through, others cancel their reservations due to (un)expected changes in their lives. For those who are not known in the breeding circuit, it is even difficult to find good homes for their puppies. Well, at least for those who take care in placing their puppies in homes that will not abandon them at the first "excuse" “problem”.

Health is important


It is known that dogs, according to their breed and/or size, are more or less prone to certain diseases. Even if their parents don’t exhibit them themselves, they may carry genes for some of them, and produce affected offspring if mated to other carriers; they may also be affected but not show them because they are still young (some diseases only show at later stages of life).

A person who only wants to breed for the sake of it will usually not worry about the possibility of producing sick dogs (after all, we always expect the best, we never think about what could go wrong, isn’t it?). Actually, some do it even knowing their dog has some kind of problem, just because it’s their favorite and they want offspring from him/her.

However, a serious breeder will naturally try to avoid breeding potentially sick puppies. How? By examining their potential breeding dogs, whether through genetic testing (if the genes for the diseases in cause have already been discovered) or by screening tests (trying to assess if the dog has clinical symptoms of the disease, even if they don’t show them openly).

Don’t think that, because you have a mongrel dog, or are breeding dogs of different breeds, you don’t need to worry about this. After all, the genes are the same throughout the whole species, even if the frequency of their alleles may vary. For example, large breed dogs are more prone to hip dysplasia, whether or not they’re purebreds. Breeding dogs belonging to two different breeds is not a reason not to test your animals; if both breeds are prone to the same disease(s), the puppies will not miraculously stop being affected just because they are crossbred!

Breeding takes effort and commitment!


Even if everything goes well, breeding isn’t just about putting a male and a female together, giving birth to the puppies, letting them grow up and hand them over to other people. It is an activity requiring time and dedication, so the puppies may have the best possible start.

It is necessary to watch the birth, to try to ensure there are no complications and the mother takes proper care of the puppies. It is necessary to watch, over the following weeks, if the puppies are suckling enough, if they are growing up well and if it is necessary to supplement them.
It is necessary to stimulate the puppies, physically and behaviorally, getting them used to different situations, sounds, smells, animals and people, so they grow up happy and emotionally stable.

It is necessary to weed out potential puppy owners, trying to ensure the future owner is capable of dealing with what can be expected from the breed’s typical behavior and trying to match individual characters of owners and puppies.

Breeding dogs does not take pity of the bitch’s owner chores. Is the mother incapable of taking care of the puppies for any reason (disease/death/insufficient milk/rejection)? It is up to the breeder to nurse them every 2 hours, day and night. Are you ill, depressed or having a family crisis? Tough, the puppies need to eat! Do you have a 9-18 h job and no one at home? Tough, the puppies need to eat! If you took the responsibility of bringing a litter of puppies to this world, we must also take the responsibility of raising it properly, even when their mother cannot or will not do it.

Decisions and dilemmas are part of the daily life

 

And what to do with that weakling, the puppy who would not normally survive? Should you try to save it at any cost, even knowing that in the long run that may negatively influence the breed’s viability and sturdiness (when latter on you breed with dogs that “shouldn’t” have survived)? Should you let it die, as that is what would have happened in a normal situation (but in a normal situation the bitch probably wouldn’t even bred)?

There is not a correct answer, a single or easy answer, but this is the type of moral decisions and dilemmas a breeder faces in each litter…

Do you still want to breed?


Breeding dogs and watching them grow up is indeed an unforgettable experience! It demands a lot of time and commitment, but when everything goes well, the benefits (for the breeder and the future owners) outweigh the concerns.
But you need to be prepared to the complications, something most people don’t like to think about and for which an inexperienced person (and sometimes even an experienced one) is usually unprepared for.

Think carefully if you want to breed your dog (male or female), ponder well on the reasons why you want to do it and think about what to do to the puppies (yes, this is also the stud owner’s responsibility, not just the bitch’s!). Most times it is better, financially and emotionally, to spay/neuter your dog (to avoid undesired mating and the troubles that come with it) and leave breeding for serious passionate breeders, who are willing to sacrifice themselves so each puppy born may be the best possible and lead a happy life from the beginning.


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Então queres ser criador?

(Click here for the English version)

Há umas semanas fui contactada por uma rapariga que me fez inúmeras perguntas sobre os meus cachorros e o maneio dos meus cães. Eu sou a primeira pessoa a encorajar os potenciais donos dos meus cachorros a fazerem todo o tipo de questões que lhes ocorra, mas algo me começou a parecer estranho. Quando confrontada, ela respondeu-me que estava a fazer essas perguntas para aprender porque gostaria de ser criadora. Isto deixou-me a pensar sobre o assunto…


O que é ser um criador? Será que se “quer ser criador”, como se quer ser professor, médico, etc.? 


O que é um criador?


No seu Regulamento do Livro de Origens Português e do Registo Inicial, o Clube Português de Canicultura define o “criador” simplesmente como “o proprietário da cadela na ocasião do parto”. Isto é, naturalmente, uma definição ampla e objectiva, mais do que suficiente para o seu papel na emissão de registos.

Porém, nada nos diz sobre o intuito dos criadores, que é no fundo a primeira diferenciação entre eles. Já fiz um outro post a abordar este assunto, pode vê-lo clicando aqui

Por um lado, temos quem crie com um intuito declaradamente comercial, com o objectivo de obter o seu rendimento através da produção de cachorros para venda.
Pragmaticamente, nada há nada de fundamentalmente errado com isto, desde que os animais sejam mantidos em condições adequadas. No entanto, muitas vezes, para maximizar o rendimento, fazem-se “atalhos” pelo caminho, nomeadamente no maneio higieno-sanitário, na qualidade da alimentação, na realização de despistes de saúde, na verificação prévia da aptidão morfológica, comportamental e/ou funcional, na frequência de reprodução, na idade em que os cachorros são vendidos, etc. Mais do que “criadores”, talvez fosse mais correto chamá-los “produtores”.

Depois há quem crie porque tem uma cadela (ou cão) e, por qualquer desculpa razão, em qualquer fase da sua vida ou regularmente, decide fazer uma ninhada, sem que tenha uma razão definida para o fazer ou um objectivo a alcançar.

Finalmente, há os verdadeiros Criadores, aqueles com letra maiúscula. Frequentemente, são pessoas que nem sequer planearam vir a sê-lo. São pessoas que se apaixonaram por uma raça, que adquiriram alguns exemplares antes de mais para seu prazer, que se empenham a estudar a fundo tudo o que puderem sobre ela – comportamento, funcionalidade, problemas de saúde e/ou genéticos, linhas de criação, etc. –, frequentemente que foram “mordidas pelo bichinho” da canicultura enquanto hobby (provas de beleza e/ou práticas).
São pessoas para quem criar vem como uma extensão natural desta sua paixão e do conhecimento sobre a raça que foram adquirindo ao longo dos anos, na tentativa de a melhorar e de obter exemplares cada vez melhores. Quando criam, fazem-no como um acto muito ponderado, e com o intuito de obterem um ou mais exemplares para si; a venda de cachorros é essencialmente um “sub-produto” desta demanda. Investem muito nos seus exemplares e nas ninhadas, e raramente (se é que alguma vez!) obtêm, no cômputo geral, lucro através da criação.

As cadelas (e cães) devem criar pelo menos uma vez na vida?

 

Ainda é muito persistente o mito que os cães (e cadelas) devem criar pelo menos uma vez na vida, para não ficarem infelizes/frustrados/loucos!

Esta ideia será talvez devida ao facto de, à medida que os cães vão crescendo e alcançando a maturidade, ser comum vê-los a tentar montar cadeiras, sofás e mesmo as pernas das pessoas, sejam ou não os seus donos. Isto não significa, como muitos pensam, que o cão precisa de acasalar ou que está a querer dominar o dono. Significa simplesmente que os vários comportamentos relacionados com a sexualidade se estão a começar a integrar e coordenar numa cadeia coerente e funcional.

Quanto às cadelas, basta pensar que, nos canídeos sociais em estado selvagem, em alcateias estáveis, a maioria das fêmeas defere a reprodução em favor da fêmea dominante, para constatar como a ausência de reprodução não as afecta. Mais, qualquer gravidez em qualquer espécie, é sempre um stress e risco adicional que pode efectivamente comprometer a sua qualidade de vida.
Adicionalmente, tanto quanto se sabe, os cães não são capazes de momentos de retrospectiva, não são capazes de olhar para o seu passado ou futuro mais ou menos distantes e pensar “oh, como gostaria de ser mãe/pai”.

O “milagre” da vida


Uma das desculpas argumentações mais frequentemente ouvidas por quem cria com a sua cadela sem um objectivo definido é o de que é importante para os seus filhos assistirem ao “milagre” do nascimento e da vida.

Bem, espero que estejam também preparados para ensinarem aos seus filhos o “milagre” da corrida de emergência para o veterinário se algo correr durante o parto.

E para lhes ensinarem o “milagre” da morte – porque mesmo que não se passe nada de errado durante o parto e a cadela não morra (é sempre um risco a ponderar!), é comum que um ou mais cachorros morram nos primeiros dias após o parto, por razões várias.

O que fazer aos cachorros?

 

Se está a criar porque quer um cachorro da sua cadela/do seu cão, o que fazer aos restantes cachorros? Porque dificilmente irá nascer só um…
Criando porque “é importante que as crianças saibam como ocorre um nascimento”, o que fazer depois aos cachorros?
Quantos de nós não recebemos já, por e-mail ou nas redes sociais, mensagens reencaminhadas de amigos bem intencionados, dizendo que “X cachorrinhos da raça Y precisam de encontrar dono na próxima semana senão serão abatidos”?

Se não tem destino previamente preparados para os seus cachorros, porquê criar? Está preparado para explicar aos seus filhos porque é que lhes mostrou o “milagre” do nascimento e depois largou os cachorros num sítio qualquer ou os mandou abater porque ninguém quis ficar com eles e não tem espaço/condições/dinheiro para ficar com mais cães?

Cada vez mais, até os criadores bem estabelecidos, frequentemente com reservas prévias, estão a ter dificuldades em entregar os seus cachorros; muitas pessoas revelam interesse mas depois não concretizam, outras cancelam as suas reservas devido a mudanças (in)esperadas nas suas vidas. A dificuldade em encontrar bons donos para quem não é conhecido é ainda maior. Bem, pelo menos para quem se preocupa em que os seus cachorros vão para casas em que não os abandonem à primeira "desculpa" “contrariedade”.

A saúde é importante


Sabe-se que os cães, consoante a sua a raça e/ou o seu porte, são mais ou menos propensos a determinadas patologias. Mesmo que os progenitores não as manifestem eles próprios, podem ser portadores de genes para algumas delas, e produzir descendência afectada se acasalarem com outros portadores; podem ainda estar afectados mas não a(s) manifestar(em) por serem ainda novos (algumas doenças apenas se manifestam em fases mais tardias da vida).

Uma pessoa que apenas queira criar por criar tipicamente não se irá preocupar com o facto de poder vir a criar cães doentes (afinal, todos esperamos apenas o melhor, nunca pensamos no que pode correr mal, não é?). Aliás, algumas fazem-no mesmo sabendo que o seu animal tem algum problema, apenas porque é o seu preferido e querem um filho dele.

Porém, um criador sério irá naturalmente tentar evitar criar cachorros potencialmente doentes. Como? Fazendo exames prévios aos seus potenciais reprodutores, quer testes genéticos (se os genes para as doenças em causa já tiverem sido identificados) quer testes de despiste (tentando averiguar se o exemplar apresenta sintomas clínicos da doença, mesmo que não seja ainda possível aperceber-se dela).

Não pense que, tendo um cão sem raça, ou cruzando cães de raças diferentes, não precisa de se preocupar com isto. Afinal, os genes são os mesmos em toda a espécie; a frequência de ocorrência dos seus alelos é que pode variar. Por exemplo, cães de grande porte estão mais propensos à displasia da anca, sejam ou não de raça. Cruzar cães de duas raças diferentes não é uma razão para não testar os seus animais; se ambas tiverem propensão à(s) mesma(s) doença(s), os cachorros não vão miraculosamente deixar de poder ser afectados só por não serem de raça pura!

Criar exige esforço e dedicação!


Mesmo quando tudo corre bem, criar não é simplesmente cruzar um cão com uma cadela, deixar os cachorros nascer, crescer e entrega-los a outras pessoas. É uma actividade que exige tempo e dedicação, para que os cachorros tenham o melhor início de vida possível.

É necessário vigiar o parto para tentar garantir que não há complicações e que a mãe cuida adequadamente dos cachorros. É necessário vigiar, ao longo das semanas seguintes, se os cachorros mamam o suficiente, se estão a crescer bem, e suplementar se necessário.
É necessário estimular os cachorros, física e mentalmente, habituá-los a várias situações, sons, cheiros, animais e pessoas, de formam a que cresçam felizes e emocionalmente estáveis.

É necessário fazer a triagem das pessoas interessadas nos cachorros, de forma a tentar assegurar que o futuro dono está apto para lidar com o que se pode esperar do carácter da raça e tentar conjugar os feitios individuais dos donos e dos cachorros.

A criação de cães não se compadece dos afazeres do dono da cadela. A mãe, por qualquer razão (doença/morte/leite insuficiente/rejeição) não pode cuidar dos cachorros? É ao criador que recai a responsabilidade de lhes dar de mamar de 2 em 2 h, de dia e de noite. Está doente, com uma depressão ou com uma crise familiar? Azar, os cachorros precisam de comer! Tem um trabalho das 9 h às 18 h e não tem ninguém em casa? Azar, os cachorros precisam de comer! Se se responsabilizou por pôr uma ninhada de cachorros no mundo, tem também de se responsabilizar por a criar adequadamente, mesmo quando a mãe deles não o pode ou consegue fazer.

Decisões e dilemas fazem parte do dia-a-dia

 

E o que fazer com aquele cachorro mais fraco que em condições normais iria morrer? Tentar salvá-lo a todo o custo, mesmo sabendo que a prazo isso pode comprometer a viabilidade e robustez da raça (por mais tarde se criar com cães que não “deveriam” ter sobrevivido)? Deixá-lo morrer pois isso é o que aconteceria numa situação normal (mas numa situação normal a cadela provavelmente nem se teria reproduzido)?

Não existe uma resposta correcta, única ou fácil, mas este é o tipo de decisões e dilemas morais com que um criador se depara em cada ninhada…

Ainda quer criar?


Criar cães e vê-los crescer é sem dúvida uma experiência inolvidável! Exige muito tempo e dedicação, mas quando tudo corre bem, os benefícios (para o criador e para os futuros donos) suplantam as preocupações.
Mas há que estar preparado para as complicações, algo em que a maioria das pessoas não gosta de pensar e para as quais uma pessoa inexperiente (e por vezes experiente) não está normalmente preparada.

Pense bem se quer criar com o seu cão/cadela, analise bem as razões porque o quer fazer e pondere o que fazer aos cachorros (sim, isto também é uma responsabilidade do dono do macho, não apenas do da cadela!). Na maioria das vezes, é preferível, financeira e emocionalmente, castrar o seu animal (para evitar reprodução não desejada e os transtornos que isso origina) e deixar a criação para os criadores sérios e apaixonados, dispostos a sacrifícios para que cada cachorro que nasce seja o melhor possível e tenha uma vida feliz desde o início.

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quinta-feira, 29 de março de 2012

Breeding goals

(Clique aqui para a versão Portuguesa)


At ringside conversations, I occasionally hear breeders whining they don’t know what type is preferred in their breed and that their breed club should issue guidelines about that.
I confess this type of commentaries always gives me the chills. For several reasons…

Breed standards

Breed standards are vague enough in their descriptions to allow for different interpretations and, as such, for different breeding lines – all while their individuals are still clearly identifiable as belonging to their breed.
This is actually beneficial, as it allows for different breeders to pursue their goals without risking breeding in close inbreeding, which would unquestionably happen if everyone started breeding the same type (line) of dogs.


Barbado da Terceira Female Open Class judging at Lisbon's 118th International Show.  You can see several types, but all dogs are clearly identifiable as being Barbado da Terceira.

The role of breed clubs

Should breed clubs issue guidelines about which type of dogs is preferred in their breed?
Breed clubs should issue procedure guidelines their associates would follow to try to breed litters as healthy and close to the standard as possible, namely regard health screening and minimum results at conformation, work and/or sociability tests. An extremely important role they could accomplish regards producing an illustrated standard, with images and photos showing desirable and undesirable traits.
But should they influence a breeder’s breeding work? There are proper places to evaluate the merits or lack thereof of this work, namely conformation and working trials!

A breeder’s goals

If the breeder doesn’t know what kind of dog he should breed, what is he doing breeding??
Breeding should be a natural expansion of a passion for the breed, of its in-depth study, of getting to know the several lines it has and, inherently, of choosing a preferred type!

Should “breeding X litters a year” be a breeder’s goal? Or should the goal be trying to get the dog he idealized as the correct type?

How will he breed if he doesn’t have an obvious goal to achieve? How will he choose the type of dog to complement his bitch’s flaws and virtues if he doesn’t know what he wants to complement?

X litters a year should be, at most, a by-product of trying to achieve a defined goal.

Breeding… or producing dogs?

Some “breeders” will merely breed the same couple over and over again. They’re doing nothing more than flooding the “market” with “photocopies” which, pretty as they may be, will quickly cease to contribute towards their set goal within the breed as a whole – this, of course, if they have a set goal! And what will happen when one member of the couple dies? They will have to start over again, without a progressive improvement work that will ensure, as much as possible, a relative homogeneity, within their preferred type, throughout the generations.

Besides, with so many closely related dogs competing, it is easy for the public to assume that is the ideal type, when it’s nothing more than the “flooding” of a line of dogs (can we call it “line” when it is nothing more than repeated litters from the same breeding couple??)

The search for immediate satisfaction…

Not knowing what type of dog he wants, the breeder mates his bitch to the winning dog of the moment, under the assumption that if the dog is winning so much he must be good. However, in dog shows as in so many things in life, fads and trends often dictate who is winning and when. And fads are often short-lived. Considering it takes at least a couple of years since you decide to breed with a certain dog until you have an adult dog capable of competing on an equal level with the rest of its breed (specially in medium/large breeds and/or with exuberant coat), there’s a serious risk that by then the “fad” is different and the “champion” we were so “committed” to breed may already be an “undesirable” type. In each litter we will have to start over again, towards the “goal” of breeding the type that is winning right now.

Not only that, he is also potentially creating problems regarding the breed’s genetic diversity – if we all breed with the same wining dog, unavoidably we will be increasing the breed’s inbreeding level!

vs. long term results

On the other hand, if you have an ideal type in our mind, you can gradually try to step forward towards your concrete goal. Sometimes you may get better litters, sometimes worse, but you will always be thinking at least one or two generations ahead, searching for the mating that will take you one step closer to our goal.

You may or may not be breeding the current wining type, but regardless of show results, there will always be one satisfaction – while continuing to work within the breed standard, you will be breeding the dog YOU like! Shouldn’t that be the goal?!


Carla Cruz
www.aradik.net


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Objectivos na criação

(Click here for the English version)

Em conversas à beira de ringue de exposições, ocasionalmente ouço lamúrias de criadores que se queixam que não sabem que tipo se quer na sua raça e que o clube de raça deveria emitir orientações a esse respeito.
Confesso que este tipo de comentários sistematicamente me provoca calafrios. Por várias razões…

Os estalões

Os estalões de raça são suficientemente amplos nas suas descrições para permitir diferentes interpretações e, como tal, a ocorrência de diferentes linhas de criação – sem que por isso os exemplares deixem de ser claramente identificados como pertencentes à sua raça.
Isto até é benéfico, pois permite que diferentes criadores possam prosseguir os seus objectivos sem correrem o risco de se começar a criar em consanguinidade estreita, o que inevitavelmente irá ocorrer se todos começarem a criar com o mesmo tipo (linha) de cães.


Julgamento da Classe Aberta Fêmeas na raça Barbado da Terceira, na 118ª ECI Lisboa. Pode ver-se vários tipos diferentes de animais, mas todas são claramente reconhecíveis como sendo Barbados da Terceira

A função dos clubes de raça

Será que é função dos clubes emitirem diretrizes sobre que tipo de cão é preferido na raça a que se dedicam?
Os clubes de raça deveriam emitir normas relativas aos trâmites que os criadores seus associados devem cumprir para tentar criar ninhadas o mais saudáveis e próximas ao estalão possível, nomeadamente no que respeita a despistes de saúde aos progenitores e resultados mínimos que estes devem obter em provas de beleza, trabalho e/ou socialização. Um papel extremamente importante que poderiam ter diz respeito à elaboração de um estalão ilustrado, com imagens e fotografias ilustrando detalhes desejáveis ou indesejáveis num cão.
Mas será que alguém deve condicionar o tipo de criação de um criador? Existem locais próprios para avaliar os méritos e deméritos desse trabalho, nomeadamente as provas de beleza e de trabalho!

Os objectivos dos criadores

Se o criador não sabe o tipo de cão que deve criar, o que é que está a fazer a criar??
Criar deveria ser uma extensão natural da paixão pela raça, do seu estudo aprofundado, do conhecimento das várias linhas e, por inerência, da escolha do tipo que mais se gosta!

Será que “fazer X ninhadas por ano” deve ser o objectivo de um criador? Ou deveria ser o tentar obter o cão que se idealizou como sendo o tipo mais correcto?

Como é que se vai criar se não se tem um objectivo palpável a alcançar? Como é que o criador vai escolher o tipo de cão a utilizar para compensar os defeitos e virtudes da sua cadela se não sabe o que é que quer complementar?

As X ninhadas por ano, quando muito, vêm como uma consequência de se tentar alcançar o objectivo pretendido.

Criar… ou produzir cães?

Alguns “criadores” limitam-se a reproduzir repetidamente o mesmo casal. Nada mais estão a fazer do que a inundar o “mercado” com “fotocópias”, que, por muito bonitas que sejam, rapidamente deixam de contribuir para progredir em direcção ao que terá idealizado como o objectivo a alcançar a nível de raça no seu conjunto – isto, claro, se tiverem idealizado um objectivo! E quando um dos reprodutores morrer? Terão de recomeçar da estaca zero, sem um trabalho gradual de melhoramento que permita assegurar, tanto quanto possível, uma relativa homogeneidade morfológica, dentro do tipo que gosta, ao longo das gerações.

Além de que, com tantos cães estreitamente aparentados a competir, será fácil para o público assumir que esse é o cão ideal, quando não é mais do que a “inundação” de uma linha de cães (será que se pode chamar “linha” quando se fala de ninhadas sucessivas do mesmo casal reprodutor??)

A procura da satisfação imediata…

Não sabendo o tipo que se quer, cruza-se a cadela com o cão que anda a ganhar as exposições, com base no pressuposto que se o cão ganha tanto é porque deve ser bom.
No entanto, em exposições como em tanta coisa na vida, as modas e tendências frequentemente ditam quem ganha em que altura. E as modas são frequentemente uma coisa de pouca duração. Considerando que levará pelo menos uns dois anos desde que se decide cruzar com determinado cão até se ter um cão adulto capaz de competir em pé de igualdade com os restantes exemplares (nomeadamente no caso de se tratar de raças de médio/grande porte e/ou com pelagem abundante), corre-se o risco sério de nessa altura já a “moda” ser outra, e o “campeão” que tanto nos “empenhámos” a criar poderá ser já de um tipo “indesejável”. Em cada ninhada teremos de recomeçar da estaca zero em direcção ao “objectivo” de criar o tipo que está a ganhar neste momento.

Isto além de estarmos potencialmente a criar problemas a nível da diversidade genética na raça – se todos cruzarmos com o mesmo cão ganhador, inevitavelmente estaremos a aumentar o nível de consanguinidade na raça!

…vs. resultados a longo prazo

 Por outro lado, se tivermos o nosso tipo de cão idealizado na nossa mente, poderemos ir gradualmente tentando progredir em relação ao nosso objectivo, palpável. Umas vezes poderemos obter ninhadas melhores, outras piores, mas estamos sempre a pensar pelo menos uma ou duas gerações à frente da actual, em busca do cruzamento que nos deixará mais perto do objectivo.

Poderemos estar ou não a criar o tipo de cão que está a ganhar nessa época, mas independentemente dos resultados em exposição, haverá sempre uma satisfação – continuando a trabalhar dentro do estalão da raça, estamos a criar o cão que NÓS gostamos! Não deveria ser esse o objectivo?!

Carla Cruz
www.aradik.net


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